Assinaturas Classificados

Seções
Anteriores
Publicidade

Populares

Quem faz o blog
Seções
Conheça
Posts
Enviado por admin, 16/01/12 7:13:00 PM

Crônica publicada no último dia 12, na Revista Viver Bem Verão da Gazeta do Povo.

É bem provável que nesse exato momento você esteja lendo esse texto na telinha do seu celular. E também é bem provável que você esteja fazendo isso da praia. Não necessariamente da areia da praia. Talvez da casa de veraneio. Ou do restaurante do balneário de sua preferência. Afinal, é janeiro. Mês de praia. E você no celular. Uma pena.

Se há uma coisa maldita nisso de se ter internet onde quer que se vá é não se permitir desligar. Nem por um tempinho. Tudo o que acontece está à mão para ser visto. Inclusive quando não acontece nada.

Da queda de mais um ditador à última fofoca do mundo dos artistas – que muitas vezes nem são tão artistas assim – nada se perde. Muito menos se transforma. Mesmo que nas férias haja coisas muito mais bacanas para se apreciar. Como o mar, que, para compensar um pouco desse desdém, volta e meia é fotografado para ilustrar um comentário clichê e insosso em alguma rede social.

Talvez já tenhamos chegado ao estágio em que o mar seja mais apreciado em fotos do Facebook do que pessoalmente. E nem nos demos conta disso. Ou demos conta demais – na internet, é claro.

Nelson Rodrigues, maldoso, dizia que a pior solidão é a companhia de um paulista. Talvez mudasse de conceito hoje, ao se sentar à mesa com um desses cyberviciados que nos rodeiam, armados com seus celulares de mil e uma parafernálias em uma das mãos, e a desconsideração na outra. Essa é a solidão do momento: ser desprezado em detrimento de alguém ou algo que nem presente está.

Não sei onde li esses dias que os comentários nas redes sociais são a arte de falar sozinho com o maior número de pessoas. Uma definição lamentável, porém boa. Nas férias, período de estar com a família e os amigos, o ideal seria que todo mundo conversasse coletivamente com cada pessoa ao seu lado. Olho no olho. Sem nenhum aparelho a intermediar o bate-papo.

Sorte que o mar é perspicaz e promete vingança nessa temporada. Para cada foto chocha e sem graça das ondas com comentários vazios nas mídias sociais, o oceano despejará uma dose abissal de maresia na terra, capaz de enferrujar a mais minúscula peça do mais minúsculo celular que existir. Netuno, que não manda recados pelo celular, garante que cavoucará pessoalmente o fundo do mar em busca das mais salgadas pedras a serem atiradas com mira precisa por seu enorme tridente.

Protejam seus celulares. Ou simplesmente curtam as férias sem paranóias digitais. Vocês escolhem, Netuno acata.

Felipe de Lima
Enviado por admin, 09/11/11 12:39:00 AM
AFP
Joe Frazier treinando para enfrentar George Foreman na decisão dos pesos pesados de 1973

Para o esportista chegar ao status de mito não basta seguir vivo na memória coletiva após a aposentadoria. Tem de continuar vivo também na memória daqueles que enfrentou ao longo da carreira.

E quanto mais vívido nas lembranças dos antigos oponentes, quanto mais se refletir na retina daqueles com quem se opôs, mais reconhecida é sua qualidade técnica. Melhor ainda quando o reconhecimento vem na forma de admiração.

Por anos, os jogadores de Brasil e Uruguai da Copa de 50 se encontraram em animados encontros algumas décadas após a final da disputa. Todos os anos, os velhinhos do Maracanazo tinham agendada a confraternização. Um ano no Rio de Janeiro, outro em Montevidéu. Tudo sob uma condição: de que ninguém falasse daquele 16 de julho festivo para os uruguaios, fatídico para nós.

Eram amigos, não mais adversários. Estavam ligados por aquela partida. Mas não precisavam mais dela para continuar a amizade, o companheirismo.

