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Quando as universidades levarão o tema do estupro a sério? O caso da UFPR

Emma Sulkowicz e o colchão que carrega pelas dependências da Universidade de Columbia

Emma Sulkowicz e o colchão que carrega pelas dependências da Universidade de Columbia

O estupro, ou a ameaça, a apologia e a banalização do tema de estupro, é algo cada vez mais presente nas universidades. Nos Estados Unidos, não há uma grande universidade que não registre tais crimes em suas dependências (como alojamentos). Em uma delas, Columbia, uma jovem de nome Emma Sulkowicz não encontrou apoio da instituição ao ser estuprada por um colega, e o que lhe restou foi fazer da dor um ato performático e tema de seu projeto de conclusão de curso. Ficou famosa por levar nas costas o colchão onde ocorreu a violação. O objetivo era carregar aquele peso pelas dependências da universidade, sem pedir ajuda a ninguém, embora pudesse aceitar ajuda espontânea de quem se oferecesse para dividir o peso com ela.

Diante de tantos casos, recentemente um jornalista resolveu ir atrás das pessoas por trás das estatísticas e o que favorecia tantos abusadores. O resultado foi a obra “Missoula: Rape and the Justice System in a College Town”, de Jon Krakauer. Ali, o autor disseca histórias que envolvem o crime mais subnotificado do país, como a polícia se esconde por trás do argumento de que a maioria dos crimes são acusações falsas (elas correspondem de 2% a 10% dos casos, no máximo, segundo Krakauer, contra a alegação da polícia de que são de 50%) e fala da leniência da Universidade de Montana, que fica na cidade de Missoula, no estado de Montana, sobre os casos de estupros envolvendo seus alunos. Diante do livro, a universidade e a cidade de 70 mil habitantes se enfureceram e acusaram Krakauer de sujar o nome das duas. Disseram que os índices de estupro na universidade não diferiam dos índices do resto do país. “Eu entendo por que as pessoas estão bravas, mas eu não me desculpo (pelo título do livro)”. Ele disse ter ficado abismado pela universidade ter focado no título do livro, ao invés de nos estupros que ocorreram na universidade. “Eles disseram que que isso não era pior do que em qualquer outra cidade, mas isso não é algo do qual possam se orgulhar”.

O cartaz afixado nas dependências do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR que ameaça mulheres lésbicas de estupro

O cartaz afixado nas dependências do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR que ameaça mulheres lésbicas de estupro

No Brasil, a situação talvez ainda não tenha vindo à tona como nos EUA, mas episódios recentes demonstram que há um monstro adormecido nos fundos do lago. Diante de casos reiterados de estupros ocorridos nas festas do curso de Medicina da Universidade de São Paulo, um dos mais prestigiados do país, foi preciso realizar uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Assembleia Legislativa de São Paulo para poder ouvir as vítimas. Em um dos casos na USP, um estudante é acusado de estuprar três colegas, e como sanção, a universidade o suspendeu por seis meses, impedindo-o de se formar. Nas letras de baterias das atléticas país afora, frases com apologia ao estupro de mulheres, brancas e negras (que também são alvo de racismo), gays, lésbicas, transexuais e travestis são cantadas a plenos pulmões durante eventos como os Jogos Jurídicos, Intermeds e Engenharíadas, que juntam alunos de Direito, Medicina e Engenharias, respectivamente.

Manifestação contra o estupro na Marcha das Vadias

Manifestação contra o estupro na Marcha das Vadias

Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), parece que o drama das alunas começa a ganhar voz. Por conta da falta de apoio, é difícil dizer quantas passaram por isso. A universidade não possui um espaço de acolhimento, funcionários não são preparados para lidar com a temática de gênero e as vítimas têm de lidar não apenas com o trauma do ato, mas com a perseguição de colegas e professores, delas e dos agressores, por denunciar uma pessoa que parecia inofensiva e incapaz de cometer tal crime – afinal, o estuprador é sempre um monstro num beco escuro, e não o homem ao lado, embora dados do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) mostrem que, em 70% dos casos, as vítimas (89% delas do gênero feminino) conheciam seu agressor. Muitas vezes, resta o apoio de coletivos feministas, nem que seja para desabafar e encontrar algum conforto. Nesta segunda-feira, 25, um episódio lamentável ocorrido na universidade mostra que o estupro é banalizado, usado como arma para amedrontar mulheres, e que a universidade continua se omitindo, pelo menos por enquanto, diante do problema.

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Após uma intervenção feminista no campus Centro Politécnico, na sexta-feira, 22, na segunda-feira seguinte as dependências do curso de Arquitetura e Urbanismo amanheceram com um cartaz afixado a uma parede em que se lia o que pode ser visto na segunda foto que acompanha este post. Os cartazes feministas haviam sido rasgados, embora não contivessem palavras de ódio ou de desrespeito a homens e mulheres. Diante do ocorrido, o grupo, formado por mulheres de vários campi da universidade, foram novamente ao CP para colar outros cartazes e realizar uma oficina de estêncil no espaço do Grêmio de Arquitetura e Urbanismo (GAU). Embora a universidade não tivesse se pronunciado até aquele momento sobre o cartaz misógino, alunas contaram que no mesmo momento seguranças e estudantes das engenharias buscaram retirar os cartazes e estêncis, alegando vandalismo. O chefe do departamento do curso, pouco depois, emitiu edital afirmando que as alunas e os alunos tinham até hoje para limpar tudo.

