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A verdadeira mensagem do Sudário de Turim

O químico Enrico Simonato, secretário do Centro Internacional de Sindonologia.
Para Enrico Simonato, ainda estamos montando o quebra-cabeças do Sudário, especialmente em relação à história do objeto. (Foto: Arquivo pessoal)

Pesquisar o Sudário de Turim do ponto de vista científico é importante, mas não se pode perder de vista a mensagem desse objeto tão particular e que desperta tantas paixões. O químico Enrico Simonato, secretário do Centro Internacional de Sindonologia, em Turim, e codiretor-adjunto do Museu do Sudário, na mesma cidade, vem a Curitiba para a abertura teológico-científica da exposição “Quem é o Homem do Sudário”, na noite de amanhã. Ele conversou com o Tubo de Ensaio por telefone e e-mail, explicou por que mesmo os defensores do Sudário não podem se deixar obcecar pela questão da autenticidade, contestou algumas das tentativas de provar que o pano é uma falsificação medieval e tratou da possibilidade de se fazer novos testes no tecido.

Quais são os elementos que apontam mais fortemente para a autenticidade do Sudário?

Eu teria muito cuidado com essa palavra, “autenticidade”, porque ela tem significados diferentes. O que sabemos de certo é que o Sudário é uma peça antiga, feita de linho, que envolveu o corpo de um homem que foi flagelado e crucificado, ferido no lado com uma lança e na cabeça com vários pequenos instrumentos pontiagudos. Isso é científico, um tipo de “autenticidade”. Podemos avançar e perguntar quem era esse homem. Aí entram a história, a arqueologia, que nos dão uma enorme, quase irrefutável possibilidade de que se trate daquele homem historicamente conhecido por Jesus de Nazaré. Considerando tudo que sabemos, a possibilidade de o Homem do Sudário ser outra pessoa é ínfima. Até aí estamos em terreno científico.

Mas uma coisa que a ciência não pode fazer é atestar que o Sudário é evidência da ressurreição de Cristo, até porque a ressurreição é um evento que não segue as leis da natureza. Você não pode repeti-la, e a repetição é parte essencial do método científico. Essa seria uma outra acepção de “autenticidade”. Podemos aceitá-la usando as regras da religião? Podemos. Mas não pelas regras da ciência. Ambas são aplicáveis a aspectos diferentes do Sudário, o que não podemos é misturá-las. Do ponto de vista científico, sabemos, por exemplo, que a imagem não é uma pintura e que há manchas de sangue humano tipo AB. Mas não sabemos a idade do pano, nem a maneira como a imagem foi formada.

De qualquer modo, vejo que existe hoje uma obsessão pela autenticidade, que corre o risco de desviar a atenção da mensagem do Sudário. Ele é, acima de tudo, uma imagem referente a algo específico que só ocorreu uma vez na história. Quando se expõe o Sudário, as pessoas que o veem não ficam ali pensando nos aspectos científicos da imagem, se é tridimensional, se funciona melhor no negativo, se a trama do linho é em espinha de peixe; elas veem a mensagem sobre o homem cuja figura está ali. Vamos pesquisar o Sudário cientificamente? Vamos, mas não percamos de vista que o mais importante é a mensagem.

Mas não faltam tentativas de provar que o Sudário é falso…

Claro. O curioso disso é que, se formos jogar o jogo do “falso ou verdadeiro”, quem alega que o Sudário é falso está em uma posição bem mais complicada. Se o Sudário for falso, nem por isso um cristão vai mudar de religião. Pensará que é um belo ícone, que sua história daria um bom filme, mas isso não vai destruir sua fé. Agora, para um ateu ou agnóstico, se o Sudário se mostrar verdadeiro, seu mundo desaba. Ele será forçado a rever tudo em que acreditava.

Fato é que as polêmicas existem desde o século 14, quando o bispo Pierre d’Arcis escreveu a famosa carta alegando que o Sudário era uma pintura e que um seu antecessor teria até mesmo conhecido o autor. Mais recentemente, tivemos a alegação de Walter McCrone sobre o uso de pigmentos conhecidos na era medieval, mas os trabalhos de John Heller e Alan Adler, além do exame do Sudário sob ultravioleta e fluorescência, mostraram que a quantidade de pigmento encontrada era inexpressiva e insuficiente para formar a imagem.