Ano passado, no aniversário de 70 anos de Pelé, escrevi uma reportagem sobre as passagens do Rei pelos gramados paranaenses. Um dos entrevistados era o ídolo coxa-branca Krüger, com quem um simples bate-papo é sempre uma aula recheada de boas histórias.

O Flecha Loira enfrentou o Homem duas vezes. Quando liguei para marcar a entrevista, Krüger aceitou na hora, mas impôs uma condição. “Falo sem problemas. Só que você vai ter de vir aqui, porque não consigo explicar por telefone, só com palavras, as coisas que aquele homem fazia em campo”.

Lá fui eu ao Couto Pereira ouvir e ver a sequência de movimentos com os quais o Flecha Loira tentava me explicar o que Pelé fez diante de seus olhos incrédulos nos anos 60 e 70. “Eu via ele fazer aquelas coisas e ficava completamente abismado, porque o normal era fazer tudo exatamente ao contrário. Mas com Pelé nada era normal”, me disse o ídolo coxa.

Muito bem. Chego até aqui só para dizer que na última terça-feira conheci duas das mais comoventes declarações de esportistas sobre um adversário. No caso, a respeito do pugilista Joe Frazier, morto nesta terça-feira, aos 67 anos.

A primeira é de Muhammad Ali, com quem Frazier trocou socos e farpas em boa parte de sua carreira. As três lutas entre ambos – incluindo a Luta do Século, em 1971, a primeira derrota no score de Ali – não eram apenas um espetáculo entre dois atletas fora de série. Era também um embate de provocações, em um tempo estranho em que esportistas tinham opiniões próprias e não eram teleguiados por assessores de imprensa.

Mesmo com tantas provocações mútuas que marcaram a carreira de ambos, Ali, que muitas vezes pegava pesado com Frazier, afirmando que ele representava a subserviência do povo negro ao stablishment branco na América, reconheceu que as lutas com seu principal adversário só valorizaram sua carreira.

“O bom [de se aposentar] é que não haverá mais Joes Fraziers no meu caminho”, disse Ali quando deixou de lutar.

Mas a declaração mais bacana é de George Foreman, que tirou de Frazier o título de campeão mundial dos pesos pesados em confronto de 1973. Ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, alguns anos atrás, Foreman disse que a arma secreta dos grandes pugilistas não está nos punhos, e sim no olhar. Se o boxeador olhar nos olhos do oponente e ele baixar a vista, a luta está praticamente ganha, porque o rival está dominado psicologicamente.

Menos no caso de Joe Frazier. “Com ele era o contrário. Eu torcia para ele não olhar nunca para baixo. Porque se abaixasse os olhos, veria minhas pernas tremendo”, sintetizou Foreman.

xxxxxxxx
Uma curiosidade curiosa, como diria o pleonástico: as famosas cenas da corrida na escadaria do museu e do treino com socos em carne congelada do filme Rocky não surgiram do nada. Eram baseadas no método peculiar de treinamento de Frazier no início da carreira. Frazier que, aliás, era da Filadélfia. Assim como o Garanhão Italiano.

Enviado por admin, 09/09/11 9:36:00 PM

Tripulação eficiente faz toda a diferença

Que me chamem de paranoico. Mas eu é que não deixo de prestar atenção nas aeromoças antes de o avião decolar. Me refiro àquelas orientações de segurança caso algum problema aconteça, àquele teatrinho mecânico que elas interpretam para que os passageiros façam tudo certo quando tudo der errado.

O primeiro passo para que as coisas corram na mais perfeita ordem que o caos de uma queda de avião permite é memorizar onde fica a saída de emergência mais próxima do seu assento. Também é bom ficar de olho se há algum objeto que obstrua o caminho até a saída da emergência. Ver todo mundo saindo enquanto se é pisoteado por outros passageiros desesperados por causa de um tropeção em uma bolsa não é algo que inspire confiança na própria salvação.

