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Jair Naves está em Curitiba: “há uma geração talentosa, mas que só faz jingle.”
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Há algo de extraordinário quando você encontra a junção entre discurso e ação exemplificada em forma de música. Sim, porque por esses dias há muita pose. E incongruências. Nunca acreditarei, por exemplo, em uma banda de punk rock cujos integrantes não bebem. Então atente, porque Jair Naves, que toca neste sábado em Curitiba (veja serviço abaixo), é espécie em extinção.

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Figura importantíssima do cenário underground de São Paulo, o bardo marginal ajudou a construir toda uma cena com sua participação na banda Okotô, no início da década passada. Em 2001, fundou a Ludovic, grupo vigoroso e singular – pós-hardcore pé-de-cana, diziam — que lançou os ótimos discos Servil (2004) e Idioma Morto (2006). Conheceu cada beco de São Paulo até que a banda acabou, em 2008.

“Não faria sentido o Ludovic hoje em dia porque passei dos 30. Os artistas que admiro tiveram suas fases muito bem definidas”, diz Jair, que sabe: envelhecer bem é fugir da cilada do anacronismo.

Já em carreira solo, ano passado lançou um dos álbuns mais elogiados do país. E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas é áspero e doído. Pode soar duro e primal também, mas é demasiadamente humano. “Fico incomodado com os lançamentos atuais, que tem pós-produção excessiva”, explica Naves, sempre coerente. Em suas letras, ele fala como poucos sobre o fundo do poço. E na entrevista abaixo, critica as bandas atuais que “só fazem jingle.” Um brinde:

Como vai funcionar o show acústico?

Desde o lançamento do disco tenho feito shows acústicos, sempre que a banda não pode acompanhar. Já fiz em Maceió, Alagoas, São Paulo. E aí apareceu o convite para Curitiba, nesse formato. Não conheço o espaço, mas sei que a galera é meio politizada. O show vai ter a mesma pegada do disco. Vou apresentar as músicas como elas foram concebidas. Vai ser interessante. Também estamos ansiosos para voltar com a banda [Tiago Babalu, bateria, Renato Ribeiro, guitarra e Rafael Findas, baixo]. Fora de São Paulo, Curitiba é a cidade onde as pessoas mais pedem shows.

No processo de composição do álbum, você ouviu alguma coisa em especial? Algum artista te influenciou de forma mais forte?

Acho que não. Minhas influências musicais são quase todas estrangeiras, então foi um desafio compor em português, encaixar o texto metricamente. Mas na época, pensando bem, tinha redescoberto Walter Franco, especialmente os discos Revolver (1975) e Vela Aberta (1979). É algo bem à frente de seu tempo. Eu já estava com ideia de fazer algo natural e orgânico. E bastante incomodado com os lançamentos que tem pós-produção excessiva. Outro disco que levei como referência foi Everybody’s Rockin’ (1983), no Neil Young. Tudo isso acabou humanizando o trabalho.

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Como recebeu a enxurrada de boas críticas?

Isso me deixou muito confiante. Estava muito satisfeito porque o material que tinha em mãos era… difícil. Imaginava que seria difícil. A começar porque tem um titulo gigantesco. E tem a sonoridade, meio áspera. Não sabia que ia repercutir tão bem. Acho que o disco me elevou um patamar acima em termos de reconhecimento. O disco quer dizer algo. Como fã de música em geral, sentia falta de coisas mais diretas.

Menos mimimi?

É, meio que isso. Há uma geração talentosíssima aí, mas ao mesmo tempo, uma coisa… muito jingle. As bandas que cresci ouvindo, como Fellini e Mundo Livre S/A eram mais desafiadoras e profundas. Não vi grupos assim tendo tanto espaço recentemente.

Pra você, é fácil falar sobre o fundo do poço? Do título do disco às letras de algumas músicas, o tema é a finitude.

É, eu perdia muito tempo refletindo sobre isso. Porque uma hora as pessoas se vão. E como lidamos com isso? Na minha cabeça, a ideia de morte não era algo fascinante, mas sim a hipótese de não conseguir fazer tudo o que quero. O sentimento permeou o disco. Há um caráter de urgência. Algo como “viva logo, não deixe nada pra depois.” Porque até então as minhas composições tinham caráter terapêutico. O Ludovic era isso. A terapia do grito. Essa era a função da musica na minha vida. Esse disco, não. Está menos agressivo.

O Ludovic faria sentido ainda hoje?

Quando o Ludovic começou não tinha tantas bandas que cantavam em português no underground. Eu gosto de carregar isso. Mas não faria sentido o Ludovic hoje em dia, agora que passei dos 30. Os artistas que admiro muito tiveram suas fases muito bem definidas, como Kubrick. Hitchcock, Bowie, Beatles. Não dá pra prolongar. É preciso se renovar pra se manter interessante.

Já pensa em outro disco?

Sim, já há algum trabalho nesse sentido. É cedo pra falar, mas ele está indo para a canção, a canção experimental. Os instrumentos estão mais soltos. Vou gravar com a mesma banda. Um single deve sair ainda esse ano. E o disco, em 2014.

Serviço:

Jair Naves acústico e debate: produção independente e mídia alternativa.

Dia 24, a partir das 19h.

Espaço Infiltrada – Rua Martin Afonso 432, Mercês. R$ 12.

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