• Carregando...

Domingo passado, o Discovery Channel norte-americano estreou uma série chamada Curiosity (não sei se houve estreia simultânea no Brasil, no site brasileiro do canal não achei nada), que já entrou chutando a porta. No primeiro episódio, Stephen Hawking explica por que, na sua opinião, Deus não existe. Confiram aí (atualizado em 19 de agosto: além da íntegra do episódio, coloquei também alguns trechos disponíveis no site do Discovery):

Hawking começa dizendo que é difícil conceber um mistério maior ou mais importante que a questão da existência de um criador, e passa a mostrar como a ciência foi lentamente explicando os fenômenos naturais e derrubando o nosso já conhecido “Deus das lacunas” (a expressão não aparece em nenhum momento do episódio, mas é dele que estamos falando, sem dúvida). A história do deus viking que come o Sol durante os eclipses é o exemplo usado no episódio. Até aí tudo muito bom: afinal, o cardeal Schönborn já disse que a ciência ajuda a religião ao purificá-la das superstições.

A gradual descoberta das leis da natureza, foi um dos processos mais importantes da história, diz Hawking, e eu estou plenamente de acordo. Mas daí em diante começa o que eu não hesito em chamar de picaretagem. Qual o papel de Deus, então?, o cientista pergunta. E a partir daí vemos um desfile de imprecisões, na melhor das hipóteses: o programa alega que o Papa João XXI (1276-1277) “se sentiu tão ameaçado pela ideia de leis da natureza que as classificou como heréticas” em 1277. As palavras são essas mesmas. Meu chute é que houve uma confusão (deliberada ou não?) com as Condenações de 1277; a investigação até foi solicitada pelo Papa, mas 1. não houve nada nem parecido com o que o programa alega (e o fato de João XXI ser médico é ignorado pelos responsáveis) e 2. segundo estudiosos do evento, as Condenações teriam até ajudado a impulsionar a ciência medieval. De fato, é altamente inverossímil que as “leis da natureza” fossem condenadas como heréticas, já que a noção de um mundo ordenado e cujas leis eram acessíveis ao intelecto humano era profundamente cristã e podia ser encontrada na Bíblia.

Claro que não podia faltar a menção a Galileu, que, segundo o programa, esteve a um fio da fogueira, outra mentira (como sabemos, a Inquisição não encostou um dedo em Galileu e o tratou melhor que qualquer outro acusado da época; o fato de o processo inquisitorial ter um caráter mais escriturístico que científico também é ignorado). E, em seguida, Hawking recorda uma audiência que teve com João Paulo II em 1985, após um congresso de Cosmologia. Segundo Hawking, o Papa “nos disse que era bom estudar o funcionamento do universo, mas não devíamos fazer perguntas sobre sua origem, porque ela era o trabalho de Deus”. E, depois, se dá um tapinha retórico nas costas, do tipo “ainda bem que eu não segui o conselho do Papa”. A pergunta é: que conselho? O discurso se João Paulo II está aqui; só desejo boa sorte a qualquer um que tente encontrar no texto aquilo que Hawking botou na boca do Papa.

Depois dessa defesa da tese do conflito entre ciência e fé, Hawking passa a explicar por que não é preciso haver um Deus para que o universo exista. Dá uma pequena aulinha sobre os elementos necessários para haver o universo (matéria, massa e espaço), lembra o Big Bang (proposto em primeiro lugar por um padre, mas acho que isso não interessa a Hawking), explica os conceitos de energia positiva e negativa e que a Mecânica Quântica permite que coisas “apareçam do nada”. Enfim, vejam o vídeo que ele explica bem melhor que esse resumo que acabei de fazer. A conclusão é de que Deus não é necessário para o surgimento do universo; bastam as leis da natureza.

Aí voltamos àquele ponto que abordamos assim que Hawking lançou The grand design: a Física de Hawking é ótima, mas a Filosofia… ora, as leis da natureza são; ainda que não haja matéria, que não haja energia, que não haja espaço, não se trata do “nada”, pois ainda há algo (as leis). O programa até se questiona de onde vieram as leis, mas acaba desviando do assunto para acrescentar outro argumento contra a existência de Deus: usando o exemplo dos buracos negros, dentro dos quais o tempo não existe, Hawking diz que “você não pode chegar a um tempo antes do Big Bang porque não existe ‘antes’ do Big Bang”. Perfeito, é isso mesmo. Mas logo depois o caldo entorna: “Finalmente achamos algo que não tem uma causa, porque não havia o tempo no qual haver uma causa. Para mim, isso significa que não há possibilidade de um criador, porque não havia um tempo no qual o criador podia existir.”. E aí vem o arremate: “Como o tempo começou no Big Bang, esse é um evento que não foi causado ou criado por ninguém ou nada. Assim a ciência nos deu a resposta que procurávamos após 3 mil anos de busca”, conclui. Mas a conclusão só faz sentido se você pressupor que o criador/causa esteja sujeito ao tempo, ou dentro do tempo (use a expressão que preferir). Acontece que Deus está fora do tempo. E essa formulação é tão antiga que fiquei genuinamente surpreso que Hawking usasse contra a existência de Deus um argumento que ignora completamente essa proposição.

Logo após a exibição do episódio, houve um debate promovido pelo canal. Esse eu deixo para comentar na semana que vem.

——

A votação para a edição 2011 do Prêmio Top Blog vai até 11 de outubro. Ano passado, o Tubo de Ensaio, concorrendo na categoria “religião/blogs profissionais”, foi o vencedor pelo voto popular. Vamos tentar o bicampeonato e buscar melhorar a posição no júri acadêmico, em que o Tubo terminou em terceiro lugar na edição 2010. Para votar, clique aqui, ou no selo ao lado. À medida que outros blogs da Gazeta do Povo forem se inscrevendo no prêmio, vocês saberão aqui como votar neles também.

——

Não se esqueça de seguir o Tubo de Ensaio no Twitter!

0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]