Se você tem alguma dificuldade para abrir portas – algo como mania obsessiva de ter de baixar e subir a maçaneta 50 vezes antes de sair – caia fora da poltrona do lado da saída de emergência. Ninguém quer morrer por sua causa.

Se o avião sofrer despressurização, máscaras de oxigênio automaticamente cairão do teto. Basta fixá-la com o elástico em torno da cabeça e respirar normalmente. Se estiver acompanhado de criança, primeiro coloque a máscara em você mesmo e só então nela. Lembrando que as poltronas são flutuantes e, como dizem, pra quem está se afogando, jacaré é toco.

Debaixo das poltronas há coletes salva-vidas. Basta pô-los em volta do pescoço e puxar a cordinha para inflá-los. Se a cordinha não funcionar, assopre o orifício do lado direito do colete até enchê-lo. Torcendo, evidentemente, para que dê tempo de inflá-lo antes de você precisar dele de fato.

Nas saídas de emergência há escorregadores infláveis que facilitam a retirada do avião. Se você chegou ao fim do escorregador sem maiores percalços, relaxe: está vivinho da silva. Tão vivo que, depois desse baita susto, já pode começar a repensar a vida, em valorizar o que realmente vale a pena. Isso desde que não haja tubarões à espreita do lado de fora da aeronave, é claro.

Porém o mais importante, o imprescindível antes de se subir pelos céus é sempre estar muito atento ao perfil de cada uma das comissárias de bordo. Deve-se identificar a aeromoça mais bonita e atenciosa, a mais simpática e cheirosa. Porque se o avião realmente cair, você não vai se lembrar de nada disso mesmo. Logo, o melhor é se abraçar à mais bela aeromoça para pelo menos morrer com alguma dignidade.

E se você e ela sobreviverem, vai que rola um lance depois. Nunca se sabe…

Enviado por admin, 18/05/11 3:29:00 PM

Texto publicado originalmente no caderno de Esportes da Gazeta do Povo desta quarta-feira (18).

Sergio Moraes / Reuters
Troféu do Campeonato Brasileiro

Convenhamos: o Campe­­onato Brasileiro, que começa agora, neste final de semana, é um namoro mal-resolvido. Uma dessas histórias de folhetim barato, permeada de traição e raros momentos de prazer. Um desses amores ordinários, do qual nós, torcedores irredutíveis e compulsivos, jamais conseguimos nos livrar. A ladainha repetitiva de sofrimento que todos os anos nos leva à beira da loucura. A começar pelo próprio enredo.

São seis meses de espera. Meio ano. Praticamente um semestre inteiro entre o fim do campeonato do ano anterior e o início da próxima disputa. Tempo quase que suficiente para se gestar uma criança. Para pedir demissão do trabalho e recomeçar uma nova empreitada. Tempo suficiente para se colocar uma mochila nas costas e dar a volta ao mundo. Para se noivar, casar, encaminhar o projeto do primeiro filho e, hoje em dia, até se separar.

Em outras palavras: seis meses é tempo mais do que suficiente para se mudar a rota de uma vida, mas que nós, torcedores irredutíveis e compulsivos, preferimos aguardar passivamente.

Nesse período até flertamos com outras disputas que se insinuam como pretendentes. Os campeonatos estaduais têm lá seu charme. São como namoradas dignas e apaixonadas, mas que, não se sabe exatamente o porquê, não balançam nossos corações.

A Copa do Brasil tem a beleza jovial dos 20 e poucos anos de idade. Mas nada mais é do que um encontro furtivo, desses à meia-luz, que a qualquer momento, a um simples tropeço em um mata-mata qualquer, acaba sem deixar marcas, uma boa lembrança para se guardar.

O Brasileiro, não. O Cam­­peonato Brasileiro é a paixão desenfreada, o amor arrebatador. O que não significa necessariamente um percurso contemplativo.

