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Enviado por Marcio Antonio Campos, 25/09/14 1:28:13 PM

Infelizmente a situação não está muito boa para quem promove o diálogo saudável entre Cristianismo e evolução nos Estados Unidos. A avaliação é de Karl Giberson, professor universitário e autor de livros sobre o tema (o mais recente é Seven glorious days: a scientist retells the Genesis creation story, e o próximo será Saving the original sinner: how Christians have used the Bible’s first man to oppress, inspire, and make sense of the world). Os leitores mais antigos do blog se lembram de uma entrevista que fiz com ele, cinco anos atrás, por e-mail. Em maio deste ano, Giberson esteve no Brasil para participar do congresso de ciência e fé organizado pela comunidade evangélica Sara Nossa Terra. Naquela ocasião, pudemos conversar mais um pouco e saber como ele (que já não tem mais vínculo com a Fundação BioLogos, da qual foi presidente) viu os avanços e retrocessos nesse debate desde 2009. Agora que o blogueiro finalmente venceu a procrastinação e transcreveu o papo, confiram a íntegra da entrevista.

Karl Giberson dá palestra em evento de ciência e fé em São Paulo

Karl Giberson usou até os Simpsons para falar sobre o cenário evangélico norte-americano e sua relação com as controvérsias a respeito da evolução. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Nós conversamos pela primeira vez cinco anos atrás. De lá para cá, houve avanços ou retrocessos na tarefa de promover a conciliação entre o Cristianismo, especialmente em sua vertente evangélica, e a evolução?

Eu posso falar sobre os Estados Unidos, e lá a situação piorou. Da última vez que fizemos uma pesquisa para avaliar se as pessoas estavam pensando que a criação e a evolução podem caminhar juntas, como num tipo de evolução teísta, o número de entrevistados que aderem a essa ideia diminuiu alguns pontos porcentuais, enquanto as visões fundamentalistas ganharam terreno. Então, a situação não melhorou. Não temos muito motivo para comemorar.

Por que isso acontece?

A dificuldade que temos nos Estados Unidos para se compreender essa questão é o fato de o país estar se tornando muito polarizado politicamente, e isso afeta muitos assuntos, não apenas a relação entre ciência e fé, mas praticamente qualquer tema que seja objeto de debate público. Parece que só existem os extremos, e ninguém no meio. Vemos isso na política, onde quem é de direita se move cada vez mais para a extrema-direita, e quem é de esquerda vai cada vez mais para a extrema-esquerda. Isso contribui para exacerbar tensões entre ciência e fé.

Na nossa primeira entrevista, o senhor disse temer que estivéssemos chegando a um ponto em que a discussão deixaria de ser uma busca pela verdade para se tornar um embate no qual o objetivo é simplesmente esmagar a parte contrária, e que isso não teria volta. Esse ponto chegou, então?

Do modo como as coisas estão hoje, para mim é inconcebível imaginar um modo como isso pode melhorar. Mesmo aqueles que estão trabalhando duro para promover a conciliação, como a Fundação BioLogos, que gastam anualmente US$ 1 milhão, US$ 2 milhões só para ajudar os evangélicos americanos a compreender e aceitar a ciência da evolução, mesmo que eles façam tudo certo, têm de brigar contra o Discovery Institute, que gasta US$ 10 milhões, US$ 15 milhões por ano; ou contra o Answers in Genesis, que gasta US$ 29 milhões por ano; ou o Reasons to Believe, de Hugh Ross, e outras organizações que tentam desacreditar a evolução. Ou seja, há provavelmente 50 vezes mais dinheiro sendo gasto para convencer os cristãos que a Bíblia e a evolução não têm como andar juntas que para promover a visão da conciliação. É muito complicado imaginar de que forma vamos virar esse jogo.

Karl Giberson deu duas palestras no evento ocorrido em São Paulo, no início de maio.

Giberson deu duas palestras no evento ocorrido em São Paulo, no início de maio. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Cinco anos atrás, a BioLogos era provavelmente a única voz importante pela conciliação entre Cristianismo e evolução. Desde então, apareceram outros atores importantes nessa mesma linha?

Não muito. O que há de positivo é que apareceu uma entidade chamada Colossian Forum, que está tentando promover um diálogo, mais ou menos como faz a BioLogos, que por sua vez se tornou bem controversa entre os evangélicos americanos. Ken Ham gasta boa parte do seu tempo atacando a BioLogos, dizendo aos cristãos que se trata de uma organização “liberal” que nega a Bíblia.

Falando em Ken Ham, qual a sua opinião sobre o recente debate entre ele e Bill Nye?

Ham mostrou no debate por que ele tem tanto sucesso no que faz. Ele apresenta esses cientistas e engenheiros que também são criacionistas, para mostrar que é possível ser um criacionista e oferecer contribuições significativas para a ciência. Esse argumento é bem poderoso, mas o que Ham não conta para as pessoas, e é algo que Nye não foi capaz de explorar, é que em muitos casos essas pessoas são engenheiros, e não cientistas; e mesmo os cientistas não são exatamente os maiorais no ramo em que atuam, eu mesmo nunca tinha ouvido falar em nenhum deles. Eles representam um grupo meio à margem da comunidade científica, e são pouquíssimos. Não deve passar de 0,1% a proporção de cientistas que concordam com essas pessoas, e mesmo assim Ham as apresenta como se fossem exemplos comuns dentro da comunidade. Nye não explorou bem esse ponto. E, só por estar em um debate com Bill Nye, Ham teve a oportunidade de passar a impressão de que se trata apenas de dois pontos de vista diferentes. Nesse sentido (e não pela riqueza ou precisão dos argumentos), me parece que Ham se beneficiou mais do debate. Também me parece, mas não posso dizer com 100% de certeza, que o debate e a visibilidade nacional gerada por ele ajudaram Ham a bancar seu projeto da Arca de Noé, então o que Bill Nye conseguiu foi dar a Ham a chance de conseguir completar os recursos para mais uma iniciativa anticientífica.

