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Poderosas, mas sem perder a ‘feminilidade’

Berg Silva/ÉPOCA
Vanessa Cunha e Hildelene Lobato Bahia a bordo do petroleiro que comandarão juntas a partir do dia 17

Uma excelente notícia circulou pelos jornais e pelas redes sociais ontem, segunda-feira, dia 22/01:pela primeira vez na história do Brasil, um navio brasileiro será comandado por duas mulheres – uma como comandante e a outra como imediata (o segundo posto mais importante na Marinha Mercante).

A comandante (enquanto escrevo, o Word corrige e sugere o artigo masculino na frente do substantivo – ‘o comandante’), a paraense Hildelene Lobato Bahia, se tornou a primeira comandante mulher da Marinha Mercante em 2009. A partir do dia 17 deste mês, terá uma imediata também mulher, a carioca Vanessa Cunha, daí a novidade, que merece comemoração.

O que surpreende nas várias matérias veiculadas é a importância do chavão “são mulheres em postos de comando e em “profissões masculinas”, mas não perderam a vaidade”. Em quase todas as matérias que se dispõem a comemorar o feito ou atentar para o pioneirismo da ação, lá está o parágrafo em que se deixa bem claro, que, apesar de tudo, de exercerem profissão historicamente associada ao masculino, elas não deixaram de ser mulheres, femininas, vaidosas e, por que não, frágeis e delicadas.

Ao que me parece, há uma necessidade constante de se afirmar que, mesmo conquistando espaço em ambientes extremamente machistas — o que demonstra perseverança, dedicação, resiliência, equilíbrio psicológico e maturidade para lidar com questões adversas –, as mulheres não podem deixar de lado a tal feminilidade, um rótulo que prende a mulher em uma caixa e permite uma série de discriminações – contra homens, inclusive, já que aqueles que não se encaixam no papel inverso – o de machões e fortões – também sofrem.

É como afirmar: elas estão em profissões e espaços femininos, mas não se esqueceram de seus lugares e de seus papeis – ser um objeto figurativo (alguém se perguntou por que existem os concursos de miss?), seduzir o sexo oposto e ser passível de objetificação por meio dos atributos físicos. Se não, por que a insistência no tema?

É óbvio que a vaidade é importante – ela é um aspecto essencial do fortalecimento da autoestima, está envolvida com a saúde física e psicológica da mulher, e pode, sim, ser usada como uma forma de conquista do parceiro (a). O problema ocorre quando ela reduz a mulher à sua aparência ou tem tanta importância quanto feitos extraordinários como comandar um petroleiro ou dirigir um país.

Essa atitude é prejudicial às mulheres, pois se dá a impressão de que elas precisam ser vaidosas se quiserem sobreviver nesses ambientes no quais, de certa forma, serão eternamente estranhas – sabemos que muitas, quando não se importam com o tema, são tachadas de masculinizadas e sofrem ofensas. É como se a mulher devesse estar sempre pronta para agradar aos olhos dos demais – um produto para ser consumido.

De certa forma, há um parentesco muito próximo entre essas atitudes e outras que vemos espalhadas pela mídia, como: a insistência em procurar por musas em torneios esportivos, quando o interesse deveria ser na qualidade técnica das atletas; a insistência pelo Photoshop, que evidencia o desrespeito a outros padrões de beleza que não o europeu, uma verdadeira desvalorização da diversidade étnica; a insistência no culto à magreza, que cria jovens anoréxicas atormentadas por problemas de saúde, físicos e psicológicos, entre outras ações que desvalorizam o diferente.

É importante que nós, jornalistas, divulguemos essas conquistas. O pioneirismo, a novidade, o inovador são critérios de noticiabilidade, mas é preciso tomar cuidados para não fazer disso um fato pitoresco, como se fosse uma aberração, nem valorizar aspectos que servem para fortalecer estereótipos, indo de encontro ao papel da informação: a de desconstruir ideias errôneas, preconceitos e mitos que atrasam ou impedem a plena realização das pessoas. E tornam o mundo incrivelmente chato e padronizado.

Outra matéria sobre as desbravadoras (sem perder a piada com a TPM)

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