Como todo relacionamento, surge com a intenção de trazer a felicidade. Mas há percalços doloridos: a derrota em um clássico, o erro de um árbitro incompetente ou malintencionado, o gol perdido pelo centroavante em um jogo decisivo, o ponto que não se conquistou e vai fazer falta lá na frente ou o frango do goleiro diante do rival direto pelo título. Fora o risco do rebaixamento, o ápice da traição no relacionamento com o Campeonato Brasileiro.

O que só nos leva a crer que esse tal de Campeonato Brasileiro nada mais é do que uma mulher traiçoeira, dessas que não valem nada. Mas que para nós, torcedores irredutíveis e compulsivos, vale muito. Como vale!

Enviado por admin, 18/04/11 5:45:00 PM

Texto originalmente publicado no domingo (17) no caderno Viver Bem, da Gazeta do Povo.

Felipe de Lima

As colegas de trabalho há tempos comentavam. Bonito e bacana daquele jeito e sozinho? Casado não era. Nem noivo. Nenhum sinal de aliança na mão. Namoradas também nunca foram vistas. Flertes? Nenhum. Cogitou-se a possibilidade de ele ser gay. Mas se fosse, teria de haver os mesmo indícios que há em um relacionamento heterossexual. E nada de nada.

Messenger, Facebook, Twitter ou qualquer outra rede social nem pensar. Do contrário, alguém, pelo menos algum dos amigos mais próximos, o teria adicionado nos respectivos contatos.Mas nem tão insensível assim era o sujeito. Afinal, tudo isso era justamente em decorrência de uma paixão. Sua única e verdadeira paixão: o futebol. O mundo da bola tomava completamente a vida dele quando não estava trabalhando.

Ia a todas as partidas de sua equipe. Fosse onde fosse. Vivia viajando para ver as partidas. Havia também as reuniões semanais às sextas-feiras do conselho do clube, do qual fazia parte. O sábado era reservado ao trabalho voluntário: ensinar futebol a crianças carentes de uma escola pública da periferia.

Ela achou engraçado essa história de ele ser tão cobiçado e estar sozinho. Bem como o fato de ser tão fanático por futebol. Simpatizou com o rapaz certa vez que ele abriu a porta do escritório para que ela passasse. Foi ali que decidira tirar a limpo essa história de que ele só amava o futebol.

Comprou o plano de sócios do clube para ir aos jogos. Sempre ficava perto dele no estádio, fingindo um encontro casual. Gastou uma boa grana na camiseta do clube, na faixa de cabelo do clube, no boné do clube… Até calcinha do clube comprara pensando no momento a sós com ele.

Passava o jogo inteiro jogando charme. Tentava cruzar a barreira da indiferença com indiretas de todas as formas. Mas o assunto sempre recaía sobre o rendimento de algum jogador que ela não tinha a menor ideia de quem era.

Houve dias em que chegou a apelar a decotes ousados – com a blusinha comprada na loja oficial do clube, é claro. Tudo completamente ineficaz. Nunca conseguia chamar mais a atenção dele do que o futebol.

Até o dia em que se enfezou e partiu para o ataque de vez:

- Me diz uma coisa, você só pensa em futebol o tempo inteiro?

Ele pensou, titubeou, e respondeu sem jeito.

- Na verdade, não.

- E no que mais você pensa, além do futebol?

- Em você! Quer ver o próximo jogo lá em casa?

Enviado por admin, 05/03/11 12:10:00 PM

Texto originalmente publicado na edição deste sábado (5) do caderno Verão da Gazeta do Povo.

Felipe de Lima

Algo de estranho há neste carnaval. O pau cantando em ré menor nos países árabes, mais as falcatruas de praxe na política brasileira, e ainda não se viu nenhuma das tradicionais reportagens sobre a produção de máscaras com rostos de ditadores e políticos.

Nada de máscaras dos presidentes do Norte da África, que pensavam ser capazes de se perpetuarem no poder e agora caem que nem jacas da jaqueira. E muitos menos de nossos ilustríssimos mandatários, que sempre dão muito pano para manga.