No lugar de Nye, o que o senhor teria feito de diferente?

Acho que ele deveria ter tentado raciocinar mais como um cristão, mostrando que a maneira como Ken Ham lê e interpreta a Bíblia é errada. Nye cometeu o erro que muitos acadêmicos cometem, que é o de achar que esse é um debate sobre ciência. Ele foi lá, mostrou todos os fatos e evidências a favor da evolução de um ponto de vista puramente científico, mas, convenhamos, não é muita gente que vai se convencer apenas com base nisso. Teria sido interessante que Nye desafiasse Ham no campo bíblico.

William Lane Craig disse, em entrevista ao blog, que a melhor maneira de convencer criacionistas não era tanto atacar sua compreensão da ciência, mas sua compreensão da Bíblia. É essa a estratégia adequada, então?

Exato. Não se trata ridicularizar as crenças alheias, ou Ken Ham, ou seus seguidores, mas de mostrar que eles adotaram convicções muito profundas sobre que tipo de literatura é a Bíblia, e sobre como essa literatura deve ser analisada, mas que são convicções muito minoritárias entre os cristãos, e ainda mais raras entre aqueles que se dispõem a estudar com seriedade o conteúdo das Escrituras. Não dá para pensar que Deus escondeu revelações de caráter científico nas entrelinhas do texto bíblico, mas Ken Ham acha que Deus escreveu a Bíblia tentando comunicar coisas que só o homem do século 21 entenderia. Os estudiosos dos textos sagrados não vão concordar com isso. Então, um bom modo de lidar com criacionistas e mostrar o quão excêntrica é a abordagem que eles fazem da Bíblia.

Aviso: A viagem e a hospedagem do blogueiro para o congresso citado neste post foram bancadas pela Sara Nossa Terra.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 22/09/14 4:43:53 PM

Tenho acompanhado com interesse o site Crux Now, uma iniciativa do Boston Globe para incrementar a cobertura de assuntos relativos à Igreja Católica. Mas foi um amigo, também leitor do site, que me chamou a atenção para um anúncio publicitário que aparece na página.

Anúncio de site de namoro para católicos cria antagonismo entre religião e evolução.

Anúncio de site de namoro para católicos cria antagonismo entre religião e evolução. (Imagem: Reprodução)

O Catholic Match é um site que ajuda católicos a encontrarem sua alma gêmea. Em um de seus banners publicitários, aparece a frase “cansado(a) de sair com gente que não compartilha da sua fé?” Até aí, vá lá. Afinidade religiosa ou ideológica é um aspecto importante para muita gente na hora de procurar alguém para um relacionamento sério. O problema é que, na imagem, o “antagonista” da mocinha católica é um sujeito com um “Darwin” na camiseta.

Como se o catolicismo e a teoria da evolução não pudessem se dar bem. Há pelo menos dois “casamenteiros” com autoridade que pensam o contrário: Pio XII, que na Humani Generis abriu espaço para a conciliação entre o dogma católico e a teoria de Darwin, e São João Paulo II, que foi ainda mais enfático a respeito. Sem falar de vários outros estudiosos, tanto cientistas quanto teólogos, que já citamos várias vezes aqui no blog.

Talvez o idealizador do anúncio tenha caído no conto do vigário segundo o qual a evolução é sinônimo de ateísmo. Assim, a ideia não seria tratar o sujeito como evolucionista, mas como ateu, o que certamente traria problemas no relacionamento. Bom, se é assim, foi um erro grosseiro, primeiro porque, a despeito do que dizem os ateus militantes, aceitar a evolução não exige negar a existência de Deus. E, segundo, porque os ateus organizados já têm os seus símbolos e logotipos, que poderiam ser aproveitados no banner.

Então, nessa época em que prefeituras ficam pedindo umas às outras em casamento pelas mídias sociais (clique aqui caso não saiba do que estamos falando), temos de dizer: entre catolicismo e evolução, dá namoro, sim.

Vida fora da Terra

O jesuíta Guy Consolmagno está lançando um novo livro sobre questões de ciência e fé.

O jesuíta Guy Consolmagno está lançando um novo livro sobre questões de ciência e fé. (Foto: Divulgação/Observatório Vaticano)

Sem sair do Crux Now, vale a pena ler a reportagem com o irmão jesuíta Guy Consolmagno, novo presidente da Fundação Observatório Vaticano. Ele está lançando um novo livro, em coautoria com outro jesuíta, também astrônomo do Observatório Vaticano. Apesar de se chamar Would You Baptize an Extraterrestrial?, a obra, como seu subtítulo diz (… and Other Strange Questions From the Inbox at the Vatican Observatory), trata de vários outros temas, como o Big Bang, o processo de Galileu e os relatos da criação. É ótimo ver a maneira como Consolmagno trata da relação entre ciência e fé como companheiras de viagem, e não como adversárias, deixando claro que descobertas estrondosas, como seria a constatação de que existe vida fora da Terra (o que, aliás, Consolmagno dá como quase certo), não abalariam a fé, mas ofereceriam terreno para uma série de questões teológicas bem instigantes.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 15/09/14 6:42:59 PM

