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Balada para um jovem qualquer

Arte: Felipe Lima
Arte: Felipe Lima

Algo como duas gerações de brasileiros nunca ouviram falar do personagem “Jovem” – um dos adoráveis estranhos criados por Chico Anysio. A juventude, aliás, fazia parte de suas especialidades cômicas. Ponha-se na lista o sem-noção Bozó, que passava cantada nas gurias dizendo “trabalhar na Globo”, e o escorregadio Patropi – assim chamado, suspeito, em homenagem à inigualável versão de seu amicíssimo Wilson Simonal para a canção País Tropical, de Jorge Ben Jor.

Anysio era passional – e costumava reservar remédios amargos para seus desafetos. Não se pode afirmar que odiava a rapaziada, mas é improvável que a amasse, daí tê-la tratado com generosas gotas de fel. Os personagens jovens de sua incontável galeria de tipos seguiam sempre a mesma cartilha: tinham problemas em pegar no batente, idade mental de 12 anos, pouco sucesso com as mulheres, merecedores de uma das gírias da década de 1970: não passavam de “bocós de mola”, incapazes de provocar admiração ou cumplicidade.

Nesse sentido, o humorista seguia a média nacional. O Brasil, a rigor, não morre de amores por seus moços, pobres moços. Ainda que a parcela mais civilizada do mundo tenha entendido que não haverá país nenhum sem eles, os jovens, permanecemos agarrados – firmes e fortes – à mais tacanha das tradições ibéricas, para as quais não passam de marmanjos, e assim devem ser tratados. É como se ecoasse nos céus da nação verde-amarela uma das máximas de Nelson Rodrigues: “Jovens, envelheçam”.

Justiça seja feita, vai longe o sadismo lusitano de tratar os filhos na base do berro e lambadas de cabo de enxada. O Brasil produziu uma política de proteção quase perfeita, expressa no Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA; saltou de 4% para 13% de universitários; e reconhece que não é mais um país com jovens a dar com o pé, o que implica em se coçar para tirar proveito do bônus demográfico que ainda nos beneficia. Em breve, com a queda da natalidade, seremos uma terra de madurões e vovôs.

Na essência, contudo, pouca coisa mudou. O pouco caso com a juventude é uma camada profunda da cultura, resistente a perfurações, de modo que parecemos fadados a cometer crimes contra esse grupo. O maior deles é lhes negar o futuro. Tal delito se repete a cada vez que um adulto repete o mantra do “no meu tempo é que era bom”. A situação lembra o delicioso filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, no qual um jovem escritor desiludido com o presente se transporta aos loucos anos 20, e depois à Belle Époque, em busca de uma época que merecesse ser vivida.

Alguém diria que sempre foi assim. Nocauteados pelo passar dos anos, os mais velhos costumam dar um golpe baixo e se vangloriar da própria sorte. O ataque não passa de uma defesa, uma vez que pouco pode ser feito, diante de um tapete de folhas secas. Mas no século 21 essa tática de guerrilha existencial se tornou algo doentio. O filósofo Luc Ferry – no necessário e urgente ensaio A revolução do amor – chama de bougisme a necessidade intermitente de reverenciar o passado. Para Ferry, é como se uma febre vintage assombrasse o planeta, fazendo do globo um imenso brechó visitado por melancólicos, refratários à frieza metálica (e digital) do futuro.

Nem os jovens costumam se safar dessa cilada, alheios, quem sabe, a uma verdade expressa à perfeição pelo poeta Mário Quintana: “O passado não reconhece o seu lugar. Está sempre no presente”. O discurso sobre o ontem nasce entre o café da manhã e o almoço, não mais do que isso. Mas feitiço é feitiço. As pesquisas comprovam a descrença quase hipnótica na qual está lançada a turma dos “verdes anos”. Não são estudos aos borbotões – como poderiam ser –, mas os poucos levantamentos disponíveis sobre a juventude brasileira trazem ecos desse je ne sais quoi, uma espécie de Bonjour tristesse, de Françoise Sagan, mas nascido ao som de raps e bate-estacas eletrônicos baixados no iPad.

