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Blog Tubo de Ensaio

A “pré-história” do Sudário de Turim

Iluminura da
Nesta iluminura da "Crônica de João Scylitzes", os governantes muçulmanos de Edessa entregam a Imagem aos bizantinos após o cerco de 943 d.C. (Imagem: Reprodução)

Chegou a Semana Santa, e com ela todo o arsenal de documentários e reportagens sobre a vida (ou, mais especificamente, a morte e ressurreição) de Jesus. E, nessas horas, não podem faltar as referências ao Santo Sudário, ou Sudário de Turim. Ainda não conferi o que os canais de tevê paga vão exibir por esses dias. Se o History mostrar A verdadeira face de Jesus, eu recomendo; alguns outros documentários já não são grande coisa, e você pode substituí-los pela leitura de The Shroud, do historiador britânico Ian Wilson.

O livro é uma versão bastante “revista e ampliada” de uma obra do mesmo autor, publicada em 1978; foi lançado em 2010, por ocasião de uma exibição pública do Sudário que ocorreu naquele ano, e havia muito o que atualizar, já que o pano passou por inúmeros estudos nesse período de 32 anos entre os dois livros. Pode-se dizer que é praticamente um outro livro.

capa do livro The Shroud, de Ian Wilson

(Divulgação)

O objetivo de The Shroud é lançar luz sobre a “pré-história” do Sudário. As primeiras referências a um pano de linho que teria envolvido o corpo de Cristo após sua morte, e que foi milagrosamente estampado com sua imagem, de frente e de costas, datam do século 14, quando o cavaleiro Godofredo de Charny mandou construir uma igreja em Lirey, um vilarejo localizado dentro de seus domínios, para abrigar essa relíquia e realizar eventuais exibições do Sudário. Mas… e antes disso? Quem defende que o Sudário é uma farsa medieval tem a resposta na ponta da língua: antes disso não haveria nada, pois o pano data justamente dessa época. Quem defende sua autenticidade é que precisa dar uma explicação. É o que Wilson se propõe a fazer.

O historiador apresenta ao leitor uma outra relíquia venerada no Oriente, séculos antes de qualquer menção ao Sudário: a Imagem de Edessa, um pano no qual foi impresso milagrosamente o rosto de Cristo e que teria sido levado de Jerusalém para essa cidade (hoje Sanliurfa, na Turquia, quase na fronteira com a Síria), causando a conversão do rei local, Abgar V, ainda no século 1.º d.C. A Imagem de Edessa tem uma história tão conturbada quanto a do Sudário: precisou ser escondida quando um outro monarca, pagão, lançou uma perseguição aos cristãos, e só foi redescoberta séculos depois; passou por uma “prova de fogo” nas mãos de um governante islâmico; sobreviveu a um surto iconoclasta; foi levada de Edessa para Constantinopla no século 10.º por uma expedição militar cujo único objetivo era justamente conseguir o pano para aumentar a coleção de relíquias dos imperadores bizantinos; e, por fim, já renomeada como Mandylion (porque ficava mal continuar chamando de “Imagem de Edessa” algo que passou a ser o orgulho de Constantinopla), desapareceu durante o vergonhoso saque promovido pelos membros da Quarta Cruzada, no início do século 13.

A tese de Wilson é a de que o Sudário e a Imagem de Edessa/Mandylion são o mesmo objeto: dobrado várias vezes, o Sudário deixaria visível apenas o rosto de Jesus, e é assim que a relíquia foi levada e mantida em Edessa e, depois, em Constantinopla. Wilson ressalta que, durante o período em que o pano foi assim venerado, várias pessoas já haviam reparado que o tecido estava dobrado, sem falar de várias referências à Imagem como um sindon, ou seja, mais que uma simples “toalha de rosto”. Especialmente significativo é o fato de que logo após a redescoberta da Imagem, no século 6.º, há uma mudança radical na maneira como Jesus era representado na iconografia: deixa de ser um jovem sem barba para assumir as feições que conhecemos hoje. Mais que isso: os ícones que começam a se espalhar pelo Oriente e pela Europa, inspirados na Imagem de Edessa, apresentam características vistas no Sudário, reforçando a versão de que as duas relíquias são o mesmo objeto.