Lá em 2008, houve um certo burburinho quando se “descobriu” que o papa Bento XVI, quando cardeal, era doador de órgãos (não pude confirmar, mas parece que o “quando cardeal” é importante nesse caso específico porque, suponho, os ritos fúnebres de um pontífice inviabilizam a doação de órgãos). Parte do burburinho se deveu ao fato de a “revelação” sobre o cartão de doador do cardeal Ratzinger meio que coincidir com um debate que surgiu no L’Osservatore Romano sobre a validade do critério de morte encefálica para se determinar o fim da vida (esse, aliás, foi um dos primeiros temas tratados no Tubo de Ensaio).

(só para deixar claro, a doutrina católica não tem absolutamente nada contra a doação de órgãos. O Catecismo da Igreja Católica diz, no n. 2301, que a doação é legítima e pode ser meritória).

Transporte de órgãos para transplante: ação que salva vidas é bem vista pela Igreja Católica. (Foto: Marco André Lima/Gazeta do Povo)

Transporte de órgãos para transplante: ação que salva vidas é bem vista pela Igreja Católica. (Foto: Marco André Lima/Gazeta do Povo)

Bom, imagino o que essas pessoas que ficaram perplexas com a disposição do cardeal Ratzinger de ter seus órgãos doados pensariam da iniciativa conjunta entre a Arquidiocese de Curitiba e a Central Estadual de Transplantes…

Acontece que, na manhã deste domingo, na PUCPR, ocorre o II Seminário Arquidiocesano de Valorização e Promoção da Vida, organizado pela Comissão Família e Vida da Arquidiocese de Curitiba, com apoio da Pastoral Familiar da Arquidiocese de Curitiba, do mestrado em Bioética da PUCPR, do Núcleo Arquidiocesano de Bioética de Curitiba, do Centro de Planejamento Familiar de Curitiba, da Rede Evangelizar de Comunicação e das Paulinas Serviços de Comunicação. Mas, além disso, este fim de setembro marca a Campanha Estadual de Doação de Órgãos e Tecidos, uma iniciativa do governo do estado. A Pastoral da Saúde da arquidiocese entrou na onda e promove, de 21 a 27 de setembro, a campanha “Doar Vida é gesto libertador”, focada na doação de órgãos. Juntando tudo isso, ficou resolvido que não havia ocasião melhor para o lançamento da iniciativa arquidiocesana que o seminário na PUCPR.

Então, quem for ao Seminário Arquidiocesano de Valorização e Promoção da Vida vai ter a oportunidade de se cadastrar como doador de medula óssea (é aqui que entra a Central de Transplantes). É uma chance ótima de poder ajudar a salvar vidas.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 05/09/14 4:58:00 PM

Antes de mais nada, é preciso deixar muito claro que esse post não significa endosso ou rejeição a nenhum candidato presidencial. Minha opção política é o que menos interessa aqui.

Marina Silva, candidata à Presidência do Brasil

Já faz anos que Marina Silva tenta se livrar da acusação de ser criacionista de Terra jovem. (Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo)

Dito isso, bom, com a entrada de Marina Silva na corrida presidencial, resolveram desenterrar uma polêmica de anos atrás: afinal, a candidata, que é evangélica, é uma criacionista de Terra jovem, daqueles que acreditam que Deus criou tudo 6 mil anos atrás e que a evolução é uma farsa? Três artigos/colunas publicados na Folha de S.Paulo nos últimos dias trataram do assunto.

Primeiro, foi o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, que domingo passado não hesitou em afirmar que Marina é, sim, criacionista; que ela teria admitido isso no passado e hoje evita o assunto. “Não me sinto confortável em ter como presidente uma pessoa que acredita concretamente que o Universo foi criado em sete dias há apenas 4.000 anos (sic), aproximadamente”, escreveu. Aliás, se eu entendi bem, ele pega pesado com Marina, chegando a insinuar que ela seja uma savant ou portadora de uma “desordem do desenvolvimento neural” (se o tom enfático antiMarina se deve apenas a questões de ordem científica ou se há outros componentes aí eu deixo para o leitor do blog que resolver olhar com cuidado o site do físico).

Na terça-feira, o colunista Hélio Schwartsman, cuja hostilidade a qualquer coisa que tenha a ver com religião é pública e notória, endossou a tese de Cerqueira Leite de que Marina é criacionista de Terra jovem e tentou achar na neurociência uma explicação para os motivos que levam alguém a pensar como pensa (se é que Marina pensa o que Schwartsman pensa que ela pensa…)

Por fim, hoje, o economista Eduardo Giannetti, que faz parte da campanha de Marina como um de seus assessores econômicos, saiu em defesa da candidata também em sua coluna. Giannetti é bem taxativo: “Marina nunca endossou o criacionismo ou defendeu que fosse ensinado nas escolas” (fico aqui pensando que o único impacto que um presidente criacionista poderia ter seria justamente esse, pressionar para que as escolas ensinassem criacionismo nas aulas de Biologia).