Como de todo o resto, contudo, o atual estado de espírito da juventude não é assunto para amadores. A começar pela palavra. A anos-luz do sentido explosivo que tinha na década de 1960 – debaixo do poderoso bordão “quando penso em revolução, quero fazer amor” –, a “juventude” não cabe mais no singular. Os estudiosos do tema, gente bamba como Mirian Abramovay, José Guilherme Magnani e Michélle Petit, por certo preferem o plural. “Juventudes”. A escolha é poética, precisa e, de resto, salva de reduzir o debate às conversas amenas sobre o grupo de jovens da paróquia. Está se falando de uma turma que morre mais no trânsito, mais exposta à violência, mais propensa ao desemprego, ao suicídio, convidada sem pudores a descascar todos os pepinos do que algum engraçadinho inventou de chamar de pós-modernidade.

Não está sendo nenhum refresco. Pela primeira vez uma geração inteira se levanta da cama para ir à escola sem saber o mínimo sobre como será o tal do amanhã, para o qual, em tese, estão se preparando. Podem chamar de desafio e coisa e tal, mas é cruel com quem mal viu nascer os primeiros fios de barba. Sem falar no desperdício de talentos. Em entrevista, anos atrás, o filósofo Gilles Lipovetsky desabafou a respeito. Acabou por traduzir um sentimento cósmico. Nunca houve uma moçada tão sabida. Há mais faixas de jovens versados em idiomas, viajados, preocupados com as minorias e devotados ao meio ambiente. A demora em lhes permitir o que mais desejam – “uma experiência” – é, francamente, uma sacanagem digna do mundo adulto, pródigo em desmanchar prazeres.

Semana passada, um dos noticiários apontava a descrença dos mais jovens nos partidos. Outra notícia, mais adiante, indicava o pé atrás da gurizada com essa sarabanda em que se transformou a reforma da Previdência. Em 2008, há quase uma década, um levantamento do Datafolha cantava a bola de que jovem tinha medo de crime, do que seria de seus pais, de não conseguir emprego, nutria descontentamento com o corpo. Entre um comitê eleitoral e uma ONG, preferiam a ONG, maneira mais rápida, prática e honesta de tocar a realidade. Àquela altura, pulsava a fé na religião, inclusive por ajudar a fazer amigos, sonho desses meninos e meninas com escassos irmãos, primos e vizinhos. Quatro anos depois, não mais. No Mapa das Religiões de 2012, crescia o ateísmo e a ausência de vínculo confessional nas duas pontas dessa corda: os jovens mais pobres e os mais escolarizados diziam “não” aos credos, cada grupo com seus motivos. Em comum, talvez a solidão, talvez o individualismo.

Tudo isso é para dizer – e não sou eu quem diz – que existe uma pauta capaz de nos redimir da pasmaceira ideológica em que nos metemos: a juventude, no plural, de preferência. Ainda faz eco no ouvido o brado do economista britânico Tony Atkinson, morto em janeiro último. Achavam-no um doido varrido quando dizia que cada pobre do mundo deveria ganhar uma herança mínima, assim que se tornasse jovem. Que usassem a grana para estudar, viajar e inventar, o que lhes é natural. Mudaria tudo, garantia. Atkinson defendia suas ideias libertárias com bases estatísticas sólidas – era, afinal, um homem dado a cálculos. Mas também gostava de citar a balada My back pages, de Bob Dylan, música-manifesto sobre as ideias que se tornam mapas que nos farão sair do lugar. Sabemos quem há de fazer essa cartografia. Pois é, parece apenas romântico, mas também parece possível.

Confira o arquivo de colunas de José Carlos Fernandes publicadas na Gazeta do Povo até junho de 2017.