O ato dividiu os alunos e alunas, e o Diretório Acadêmico de Engenharia do Paraná (DAEP) emitiu nota em que dava o mesmo espaço para o repúdio do cartaz machista e para a ação feminista subsequente de pichar o espaço, classificando o mesmo como desrespeito ao patrimônio público (embora o mesmo repúdio pareça não ocorrer em relação a vários danos causados pelos alunos em mesas, cortinas, paredes e centros acadêmicos). Diante disso, vários alunos se pronunciaram na página do diretório, a maioria condenando o ato de dar a mesma proporção para uma ameaça de estupro e para a ação feminista.

Sessão da CPI na assembleia legislativa paulista sobre casos de estupro na USP

Sessão da CPI na assembleia legislativa paulista sobre casos de estupro na USP

A autora deste blog, estudante da UFPR, inclusive manifestou-se publicamente contra a nota e o cartaz, por entender que o ato mais uma vez desvia o foco do problema e invisibiliza o tema, vítimas e possíveis vítimas. A autora mantém sua posição de que as alunas e os alunos responsáveis pelos cartazes e estêncis não devem ser punidos. O ato não teve como objetivo sujar ou degradar o patrimônio, que continua de pé, nem ofender pessoas, mas usar o espaço da universidade para exercer direitos, fazer política e alertar para um problema que a própria universidade ignora. Vale lembrar que dentro da instituição há um Grupo de Estudos de Gênero, interdisciplinar, com excelentes professores e uma referência no estudo das questões de gênero no pais sob um viés feminista, há 20 anos em atividade. Seria contraproducente e um desserviço aos profissionais da universidade que trabalham e pesquisam gênero que os alunos e as alunas fossem punidas por um ato de pouca ou nenhuma gravidade, visando a um bem maior, num ato desnecessário e legalista que serve como estímulo para outras violências, ao passar a mensagem intransigente de que cartazes e estêncis em paredes valem mais do que a segurança e a integridade das mulheres.

Este episódio, que chocou a tantos, seja pelo teor das palavras do cartaz, seja pelo suposto “vandalismo” das intervenções feministas, serve de alerta à UFPR. Ou esperaremos por casos semelhantes aos da USP (se é que eles já não ocorreram)? Onde estão as campanhas de conscientização sobre o tema? Não há no orçamento uma pequena quantia para a impressão de cartilhas e, mais do que isso, para a realização de eventos durante vários meses do ano, com mesas redondas, palestras, concursos que premiem Trabalhos de Conclusão de Curso, dissertações, teses, projetos de iniciação científica e do PET sobre o tema? Onde é que estão os professores que trabalham com gênero e direitos humanos em vários cursos, que poderiam auxiliar nesta tarefa? Onde está o espaço que poderia servir de local de acolhimento e escuta das vítimas? Se um estupro ocorrer no campus, numa casa de estudante, eventos e viagens da universidade ou mesmo fora da instituição (embora todos torçamos para que isso não aconteça), qual o protocolo de atendimento? Como lidarão com os agressores, o que ocorrerá com eles? Onde está o banco de dados sobre as variadas formas de agressão que estudantes sofrem diariamente, em trotes, festas, corredores e salas de aula? Não há resposta.

No fim da tarde desta quarta-feira, a UFPR se manifestou. Na página oficial da instituição no Facebook, lê-se:

“A Universidade Federal do Paraná não faz qualquer distinção de sexo, raça, cor, religião ou orientação sexual, sendo ainda pioneira no Brasil em políticas de inclusão das minorias.

Enquanto espaço democrático de construção de valores e transformação da sociedade, reafirma sua posição de respeito à diversidade. Mantém absoluta discordância de todas as formas de intolerância e agressividade, pois acredita que este mesmo respeito seja parte indissociável do senso crítico e da dignidade humana.

Após apuração do caso, todas as medidas cabíveis em coerência a esta posição serão adotadas.

A Reitoria.”

É muito pouco, mais parece uma resposta-padrão gerada por computador. Parece uma nota para tentar se redimir da difícil tarefa de tratar de um tema espinhoso, tentando agradar a gregos e troianos a partir de um discurso neutro. Não é possível que acreditem que isso contentará as pessoas. Nesta quarta, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) entrou com representação na universidade pedindo que a mesma tome providências para descobrir os responsáveis pelo cartaz, além de tentar barrar a possibilidade de processo administrativo contra os alunos e alunas autores da ação. Veremos, então, a partir da resposta ao requerimento e às denúncias, se a universidade se oferecerá para ajudar a carregar o colchão das mulheres vítimas de agressão e de tentativa de agressão, ou se, lamentavelmente, as paredes terão mais importância.