Bom, o que a candidata já disse sobre o tema? Achei dois vídeos de participações dela no programa Roda Viva. O primeiro é de setembro de 2009:

E o outro é de outubro de 2013 (a parte que interessa começa no minuto 1’40″):

E um vídeo de uma conversa com editores da revista IstoÉ, em 2010 (o criacionismo entra aos 1’37″):

O que se conclui disso aí? Pelo que entendi, Marina nega ser criacionista de Terra jovem. Ela acredita, sim, que Deus “criou o universo e todas as coisas”; mas há uma diferença entre dizer que “Deus criou todas as coisas”, de uma maneira um tanto figurada, e dizer que “Deus criou todas as coisas exatamente na sua forma presente e não houve mudança nenhuma de lá para cá“. Da mera frase “Deus criou todas as coisas” não se pode concluir nenhuma adesão ao criacionismo — a não ser que haja alguma declaração anterior de Marina (como o entrevistador do primeiro vídeo diz haver, mas não cita publicações nem datas) defendendo enfaticamente o criacionismo; mas parece que nada disso veio à superfície ainda. Não dá para dizer que a polêmica esteja encerrada. Mas até o momento parece estar sendo superdimensionada.

Antes de terminar o post, recomendo muito a leitura dos dois últimos parágrafos do texto de Giannetti. Vá lá, eu acho que a relação entre ciência e fé é mais amistosa que a visão de magistérios não interferentes que ele parece defender, mas é impossível discordar dele quando diz que “a fé cristã não implica o criacionismo, assim como o apreço pela ciência não implica o cientificismo”. Sua reflexão final sobre os limites da ciência também merece muita consideração.

(Atualização às 19h18): vi agora que, uma hora antes do post do Tubo, o Reinaldo Lopes, do blog Darwin e Deus, havia escrito sobre o mesmo tema, inclusive resgatando uma fala de Marina Silva anterior a todas as entrevistas em vídeo que estão neste post, e fazendo uma análise do discurso não muito claro da hoje candidata. Também vale a pena ler!

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 28/08/14 7:41:02 PM

Um amigo me chama a atenção para uma imagem compartilhada anteontem pela fan page do Facebook I fucking love science. Trata-se de uma obra do cartunista Adam Zyglis, do jornal The Buffalo News, originalmente publicada em 12 de julho. Clique aqui para ver (questão de ética: a não ser nos casos de divulgação expressamente autorizada, não gostamos quando simplesmente copiam e colam todo o nosso conteúdo em outro site, deixando de gerar tráfego para quem realmente produz a informação. Fica o aviso para um ou outro que já vi publicando na íntegra textos do Tubo, por mais nobres que sejam as suas intenções).

Qual é o problema? São os quadrinhos da esquerda. No primeiro quadrinho, ambientado no século 15, um sujeito coloca uma régua colada ao chão e diz “se a Terra é redonda, então explique isso, insinuando que a régua comprovava a não esfericidade do planeta. Assim, Zyglis dá a entender que haveria uma crença generalizada de que a Terra era plana (e essa crença, acrescento, existiria por influência da Igreja Católica). Ora, nada mais distante da realidade. Trata-se de mais uma das lendas sobre a relação entre ciência e fé espalhadas pela dupla John Draper e Andrew White, e que já foi desmentida por inúmeros historiadores da ciência e grandes cientistas, como Stephen Jay Gould. E, caso alguém lembre do ceticismo que rondava a viagem de Cristóvão Colombo, precisamos ressaltar que a controvérsia, em seu tempo, não se relacionava ao formato da Terra, mas ao seu tamanho; Colombo achava que a circunferência do planeta era bem menor do que realmente é.

(Só para deixar claro, houve, sim, alguns pensadores cristãos que defendiam uma Terra plana, como Lactâncio, ainda no fim da Antiguidade, e Cosme Indicopleustes; mas sua obra acabou praticamente ignorada por seus contemporâneos e sucessores; em outras palavras, ninguém lhes deu bola.)

Imagem medieval da Virgem Maria com o Menino Jesus segurando um globo.

Nessa imagem medieval, o Menino Jesus segura um globo. Não é que ele gostasse de jogar bocha: é que os medievais sabiam que a Terra era esférica. (Foto: Walters Art Museum/Wikimedia Commons)

E daqui passamos ao outro quadrinho da esquerda, ambientado no século 19. Um sujeito de terno, gravata e chapéu (pelo menos não está vestido como clérigo) segura uma Bíblia e diz “se a evolução é real, então explique isso“. É a velha tentativa de opor religião e evolução, tropeçando tanto na história quanto na dimensão. Afinal, o fundamentalismo antievolucionista é um fenômeno do século 20, não do século 19. Além disso, por mais estridentes que sejam os que recusam a evolução com motivos religiosos e fazem disso uma bandeira, eles são uma minoria, se me permitem a redundância, bem minoritária. Podem estar até ganhando terreno, ter dinheiro e presença midiática, mas ainda são muito menos numerosos que os cristãos que conciliam perfeitamente a evolução com a crença em um Deus criador do universo, ou aqueles para quem o tema não importa absolutamente nada.

Mas, como sabemos do poder das imagens, temos que lamentar a perpetuação de preconceitos e lendas sobre o conflito entre ciência e fé por meio de charges de jornal.