Nem uma carinha de plástico de um Mubarak, de um Kadafi (que parece ele mesmo usar máscara, de tanto botox na lata) ou de qualquer deputado ou senador pra alegrar a moçada nos blocos de rua. Muito, muito chato isso. Afinal, sejamos honestos, rapaziada da boa fé, gente da boa esperança, carnaval sem máscara de um político sacana pra moçada tripudiar, como aquelas do Saddam Hussein e do George W. Bush de uns tempos atrás, não é lá tão engraçado.

Pra não dizer que a indústria mascareira não está nem aí, dizem que a grande sensação do carnaval deste ano será a máscara do Tiririca. Até que ela é engraçada, com a feição que todos conhecemos do palhaço que se transformou no deputado mais votado da história: chapéu de catar ovo, peruca oxigenada, bigodinho fino e a dentadura com alguns desfalques na escalação. O Tiririca nato, muito diferente do Francisco Everardo engravatado dos corredores de Brasília que ainda não estamos acostumados a identificar.

Mas aí vai um recado aos nobres executivos da indústria de máscaras: zoar da cara de um comediante, de quem já ganha a vida profissionalmente fazendo palhaçada não é a mesma coisa que zoar de quem se vale do mesmo expediente de forma desonesta. Até porque, essa máscara eles já usam faz tempo.

Enviado por admin, 27/02/11 7:16:00 PM

Texto publicado originalmente na edição deste sábado (26) do Caderno Verão da Gazeta do Povo.


A rapaziada há de se identificar com o que vou dizer agora. Porque férias na praia com a velha turma de amigos é mesmo uma coisa pra se guardar na memória. Mesmo que o cabra não se lembre de nada diante do excesso de água que tubarão não nada consumida.

Férias com a moçada é isso aí: aquele clima de camaradagem marota dos tempos da escola, em que todo mundo se apega à linguagem corporal e se comunica por meio de petelecos, safanões e chutes na bunda. Uma legítima aula de etiqueta e bons modos da vida adulta masculina. Sem se esquecer, é claro, da decoração arrojada e contemporânea de fundo para o enredo: cômodos que de tão organizados lembram vilarejos arrasados por bombardeios na Segunda Guerra Mundial. Com a diferença de que as vilas bombardeadas eram muito mais apresentáveis, é óbvio.

Pressionando um pouco o botão FF deste bate-papo, chegamos à conclusão inexorável que nos trouxe até aqui: a de que o império dos ogros é uma casa de praia repleta de homens solteiros.

Sim, um sujeito sozinho solto entre seus semelhantes no litoral é, sem dúvida, uma mostra viva da insensatez. Torna-se praticamente um náufrago, não de um navio que afundou, mas de sua própria reputação, que pode chegar facinho, facinho ao fundo do poço. Ou vai dizer que você nunca notou a quantidade de marmanjo cometendo barbaridades na praia num desses feriados bombados de ano-novo ou carnaval?

Nêgo não quer nem saber: veste sunga, touca e óculos de natação e mergulha de ponta na gasosa que passarinho não bebe. Aí fala bobagem, toma coragem pra dizer o que sente por aquela mocinha bonita e recatada, fica dando catiripapo de brincadeira, mas doídos, em tudo quanto é parceiro e, não raro, inventa de querer brigar, mesmo que o desafio seja diante daquele bombadão de praia que pode esmagá-lo num estalar de dedos.

De consolo, sobra a sorte das moças que não tiveram a infelicidade de cair na tentação de um desses sujeitos desgarrados da vida civilizada. Ou das que ainda não descobriram o passado de seus respectivos no verão de alguns anos atrás.

