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Renato Perré, o filho da Lua

Foto: Paulinha Koslowski / Arte: Felipe Lima
Foto: Paulinha Koslowski / Arte: Felipe Lima

O ator, diretor e autor de teatro Renato Perré tinha 20 e poucos anos quando a polícia baixou na chácara em que ele vivia, em Campo Grande, Rio de Janeiro. Foi em meados da década de 1970, auge da ditadura, tempo de jujubas amargas. O endereço era um reduto da contracultura – à moda do formado pelo grupo Novos Baianos, o da Baby e do Pepeu. Bem lembra. Naquela madrugada, alguns dos 15 a 20 moradores foram agarrados pelos cabelos – do jeito que estavam quando dormiam, em trajes de Adão. Depois de quebrarem o telhado, em busca dos bagulhos, os tiras puseram todo mundo em cana, mesmo que todo mundo avisasse em coro que ali só tinha artista. “Artistas? (risadas) Então toca aí para a gente ver”. Pois os cabeludos executaram música renascentista, com flauta e violão, mesmo algemados. Uma orquestra de pelados. Dá para imaginar.

O episódio – contado por Perré às gargalhadas – se deu na comunidade Centro Experimental Leonardo da Vinci. O nome era metido a besta, parecido à subseção de alguma Sociedade Dante Alighieri, mas a turma que vivia lá gostava de andar de pé no chão, vestir bata de algodão e bater palmas para o sol. Vivia-se em cabana de bambu e se falava mais de poesia do que do raio dos irmãos Geisel. “Era bem hippie e utópico, tanto que não deu certo”, diverte-se o sobrevivente.

É uma meia verdade. Em 1981, findado o sonho, Perré, a então companheira Maria Luiza Marques, a filha de colo Natu e a mãe dele, Teresa, desembarcaram em Bocaiúva do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, com uma missão: reeditar nas terras frias o delírio tropical fluminense. Endereço da trupe: o sítio Terrinha. Nascia a Companhia de Teatro Filhos da Lua – que pulou muitas fogueiras até chegar a 2017. Em 36 anos, a “Filhos” encenou 35 espetáculos. Cresceu, encolheu, partiu para a briga, virou em parte a ONG Instituto Terrinha Cultural, que oferece vivências cênicas para a piazada do município que ficou famoso por seu projeto de óvniporto. Pesquise na internet – é um clássico. A propósito, o artista mora ainda hoje em Bocaiúva. Enquanto os ETs não vêm, escreve peças e se distrai com as galinhas que cria no quintal.

Ninguém ainda se deu ao trabalho de botar no papel o impacto da Cia. Filhos da Lua no teatro paranaense. Numa era pré-Festival de Curitiba, a trupe encenava espetáculos nas praças, fazia a alegria dos contidos curitibanos no Circo da Cidade. Em vez de contos de fada para domesticar pimpolhos, oferecia tradições indígenas e caboclas. A música era ao vivo, com a fina parceria dos bambas Luiz Rogério Gulin, Jorge Vigário e Mário José Negretti. Em tempos de vaca magra, vaca que foi para o brejo, vaca sagrada e congêneres, o líder do grupo partiu para a produção solo e engatou dois de seus maiores sucessos: Terezinha, história de amor e perigo e Nau, um poema cênico.

Injusto reduzir Perré a Terezinha. Blasfêmia falar dele sem lembrar do espetáculo em que ele entrava em cena, digamos, a bordo de uma colher de pau. Poucos fizeram tanto com tão pouco. Foi seu O mistério de Irma Vap. Por alto, somam-se mais de 300 apresentações, com um público cativo que se dispôs a “seguir” Perré, numa época em que a palavra não tinha o sentido de hoje. Nada mal para o sujeito magrela, cabelos em eterna despedida e nariz quebrado que chegou a Curitiba com todos os requisitos para ser rotulado de “forasteiro”: não nutria ligações com o teatro local – empoleirado em torno do Guaíra – e era mais hippie que toda a galera do Paulo Leminski junta. Morava no mato, inclusive.