Mais ciência e fé em Curitiba

Sei que está meio em cima da hora, mas o Guilherme de Carvalho (que está por trás da divulgação no Brasil do material do Teste da Fé e está ajudando a organizar o curso Faraday em São Paulo, do qual falei alguns posts atrás) dará uma palestra em Curitiba na segunda-feira, dia 1.º. Vejam aí as informações (e, se você é de Joinville ou São Leopoldo, confira também), com horário, endereço e telefone:

(Imagem: Divulgação)

(Imagem: Divulgação)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 21/08/14 11:17:09 AM

A bioética, um dos ramos de intersecção entre ciência e fé (e talvez o mais conhecido no Brasil), vai ganhando mais e mais cursos. Depois da PUCPR, que tinha uma especialização e agora tem um mestrado na área, é a vez da FAE Centro Universitário, que incluiu um módulo de bioética em seu curso de extensão em Teologia. As aulas ocorrem aos sábados de manhã, e são divididas em cinco módulos; “Ética e Bioética” é o terceiro deles, e todos serão ministrados pelo professor Osmar Ponchirolli.

câmpus da FAE em Curitiba

A FAE Centro Universitário lança seu curso de extensão em Teologia, com um módulo sobre bioética (Foto: Divulgação)

Quem se interessou tem de ficar esperto: o primeiro módulo começa já neste sábado, às 8 horas (o câmpus da FAE fica na Rua 24 de Maio, 135, Centro de Curitiba), e a inscrição precisa ser feita até amanhã, no link do curso. Mas existe a possibilidade de cursar separadamente os módulos; assim, os interessados apenas no módulo de bioética têm um prazo maior, até 1.º de outubro, já que essas aulas específicas ocorrem em 4 e 11 de outubro.

Ciência e fé na TV Canção Nova, hoje à noite

O astrofísico Alexandre Zabot, professor no câmpus Joinville da UFSC, é o convidado de hoje do programa Escola da Fé, da TV Canção Nova, apresentado pelo professor Felipe Aquino. Zabot, que é católico e por alguns anos dividiu comigo a coluna de ciência e fé da revista O Mensageiro de Santo Antônio, falará ao vivo sobre cosmologia, e ainda gravará outro programa, para ser exibido posteriormente, sobre vários temas relacionando ciência e fé. O programa começa às 21h30.

A Canção Nova, em algumas cidades, tem sinal aberto; algumas operadoras de tevê por assinatura também têm o canal. Mas quem não tem a emissora disponível nem no sinal aberto, nem no fechado, não precisa se desesperar: o site da Canção Nova transmite ao vivo sua programação pela internet.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 14/08/14 10:33:05 AM

Nunca tinha ouvido falar de Michael Gungor. Mas uma pesquisa rápida mostra que ele e a esposa, Lisa, são razoavelmente conhecidos no cenário musical protestante norte-americano, fazendo uma música com temas cristãos, mas cujo ecletismo torna difícil de encaixar em um gênero específico. Eles já ganharam um Dove (prêmio para música gospel) e seu coletivo musical, Gungor, já foi indicado várias vezes ao Grammy (mas ainda não ganhou o prêmio).

O músico Michael Gungor e sua esposa, Lisa.

Michael Gungor e sua esposa, Lisa: rejeição do criacionismo colocou o músico na berlinda. (Foto: Divulgação/gungormusic.com)

Mas parece que, pelo menos entre alguns grupos, Gungor caiu em desgraça por causa de suas opiniões a respeito do literalismo bíblico. O site da revista cristã World publicou, no dia 2, um texto acusando Gungor de “se afastar da ortodoxia bíblica”, e a reação foi intensa, levando até ao cancelamento de shows da banda. No dia 6, Gungor publicou em seu blog um texto reafirmando suas crenças cristãs, mas dizendo que não há como interpretar 100% literalmente a totalidade do texto bíblico. Ele não acredita em um dilúvio global, por exemplo. “Por quê? Por causa da ciência e do pensamento racional”. Em seguida, ele explica que é falso pensar que negar a literalidade absoluta de um trecho da Bíblia obriga a negar a literalidade de toda a Bíblia, mostra todos os problemas de uma interpretação literal do dilúvio, nega veementemente a noção de um universo criado há 6 mil anos, e arrisca uma explicação sociológica para tanta insistência nas questões envolvendo a origem do universo. Trata-se de reforçar a identidade da panelinha. “As panelinhas tendem a enfatizar coisas que na verdade não importam para mais ninguém a não ser os da panelinha. É um modo de saber quem também faz parte dela”, diz, acrescentando que os fundamentalistas bíblicos deviam estar pensando que Gungor era parte da panelinha, e se decepcionaram ao saber que não era bem assim.

O músico, no entanto, não vê os fundamentalistas com desprezo, e lhes manda uma mensagem de confiança, mas com um alerta: “Saibam que, se vocês criarem essas dicotomias nas quais forçamos as pessoas ou a cair no campo do literalismo bíblico cientificamente cego, ou no campo dos que descartam a Bíblia como mentira completa, vocês estarão roubando de muitas pessoas parte da riqueza que a Bíblia oferece”, e que essa atitude só ajuda a criar mais pessoas cínicas e antirreligiosas.

Anteontem, o site da Fundação BioLogos publicou a entrevista que fez com Gungor. Nela, o músico explica melhor quais são suas convicções a respeito da origem do universo e da diversidade da vida na Terra, reafirma sua defesa da teoria da evolução (e conta como ele, criado num ambiente de fundamentalismo bíblico, descobriu e concordou com as ideias de Darwin) e mostra como ele a concilia com sua fé cristã. Gungor defende o que muitas vezes já foi repetido aqui no blog: deixemos os cientistas pesquisarem, e se o que eles descobrirem bater de frente com a interpretação que temos de certos trechos da Bíblia, melhor questionar nossa interpretação.