Enviado por admin, 14/02/11 2:47:00 PM

Texto originalmente publicado no caderno Verão da Gazeta do Povo do último sábado (12)

Felipe de Lima

Tudo bem, modismo é assim mesmo. De uma hora para outra, sem aviso, o ritmo do momento muda, a nova balada de sucesso está por todos os lugares, e você, que não tem nada com a cotação do dólar, se pega cantarolando sem perceber aquela canção grudenta, que não sai da cabeça de jeito nenhum. Martela mais do que porrete de pedreiro quebrando a parede do vizinho numa manhã de ressaca.

A onda musical da temporada de praia já foi a lambada, o axé, o pagode e o funk carioca. A vez agora é do sertanejo. O tal do sertanejo universitário – cuja diferença eu não sei qual é para o sertanejo anterior, que, por sinal, também já esteve na moda alguns anos atrás.

Nada contra quem tem predileção pelo dito-cujo ritmo. Gosto, como dizem, é que nem rosto (se é que vocês entendem o eufemismo): cada um com o seu. Mas, sejamos sinceros, rapaziada da boa fé, gente da boa esperança: precisa tocar a cada minuto, em cada esquina?

Chega a ser desesperador. No bar, no restaurante, na praia, na praça, no hospital, na delegacia de polícia… A mesma música, a mesma voz. Uma perseguição implacável e desleal.

É praticamente uma lobotomia sem necessidade de intervenção cirúrgica. Quanto mais você tenta se livrar, mais a música se encalacra na memória, arrastando todos os pensamentos que ousarem se encontrar pelo cérebro naquele instante.

E para quem se ilude de que pode ser mais forte do que essa onda, lanço o alerta: lutar é botar pólvora molhada na garrucha, rapaziada – não adianta nada. É uma batalha em que se já entra mais do que derrotado. Entra-se destroçado, sem a mínima chance de reação.

Diante disso, nobre companheiro de ouvidos cansados, cara moçoila de tímpanos feridos, resta nos conformarmos de uma vez de que o jeito é mesmo dar uma fugidinha com você (para muito longe de onde estiver tocando isso!).

Enviado por admin, 06/02/11 2:54:00 PM

Texto publicado originalmente na edição deste domingo (6) do caderno Viver Bem da Gazeta do Povo.

Benett

– Profissão?

– Comerciante.

– Estado civil?

– Casado.

– Filhos?

– Sim. Dois meninos.

– Religião?

– Futebol.

Foi ali que a entrevista travou. Ninguém nos questionários anteriores havia respondido a este recenseador do IBGE uma coisa tão absurda a respeito da fé que segue.

– Meu senhor, me perdoe, mas futebol não é religião.

– Quem disse?

– Bom, até onde se sabe, não consta futebol entre as religiões praticadas no nosso país.

– Pois você está errado, meu caro. O futebol é uma religião. Com fiéis não só no Brasil, mas, como você bem deve saber, em todo o mundo.

– O senhor me perdoe, mas não posso constar futebol como religião no censo.

– Bom, se você pode ou não pode constar isso aí no teu material, eu não sei. Só sei que a minha religião é o futebol.

– O senhor não teria nenhuma outra para indicar? Vejo ali na parede um crucifixo pendurado. O senhor não seria católico?

– Aquele crucifixo é da minha mulher. Ela é católica. A minha religião é o futebol.

– Então posso constar no questionário do censo que o senhor é ateu? O senhor se importa?

– Claro que me importo! Não sou ateu. Sigo a minha religião, que é o futebol, como já te disse. É na redondinha que eu acredito. Toda minha fé num gol!

– Bom, o senhor me perdoe novamente. Mas vou ter que constar no levantamento do censo que o senhor não possui religião.

– Meu amigo, você já foi a um jogo de futebol?

– Sim, senhor.

– Mas a um jogo lotado, estádio cheio, torcida vibrando. Já foi?

– Sim, já fui.

– E pelo visto você tem um time, estou certo?

– Sim, tenho.

– E costuma acompanhá-lo sempre, até ir nas partidas você vai.

– Sim, sempre que possível, eu vou.

– E não se importa de pagar ingresso, certo? Mesmo caro do jeito que está.