Familiaridade, apenas com o escritor Wilson Rio Apa – criador de comunidades alternativas em Antonina, na década de 1960. Por ironia, só o conheceu em pessoa muitos anos depois, em idas ao anfiteatro criado pelo guru na Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Quando se viram, entenderam que eram pai e filho e não sabiam. Foi a Perré que Apa, morto em 2016, confiou alguns escritos teatrais que por ora repousam, à espera do momento certo. Bonito.

Os fissurados em saber “como nasce um artista” encontram nesse moço o roteiro perfeito. Para começar, o nome do “cabra” é Renato Paulo Carvalho Silva. O “Perré” surgiu da traquinagem de um de seus irmãos, que o irritava com onomatopeias arrancadas do fundo do gogó. Uma delas formava o som “perrrrréeee”. Pois Perré ficou, até porque a turma alternativa da Baixada Fluminense amou o mix de francês, espanhol e gíria de maluco. O nome foi parar nos cartazes de teatro, a ponto de ele nem responder quando o chamam pela identidade. E se alguém pergunta baixinho na plateia “quem é o Perré?”, a resposta vem no ouvido: “O do nariz”.

É só um fait divers. Punk mesmo é saber que a estreia cênica desse criador se deu numa montagem religiosa, numa igreja presbiteriana do subúrbio do Rio de Janeiro. Seu pai era pastor. Sua mãe, a mulher do pastor. Não se assustem: “Ele era brincante. Ela, bonequeira”. O pesquisador Felipe Lindoso escreveu que alguém ainda vai mensurar o quanto as religiões fizeram pela formação de leitores no Brasil. Podem ter superado as escolas. O mesmo se diga sobre o quanto as igrejas beneficiaram o teatro. O encenador Marcelo Marchioro, por exemplo, montava vias-sacras com crianças da catequese orientadas por sua mãe. A mãe do Perré comandava as encenações bíblicas e moralizantes, que incluíam no elenco algum de seus sete filhos. Estavam à mão.

Renato, o sexto da dinastia, levou a conversa tão a sério que em 1976, aos 17 anos, acabou nas fileiras da tradicional Escola Martins Pena, dirigida à época pelo mestre da corporalidade Klauss Vianna, coreógrafo de Roda Viva. Em certo sentido, nunca mais saiu de lá, fiel que é a tudo o que viu e ouviu. Define o ambiente como criativo e combativo, duas palavras que, não por menos, são as usadas pelos amigos quando querem resumi-lo, como se fosse possível.

A propósito, a ética protestante pesou nas costas, mas também lhe deu asas. Os Carvalho da Silva podiam comandar com pulso firme a escola bíblica de Ramos, Leopoldina ou Bonsucesso, para citar alguns lugares por onde peregrinaram. Mas também se entregavam com apetite às melhores literaturas, o que incluía a leitura diária dos jornais. Mantinham a casa cheia de livros, o piano de plantão e a cantoria. “Papai lia Drummond, assinava o Jornal do Brasil”, sintetiza. O casal também era pouco dado a cadeados na porta. Renato menino cansou de escapulir para ver os ensaios da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, na quadra ali perto. Não recorda ter sido punido – até porque àquela altura Cristo, Lutero, os sambistas da velha guarda, mais Gandhi e Timoty Leary, entre outros, já formavam a comissão de frente da escola imaginária na qual desfilava.

Não resultou num Frankenstein, mas num teimoso homem de Rousseau, dado a injetar poesia na máquina da vida, a falar de temas essenciais, a ser inquieto e a mandar as máscaras para as cucuias, sempre debaixo de elegância irretocável. O mais novo espetáculo de Filhos da Lua – Tempo, tragicomédia inacabada –, com direção de Adriano Esturilho, em cartaz no Teatro Novelas Curitibanas desde a última sexta-feira, não foge à regra. É uma jornada de herói experimental, contada com música, dança, bonecos e gente. O protagonista é “H”, ele mesmo, Perré, um sujeito ocupado de libertar as horas sequestradas. Qualquer refém das mensagens intermitentes de um celular sabe do que o ator está falando em cena. Tem sido assim, faz 30 e tantos anos.