Em sua última resposta, Gungor ainda diz que estamos fazendo tanto barulho sobre essas questões enquanto há cristãos sendo massacrados no Iraque, enquanto há pessoas precisando de comida e de água, e que há muito mais a unir os cristãos que a dividi-los. Não significa que o debate seja inútil, e o próprio Gungor diz “vamos debater (…) mas vamos lembrar que, no fim, estamos nisso juntos”. Nessa estou com ele. Embora eu duvide que alguém vá salvar ou perder a sua alma por defender criacionismo de Terra jovem, Design Inteligente ou evolução, a discussão teórica/teológica/chame como quiser é importante, sim. O problema é ficar apenas nela e esquecer a oração e as obras de misericórdia, que são obrigações do cristão tanto quanto conhecer bem a sua doutrina.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 06/08/14 3:20:19 PM

Já estão on-line todas as informações sobre o curso do Instituto Faraday no Brasil, com datas e programação. Como contei em outras oportunidades, havia instituições e pesquisadores de muitas cidades interessados em organizar um curso Faraday, mas no fim apenas São Paulo foi escolhida. O curso será realizado de 9 a 12 de outubro, em conjunto com a Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares, e todas as informações estão no site montado especialmente para o evento. Serão três dias na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), e um dia mais para encerramento, com um culto e uma palestra do teólogo Guilherme de Carvalho, um dos responsáveis por organizar tudo isso (e que fez o curso de verão do Faraday, em Cambridge, em 2010, um ano antes de mim).

prédio da Engenharia Mecânica da Poli-USP

O prédio da Engenharia Mecânica da Poli-USP receberá o curso do Instituto Faraday em São Paulo. (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

A delegação do Faraday consiste no ex-diretor do instituto, Denis Alexander; no ex-diretor de Cursos da instituição, Rodney Holder; e na atual diretora de Cursos, Hilary Marlow. Completam a lista de palestrantes professores da Faculdade Teológica Batista de São Paulo e do Paraná (daqui vai o professor Gerson Fischer), da Unicamp e da USP. As inscrições serão abertas ainda neste mês.

E Curitiba? O pessoal da PUCPR se empenhou, mas infelizmente não foi possível trazer um curso completo à cidade, principalmente por incompatibilidades de data (o recesso do dia do professor atrapalhou bastante o planejamento). Mas já ficou acertado com o pessoal do Faraday que haverá uma palestra, na noite de 14 de outubro, sobre a relação histórica entre ciência e religião. Detalhes como o local exato do evento, o nome do palestrante e necessidade de inscrição prévia ainda serão definidos; o que se sabe é que o professor Mário Sanches, diretor do mestrado em Bioética da PUCPR, fará parte da mesa como debatedor.

VIII Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião

Puente de la Mujer, em Buenos Aires

Depois de umas palestras sobre ciência e fé, quem sabe um passeio por Puerto Madero, um bom churrasco… (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

E, logo depois da passagem do Faraday por aqui, Buenos Aires receberá, de 20 a 22 de outubro, a oitava edição do Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião. A página do evento no Facebook está aos poucos publicando a relação completa de palestrantes e informa que ainda há tempo para inscrições, tanto para quem quiser apenas assistir ao evento como para os interessados em fazer apresentações curtas. Além do site e do Facebook, também é possível obter informações por e-mail.

Experiência de quase-morte

No dia 16 de agosto, o Instituto Ciência e Fé de Curitiba promove uma mesa-redonda e debate com o tema “Experiência de quase-morte no depoimento de três médicos”. Os médicos em questão são Laércio Furlan, cardiologista e intensivista; Carlos Harmath, psiquiatra e professor de Medicina; e Dagoberto Requião, psiquiatra e professor da PUCPR. O oncologista e professor Cícero Urban fará a moderação e o padre Ricardo Hoepers fará algumas observações sobre o assunto dentro da perspectiva católica. A entrada é gratuita (só é preciso fazer inscrição por e-mail) e o evento começa às 10 horas, no auditório da Escola de Enfermagem Catarina Labouré (Rua Jacarezinho, 1.000, Mercês, Curitiba).

(Aviso: o Instituto Faraday, citado neste post, deu ao blogueiro uma bolsa para participar de um curso na Universidade de Cambridge, em 2011)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 24/07/14 6:01:41 PM

A reportagem da minha colega Carolina Pompeo publicada semana passada na Gazeta do Povo, sobre os 5 mil embriões doados para pesquisas no Brasil, me fez lembrar de uma outra notícia, muito melhor, que certamente não teve nem parte da repercussão que teve o relatório da Anvisa: o enorme sucesso que um hospital do Vaticano obteve em uma pesquisa usando células-tronco adultas. Saiu, claro, na Rádio Vaticana, e também no La Repubblica, mas por aqui só mesmo sites e blogs católicos, como o Aleteia, deram a notícia, que passou ignorada pela grande imprensa.