– Não…

– Então vai me dizer que um negócio que tem templos e milhões de seguidores fiéis não é religião?

– É… Talvez o senhor tenha mesmo razão…

*Título tirado do livro homônimo de cartuns sobre futebol do cartunista e escritor argentino Roberto Fontanarrosa.

Enviado por admin, 29/01/11 3:29:00 PM

Crônica originalmente publicada no caderno Verão da Gazeta do Povo deste sábado (29).

Felipe Lima / Gazeta do Povo

Não que eu queira bater de frente com os biólogos, que são quem realmente manjam desse negócio de flora e, no caso em questão, fauna. Mas nada me tira da cabeça que esse pinguinzinho que veio parar aqui em Caiobá há coisa de duas semanas estava mesmo era a fim de curtir.

Tudo bem e vá lá: eu até aceito a teoria de que o bicudinho veio parar no nosso Litoral trazido por alguma corrente marítima em que ele não deveria ter se metido. Mas daí a me dizer que isso não foi intencional, rá, aqui, ó, Juvenal!

Antes de mais nada, façamos uma análise detalhada do perfil do pinguim. O dito-cujo tem bico. Tem pena. Tem asa. Faz ninho. Bota ovo. Mas não voa!

Em bom português, depois do avestruz e da ema – que tenho para mim que também aparecerão algum dia na praia, de preferência numa daquelas tardes bem tranquilas de réveillon ou carnaval – nunca houve na história desse mundão uma ave mais esquisita e troncha do que o nosso amigo pinguim. Nem o urubu, um dos bichos mais horrorosos de toda a espécie animal, é uma ave tão estranha quanto o inimigo do Batman.

E aí é que mora a questão: alguns pinguins têm um sério complexo de inferioridade por não voarem. A maioria resigna-se com essa condição. Aceita numa boa e toca a vida adiante, correndo daquele jeitinho sem jeito e nadando atrás dos peixes como dá. Mas sempre há os revoltados, os que não aceitam a sua condição de pinguim.

Como o nosso amigo de Caiobá, que, descontente com a migração mixuruca que a espécie dele faz, resolveu dar uma de andorinha, que viaja milhares e milhares de quilômetros lá do Canadá até o Brasil varonil só para fugir da friagem e pegar aquele bronze que só os trópicos proporcionam.

E é nessa hora que, a exemplo do nosso amiguinho de Caiobá, que vários pinguins inconformados se jogam de corpo e alma ao mar, dispostos a enfrentar as mais fortes tormentas só para garantir alguns dias de descanso à beira do mar de uma praia de verdade, não aquela coisa sem graça do Polo Sul.

Um ato de coragem, sem dúvida, cuja aventura só perde para a migração de outra espécie também um tanto o quanto inconformada com a sua condição de bípede: os seres humanos, que se metem em congestionamentos quilométricos de horas e horas só para dar o ar da graça na praia mais próxima.

Por isso me solidarizo com você, meu caro pinguinzinho inconformado. Porque esse negócio de não podermos voar é mesmo uma tremenda sacanagem.

Páginas12345... 10»
Este é um espaço público de debate de idéias. A Gazeta do Povo não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
Publicidade
Publicidade
Publicidade
«

Onde e quando quiser

Tenha a Gazeta do Povo a sua disposição com o Plano Completo de assinatura.

Nele, você recebe o jornal em casa, tem acesso a todo conteúdo do site no computador, no smartphone e faz o download das edições da Gazeta no tablet. Tudo por apenas R$ 49,90 por mês no plano anual.

SAIBA MAIS

Passaporte para o digital

Só o assinante Gazeta do Povo Digital tem acesso exclusivo ao conteúdo do site, sem nenhum custo adicional ou limite.

Navegue com seu celular ou baixe todas as edições no tablet - um novo jeito de ler jornal onde você estiver.

CLIQUE E FAÇA PARTE DESSE NOVO MUNDO

»
publicidade