Iluminura mostrando exibição da Imagem de Edessa

Não consegui descobrir exatamente que cena essa iluminura representa, se é a entrega da Imagem ao rei Abgar, ou se é o povo de Edessa recorrendo à Imagem para repelir um cerco inimigo. De qualquer modo, repararam que tem pano extra além daquele onde está a face de Jesus? (Imagem: Reprodução)

O quebra-cabeça só não fica completo porque entre 1204 (o saque de Constantinopla, quando a Imagem de Edessa/Mandylion desaparece) e 1355 (o primeiro relato oficial de uma exibição do Sudário na França) não há sinal explícito de nenhum dos dois objetos; o próprio Godofredo de Charny, primeiro “dono registrado” do Sudário, nunca explicou como o pano chegou até ele. Aqui, Wilson lança algumas hipóteses, das quais as mais promissoras são uma espécie de “conexão templária” (sim, sei que os Templários são os personagens principais de nove entre dez teorias da conspiração ambientadas na Idade Média, mas tem havido um trabalho sério de separar a lenda da realidade, e parece que as cerimônias de iniciação na presença de um tecido milagroso com a imagem de Jesus são mais verdade que lenda) e a possibilidade de ancestrais da esposa de Godofredo terem se apossado do Sudário após o saque de Constantinopla.

A associação entre o Sudário e a Imagem de Edessa/Mandylion não é unanimidade entre historiadores. Um ano depois do livro de Wilson, Andrea Nicolotti, da Universidade de Turim, lançou From the Mandylion of Edessa to the Shroud of Turin: The metamorphosis and manipulation of a legend (a versão italiana é de 2011; a inglesa, de 2014), em que defende a tese de que se trata de dois objetos diferentes (em diversas ocasiões, o autor manifestou sua convicção de que o Sudário é uma fabricação medieval). Não li o livro de Nicolotti, mas o verbete da Wikipedia sobre a Imagem de Edessa diz que a relíquia teria ido parar na França, sim, mas na coleção do rei Luís IX, tendo sido colocada na Sainte-Chapelle de Paris e desaparecido na Revolução Francesa, embora também tenha estado em Roma, a julgar pela descrição de um jesuíta português do século 17. Obviamente, se o Sudário não é a Imagem de Edessa, retornaríamos à estaca zero sobre a procedência do pano hoje venerado em Turim.

A história da Imagem de Edessa/Mandylion e suas conexões com o Sudário, a tese central do livro, estão nos capítulos 9 a 14. Depois deles, vem a história já conhecida e documentada do Sudário, cuja posse é entregue pelos Charny aos duques de Savoia (família que se tornou a casa real italiana no século 19) e, deles, para o papa, há pouco mais de 30 anos. Esse trecho tem um detalhe interessante envolvendo um brasileiro: Carlos Chagas Filho, então presidente da Pontifícia Academia de Ciências, havia montado um protocolo para o famoso teste de carbono-14 envolvendo sete laboratórios, representantes de duas técnicas diferentes de datação. Mas Luigi Gonella, assessor científico do cardeal-arcebispo de Turim, Anastasio Ballestrero, tinha outros planos e montou um protocolo mais simples, com três laboratórios, todos usando a mesma técnica de datação. Em termos de reputação científica, Chagas era infinitamente superior a Gonella, mas este, segundo Wilson, jogou pesado e se impôs, numa demonstração de que o clero de Turim se julgava dono do Sudário, ainda que ele pertencesse ao papa. O que aconteceu depois todos sabemos.

Uma contestação sólida dos resultados do teste de carbono-14 de 1988, aliás, é apresentada na primeira parte do livro. Os capítulos iniciais resumem todas as principais descobertas científicas sobre o Sudário: as características do tecido, as manchas de sangue e sua correspondência com o que se sabe da Paixão de Cristo, o fato de não haver explicação para a formação da imagem, a presença de pólen característico da Palestina, e por aí vai. Quem já leu bastante sobre o Sudário não vai encontrar muita novidade ali, mas não custa nada relembrar.

A tese de Wilson não é simples de defender e, como afirmei, não é aceita por todos. Mas The Shroud traz elementos interessantes que permitem, sim, associar o Sudário à Imagem de Edessa/Mandylion, ainda que não de forma irrefutável ou avassaladora. Afinal, estamos lidando com séculos de história – uma história fascinante, mas cheia de lacunas.

Para ler outros posts do Tubo de Ensaio sobre o Sudário de Turim, é só clicar aqui.

Pequeno merchan

Além de editor e blogueiro na Gazeta do Povo, também sou colunista de ciência e fé na revista católica O Mensageiro de Santo Antônio desde 2010. A editora vinculada à revista lançou o livro Bíblia e Natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé, uma compilação que reúne boa parte das colunas escritas por mim e por meus colegas Alexandre Zabot, Daniel Marques e Luan Galani ao longo de seis anos. O livro está disponível na loja on-line do Mensageiro, e provavelmente haverá eventos de lançamento que anunciarei aqui no blog, assim que definirmos datas e locais.

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