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Blog Palpite de Alice

“O dia em que a humanidade acordou sem espelhos”

“O dia em que a humanidade acordou sem espelhos”

Ilustração – Karen Giraldi

E logo que raiou o dia, quando foram ao banheiro lavar seus rostos, perceberam que todos os espelhos haviam sumido. Hesitantes, saíram de casa e foram trabalhar. Os cabelos estavam bagunçados, a maquiagem estava falha, as barbas estavam mal feitas. Mesmo sabendo de suas próprias dificuldades em se arrumar sem o reflexo, começaram a zombar da desarrumação do outro. Ninguém estava perfeito como no dia anterior, mas se preocupar com o outro pareceu uma boa manobra para esquecer de si mesmo.

Ilustração – Karen Giraldi

No segundo dia, não aguentaram. Tentaram repetir os rituais que faziam mesmo sem ter espelhos. Mariana borrou a maquiagem e achou que tinha limpado tudo. Rodrigo tentou fazer a barba mas se cortou. Juliana foi fazer um penteado mas seu cabelo ficou pior do que nunca. E assim foram para a rua. Se deram conta que só conseguiam perceber seus erros quando os outros apontavam. Logo, o espelho se tornou o olhar do outro. A opinião do outro se tornou maior que a sua própria, pois não tinham ideia de como estavam se apresentando ao mundo. E a insegurança tomou conta de todos.

No terceiro dia, olharam para as pessoas que dividiam sua casa. E para elas foram pedir ajuda. Com a curiosidade e empolgação de crianças aprendendo uma coisa nova, Guilherme maquiou Rosana, que barbeou Guilherme. Larissa cortou o cabelo de Luciana, que escolheu a cor do batom de Larissa. E assim, todos se uniram confiando no olhar e nas mãos do outro. O toque no rosto aproximou amigos, reacendeu paixões e uniu famílias.

Ilustração – Karen Giraldi

Com o passar do tempo, as pessoas passaram a separar um tempo do dia para o momento da troca de gentilezas. E a gratidão era pelo gesto do outro, e não pelo resultado, afinal, não se podia ver o que o outro fez. Todos ajudavam uns aos outros, todos unidos pelo mesmo desafio, com o mesmo problema, a mesma dificuldade, com a mesma busca.

E assim, anos se passaram. O objetivo inicial das reuniões matinais foi sido esquecido aos poucos. A vaidade não tinha tanta importância sem o espelho. A opinião do outro poderia não ser a mesma da própria pessoa. E constataram: de que vale a opinião do outro se não tenho nenhuma própria?

Depois de 50 anos, os espelhos voltaram. Tantas experiências vividas, tanto amor trocado, tanto renascimento e reencontros. Tantos padrões quebrados, tanta inércia vencida, tanto carinho nascido. E, ao olhar no espelho, todos ficaram surpresos. O escuro cabelo embranqueceu. Pintas surgiram na pele. O rosto ficou marcado com sulcos e rugas. E com lágrimas nos olhos, todos pensaram: Como eu sou lindo! Todo o período que não pude me ver, ficou marcado na minha pele, na minha carne. É o testemunho daquilo que por tantos anos nunca vi, mas profundamente senti.

E essas marcas não queriam perder nunca mais.

Ilustração – Karen Giraldi

Por Karen Giraldi