Enquanto seguem criticando a Igreja por sua oposição à pesquisa com embriões, ela segue incentivando descobertas com o uso de células-tronco adultas. (Foto: Priscila Forone/Gazeta do Povo)

Enquanto seguem criticando a Igreja por sua oposição à pesquisa com embriões, ela segue incentivando descobertas com o uso de células-tronco adultas. (Foto: Priscila Forone/Arquivo Gazeta do Povo)

Em resumo, pesquisadores do Hospital Pediátrico Bambino Gesù estudaram a possibilidade de transplante de células-tronco adultas em crianças com doenças genéticas, tumores no sangue e problemas de imunodeficiência. A notícia é especialmente animadora para os portadores de leucemia, em que é amplamente conhecida a dificuldade de se encontrar doadores compatíveis para um transplante de medula óssea. Os pesquisadores do Bambino Gesù descobriram que é possível manipular e transplantar células-tronco adultas, retiradas dos pais do paciente, mesmo que eles não tenham a compatibilidade genética “clássica” exigida para o transplante de medula. No caso de doenças raras do sangue, a técnica foi experimentada em 23 crianças, com um índice de sucesso de 90%. Os pesquisadores também aplicaram a técnica em mais de 70 crianças com leucemia aguda, com sucesso de 80%. Os resultados foram, primeiro, apresentados em dezembro do ano passado em um congresso nos Estados Unidos, e posteriormente publicados na edição de 28 de maio da revista Blood, da Sociedade Americana de Hematologia.

Pois é, enquanto a Igreja levava (e ainda leva) pedras por se opor à pesquisa com embriões, suas instituições estão trabalhando em alternativas eticamente aceitáveis para evitar a destruição de seres humanos em laboratório. Já falamos aqui da parceria entre o Vaticano e um grande laboratório para promover a pesquisa com células-tronco adultas, e agora surge esse resultado espetacular do Bambino Gesù. E entre os críticos da Igreja podemos colocar a geneticista Mayana Zatz; em 2006, no programa Roda Viva, ela culpou o Vaticano pela não aprovação, na Itália, de uma lei que permitisse a pesquisa com embriões. E reparem nas alfinetadas que ela dá nessa entrevista de 2010 ao jornal O Globo. Aliás, no melhor estilo “esqueçam o que eu escrevi”, na entrevista ela celebra a pesquisa com células iPS, a mesmíssima pesquisa da qual ela fez pouco em seu blog em 2008 para argumentar que era preciso investir no uso de embriões. E, por fim, na matéria que a Gazeta publicou semana passada, está lá a Mayana dizendo à Agência Estado “Não trabalho com células embrionárias. Já me ofereceram embriões várias vezes, mas no momento não estou fazendo nada com elas”. Isso sem que tenhamos visto um mea culpa ou qualquer coisa do tipo. Claro, muito melhor que ela esteja hoje fazendo pesquisas com células-tronco adultas em vez de usar embriões. Mas fica óbvio que, nessa história toda, é a Igreja que merece reconhecimento pela sua coerência.

infográfico com pesquisa de celulas tronco em hospital do vaticano

O Bambino Gesù mostra, em uma infografia, como é a técnica de transplante de células-tronco adultas. Infelizmente só há versão em italiano.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 30/06/14 2:00:19 PM

O blog volta hoje de um recesso que combinou as férias do blogueiro e a loucura da Copa do Mundo em Curitiba. E retomamos de onde paramos: o evento de ciência e fé organizado pela comunidade evangélica Sara Nossa Terra, que ocorreu em São Paulo de 1.º a 3 de maio, bem no início das minhas férias. Foi uma grande oportunidade de reunir gente muito boa, dos mais diversos campos, e sou grato ao bispo Robson Rodovalho por ter me convidado para colaborar com a organização do evento, inclusive sugerindo vários dos nomes que estiveram presentes dando palestras. No fim, acabei atuando também como um mestre de cerimônias um tanto desengonçado, o que me deu oportunidade de interagir ainda mais com os palestrantes.

Palestra de Karl Giberson no evento de ciência e fé em São Paulo

Karl Giberson, em sua primeira visita ao Brasil, foi um dos convidados internacionais para o evento de ciência e fé organizado pela comunidade evangélica Sara Nossa Terra. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

O público presente ao auditório Elis Regina, no Anhembi, era majoritariamente de membros da Sara Nossa Terra, sem falar nos grupos de vários cantos do país que acompanharam o evento pela transmissão on-line, mas os preletores eram das mais diferentes confissões religiosas. Infelizmente não pudemos contar com o padre Lucio Florio, que precisou ficar em Buenos Aires por questões pessoais; também não foi possível assistir à palestra do professor Allan Chapman, da Universidade de Oxford: o vídeo que ele enviaria era grande demais e não foi possível baixá-lo a tempo para ser exibido no evento. Essa foi uma das pequenas lições práticas que aprendemos quando se organiza pela primeira vez algo tão grande.

O primeiro dia foi dedicado mais a uma introdução da relação entre ciência e fé, com palestras dos professores Antonio Delson e Francisco Borba. Pelo que pude sentir, a audiência ficou especialmente encantada com a palestra de Borba, que falou muito sobre sabedoria e ciência, mostrando como o conhecimento científico se relaciona (ou, às vezes, não se relaciona) com contextos mais amplos de compreensão do mundo. Já o professor Delson tratou de mostrar que o cristão não tem motivos para temer a ciência. Ele, como membro da Sara Nossa Terra, conhecia seu público melhor que todos os outros palestrantes, e achei que sua introdução veio bem a calhar. Apesar de essa comunidade evangélica ter um líder que foi professor universitário de Física, e que já escreveu sobre ciência e fé, pude perceber, ao longo do evento, que ainda existe uma certa desconfiança de fundo em relação à ciência, especialmente analisando várias das perguntas que foram feitas a todos os palestrantes.

Foi a partir do segundo dia que entramos nos temas específicos. Cícero Urban, professor da PUCPR e da Universidade Positivo, capturou a atenção da audiência trazendo diversos estudos de caso que envolvem decisões bioéticas. Mostrou as últimas novidades das pesquisas com células-tronco, tratou de situações como aborto, pesquisas com embriões, temas que estão circulando por aí e sobre os quais nem sempre as pessoas têm a melhor informação para formar sua opinião.

