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A palavra acesa de José Chagas

Contracapa do CD baseado em poesias de José Chagas (foto)
Contracapa do CD baseado em poesias de José Chagas (foto)
Capa do CD baseado em poemas de José Chagas e produzido por Zeca Baleiro

Capa do CD baseado em poemas de José Chagas e produzido por Zeca Baleiro

O Maranhão é mais do que desgovernos e suas consequentes violência e barbárie políticocarcerária. Estava eu submerso no meu oceano de ignorância quando Canhões de Silêncio me atiram um Azulejo do Tempo e me transportam para a Lavoura Azul onde José Chagas acende as palavras e com elas esculpe suas canções de expectativa.

O poeta nascido na Paraíba e construído no Maranhão chegou até mim não em livro, mas em um CD, o “A Palavra Acesa de José Chagas”, mais um aprontamento do multiprodutor e músico Zeca Baleira com seus Saravá Discos e A Ponto de Bala Produções.

Contracapa do CD baseado em poesias de José Chagas (foto)

Contracapa do CD baseado em poesias de José Chagas (foto)

Brilhante, instigante, insinuante, exuberante. Ensina o encarte do CD que Chagas tem mais de 20 livros de poemas. Na vivedura de seus 89 anos, afirma que abandonou a poesia. Seriam hoje dois amigos que não se frequentam, porém sabem que a amizade será eterna.

Baleiro esclarece e rememora que Chagas já esteve presente no cancioneiro popular brasileiro em obra do Quinteto Violado, que gravou “A Palafita” e “Palavra Acesa”, dois petardos músico-literários. Musicados por Fernando Filizola, ganharam versões no disco atual assinadas pela próprio Zeca Baleiro (Palavra Acesa), e Lula Queiroga, Silvério Pessoa e Fernando Nunes (A Palafita), que é um dos destaques do disco.

José Chagas é ao mesmo tempo moderno e tradicional. Seus poemas, como prova o disco, são muito musicais. Uma das razões disso, segundo Baleiro, é que o autor também era saxofonista que se destacava em rodas de amigos em São Luís. Mas é a palavra que comanda.

Olha só a beleza começando pelos títulos de seus livros (alguns citados por mim no primeiro parágrafo):

Lavoura Azul
Os Canhões do Silêncio
Maré Memória
Os Azulejos do Tempo
Canção da Expectativa

Seus poemas são preciosidades delicadas, porém de versos fortes e marcantes, cheios de metalinguagem e inventividade. Por vezes puros, ingênuos, como neste “A Vida É Ciranda” (1979):

Eu brinco em mim numa infância branca
solta num jardim que nunca se tranca

E em mim o menino passa a vida inteira
rodando o destino numa brincadeira

(…)

Contenta-me o afinco com que em poesia
sou menino e brinco na manhã vazia

E ainda que cedo em mim me desande,
construo meu brinquedo de menino grande

Também pode ser duro, incisivo, como em “Os Canhões do Silêncio’ (1979):

Sou o que arrasta sua alma inteira
sobre uma vasta paz de poeira

Sou o que leva seu osso aonde
o cão da treva o morde e esconde

Sou o que atira sua impureza
de encontro à ira da carne acesa

É um escritor livre, que não se prende a estilos ou modismos, um escritor atual, mesmo que seus versos venham de meados do século passado. Pode vir em versos livres, modernos,m que namoram o concretismo, como em Sobrado (1979)


brado antigo
ecoa o só
tão
velho mirante
clara
boia a manhã
de ontem
e já
nela
se abre o dia
na manhã em fogo
asso
o alho da vida
assoalho do mundo
na paz agem
voos
e nuvens
algo
dão
de sonhos no ar
da cidade
cidade
idade
ida de
tempos e templos

Mas pode vir em soneto, como em “Azul de Memória” (1974), que é um xote-reggae delicioso na versão de Alê Muniz e Celso Borges:

O azul, azulejo ou azul laje,
azul longe, azul longo, azul vertido
sobre um templo de pedra que reage
contra a velha cidade e o seu olvido

Azul fora do olhar de quem viaje
em torno de seu sonho imerecido
e lance o esquecimento como ultraje
à cidade e seu ar controvertido

Azul independente de seu céu,
de seu mar, de seu deus, azul incréu,
livre da própria cor, azul feliz,

Que nos colore o sonho e a lembrança,
pois somente a memória é que não cansa
de conservar o amor sobre São Luís

José Chagas passeia por tudo, solto como o trapezista no meio do salto.

Li o CD e ouvi o livro. Tudo funcionou como um aperitivo delicioso para me dar água na boca, coceira no cérebro para conhecer mais e me queimar nas palavras acesas por esse grande poeta brasileiro, José Chagas.

Abaixo, alguma coisa que pode ser encontrada na rede. Começa com a versão de “Sobrado”, com Chico César e Ednardo, passa por Palavra Acesa, na versão de Zeca Baleiro, e depois recorda a criação do Fernando Filizola e Quinteto Violado para a mesma Palavra Acesa.

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