Mas, acho eu — e creio que a maioria do público também achou –, os grandes nomes do evento foram Gerald Schroder e Karl Giberson. Os leitores do blog já conhecem Giberson, um dos principais defensores da conciliação entre o Cristianismo e a teoria da evolução entre os evangélicos norte-americanos. Giberson foi por muito tempo ligado à Fundação BioLogos, que chegou a presidir por algum tempo, e trouxe para o público evangélico brasileiro um alerta, mostrando aos participantes do evento como o criacionismo de Terra jovem havia ganho espaço nos Estados Unidos. Ele apresentou diversas evidências em favor da evolução e mostrou como um cristão pode aceitar a teoria de Darwin sem problema algum.

Palestra do Gerald Schroder no evento de ciência e fé em São Paulo

Gerald Schröder chamou a atenção do público com seu modelo que concilia a noção de seis dias literais da criação com um universo de 13 bilhões de anos. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Schröder, um astrofísico judeu ortodoxo com jeitão de avô simpático, conquistou o público tratando de questões relacionadas ao início do universo, ao Big Bang e aos “seis dias” da criação. Mesmo com minhas anotações, eu realmente gostaria de ver mais uma vez suas palestras (tanto ele quanto Giberson falaram no evento mais de uma vez) e ler seu livro Genesis and the Big Bang para ter certeza de que entendi bem o que ele propõe: que os seis dias da criação são, sim, literais, no sentido de seis períodos de 24 horas, mas que também se desenrolaram no período de 13 bilhões de anos que entendemos hoje como a idade do universo. Se eu realmente entendi direito (é preciso fazer essa ressalva), Schröder afirma que, nos primórdios do universo, o tempo passava muito mais devagar e foi “acelerando” à medida que o universo ia desacelerando e se resfriando. Assim, na verdade o universo tem 13 bilhões de anos “dos nossos”, ou seja, na “velocidade” com que o tempo passa hoje, mas um observador que estivesse lá no início perceberia o tempo de outra forma.

Um momento especialmente incrível foi a mesa-redonda em que Giberson e Schröder puderam discutir alguns desses pontos. Schröder, por exemplo, fez algumas críticas à evolução, enquanto Giberson discordou da noção de que a Bíblia contivesse alguns “códigos escondidos” que só seriam acessíveis ao homem moderno, à medida que a ciência avançasse. Todo o evento foi registrado em vídeo, mas até onde eu sei as imagens ainda não estão disponíveis (até porque, se não me engano, é preciso legendar todas as palestras de Giberson e Schröder, que falaram em inglês). O vídeo de Allan Chapman, que não foi exibido no evento, também estaria disponível. Tanto Giberson quanto Schröder deram entrevistas ao Tubo de Ensaio. Em breve elas serão publicadas aqui.

Rodovalho já deixou meio subentendido que esse foi apenas o primeiro evento do gênero; haverá outros, e inclusive já há negociações para futuras edições. Minha opinião é de que, daqui em diante, será preciso escolher um rumo, que influenciará inclusive a definição dos palestrantes e do público-alvo. Uma opção é direcionar os eventos ao público acadêmico, para promover um debate frutífero e profundo sobre a relação entre ciência e fé. Nesse caso, a divulgação teria de ser feita prioritariamente no meio universitário, e não tanto nas igrejas (embora essas não devessem ficar de fora do público-alvo), e considerar que parte do público seria formado por pessoas não religiosas, ou mesmo hostis à religião, e saber lidar com isso. Os palestrantes também poderiam incluir pessoas não religiosas.

Outra opção é direcionar o evento de vez ao público evangélico/cristão/religioso, para mostrar com muita ênfase que o cristão, ou a pessoa de fé, não tem por que temer a ciência, mostrando como conciliar as descobertas científicas com as escrituras sagradas, derrubar mitos, evitar polêmicas desnecessárias, prevenir o avanço da pseudociência (como o criacionismo de Terra jovem) entre os cristãos. Nesse caso, claro que a prioridade é divulgar o evento nas igrejas, e trazer palestrantes que combinem profundo conhecimento científico e a “fé sólida e adulta” de que costumava falar o papa Bento XVI. Em um evento desse tipo teriam lugar inclusive testemunhos como o que o professor Delson deu durante sua palestra.

Esses são dois caminhos bem distintos e igualmente nobres, e que poderiam inclusive nortear eventos diferentes, por exemplo em um ano buscando mais o público religioso, e em outro o público acadêmico. Só acho que seria mais complicado misturar os dois objetivos em um único evento. Mas é uma decisão que não cabe a mim, e sim aos organizadores, que certamente saberão o que fazer.

E logo teremos mais!

A turma do Instituto Faraday já está com passagem marcada para o Brasil. Em outubro, teremos pelo menos um curso de quatro dias. Pelo que apurei até o momento, infelizmente motivos de calendário impediram que houvesse um curso em Curitiba, mas não está descartada pelo menos uma conferência em nossa cidade.

Aviso 1: A viagem e a hospedagem do blogueiro para o congresso citado neste post foram bancadas pela Sara Nossa Terra.

Aviso 2: O Instituto Faraday, mencionado neste post, concedeu uma bolsa para o blogueiro fazer um curso sobre ciência e religião em Cambridge em julho de 2011.

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