Temos também as tentativas de criar réplicas do Sudário. Mesmo as que a olho nu parecem bastante fiéis se mostram falhas no exame microscópico. As de Luigi Garlaschelli, por exemplo, afetam o tecido de forma muito mais profunda que a imagem do Sudário real, que é bem superficial. Quem chegou mais perto de reproduzir a superficialidade da imagem foi Paolo Di Lazzaro. Ele não estava tentando provar que o Sudário é falso, só queria entender como se formou a imagem. Ele usou um pedaço pequeno de pano submetido a laser ultravioleta e concluiu que, para se formar uma imagem com o tamanho do Sudário, não haveria ultravioleta suficiente nas fontes conhecidas. Nem preciso dizer que é algo que não está nem à nossa disposição, quanto mais de um falsário medieval.

E, obviamente, há o famoso teste de carbono-14, que deu como resultado para o “ano de fabricação” do Sudário um intervalo entre 1260 e 1390.

Na sua opinião, o que houve naquele teste? Fraude, erro não intencional, contaminação da amostra?

A acusação de fraude é muito grave e me parece fantasiosa. Não há provas de que algo assim tenha ocorrido. Eram três laboratórios renomados, com pesquisadores que não arriscariam sua reputação dessa forma.

Já a possibilidade de contaminação é muito grande. Qualquer acréscimo de carbono à amostra, por causas naturais ou artificiais, já modifica o resultado, e isso é muito fácil de ocorrer com tecidos. Tanto que uma das empresas mais confiáveis em datação por carbono-14, a Beta Analytic, não faz datação de tecidos a não ser como parte de uma pesquisa multidisciplinar e tomando uma série de precauções. Agora, veja: se eles têm essa atitude com qualquer tecido, imagine no caso do Sudário, que foi manipulado várias vezes durante suas exibições públicas, passou por incêndios e foi molhado (a área usada para a amostragem do carbono-14 tinha água usada para apagar o incêndio de 1532).

E o Sudário não é o único caso de divergência entre a datação por carbono-14 e as evidências apresentadas por outras pesquisas. Isso já ocorreu com outros objetos. O carbono-14 é um bom método, mas que tem seus limites.

Coletiva para o anúncio dos resultados do teste de carbono-14 no Sudário, em 1988

Coletiva para o anúncio dos resultados do teste de carbono-14 no Sudário, em 1988: resultados muito contestados. (Imagem: Reprodução)

Deveria haver uma nova tentativa de datação do Sudário?

Não, mas não digo isso porque sou avesso à análise científica do Sudário, e sim porque mesmo hoje a datação por carbono-14 ainda não é confiável o suficiente para avaliar tecidos. Basta ver o que acabamos de dizer: mesmo empresas renomadas se recusam a fazer esses testes e mostram que o risco de resultados errôneos é grande.

Há aspectos do Sudário que não foram analisados em testes anteriores e que valeria a pena pesquisar com a tecnologia atual?

Algo que não foi estudado ainda é a concentração de lignina e vanilina no pano, e que poderia dar uma pista sobre a idade do Sudário. Mas esse indicador também é sujeito a mudanças devido a contaminação; a lignina é afetada pelo calor, e temos de lembrar do incêndio de Chambery, em 1532. Assim, não creio que um eventual teste seria tão mais confiável que a datação por carbono-14. Além disso, cada novo exame afeta o Sudário do ponto de vista físico-químico, então há as questões ligadas aos procedimentos e ao cuidado que se deve ter para preservar o pano.

Qual é o status atual da discussão sobre a história do Sudário anterior ao século 14? Há quem defenda, como Ian Wilson, que o Sudário e a Imagem de Edessa, ou Mandylion, são o mesmo objeto; outros, como Andrea Nicolotti, negam essa associação.

A maioria dos historiadores está em uma posição intermediária entre essas duas: não é possível afirmar com certeza, mas há indícios. Eu digo que a história do Sudário é um enorme quebra-cabeças: de sua aparição na França em diante, nós já montamos tudo. O problema é o que vem antes. Ali nós ainda estamos separando as peças pela cor, juntando os marrons, os verdes, os azuis. Não estamos totalmente no escuro porque temos as peças, mas não conseguimos encaixá-las ainda. Existem algumas pistas, como a mudança radical na iconografia a partir da descoberta da Imagem de Edessa: Jesus passa a ser representado com traços que são semelhantes aos da imagem do Sudário, barba e tudo o mais. Não é evidência definitiva, pelo menos não de um ponto de vista científico, mas é um indicador.

Se o Sudário e o Mandylion não forem o mesmo objeto, voltaríamos à estaca zero sobre esse período da história do Sudário…

Sem dúvida, mas isso é realmente um problema tão grande? O fato de não haver registro histórico do Sudário nesse intervalo de 13, 14 séculos não significa que o Sudário não existisse. Por acaso, antes de 1922 alguém duvidava da existência do faraó Tutancâmon só porque sua tumba ainda não tinha sido encontrada? Se a hipótese do Mandylion não se confirmar, os historiadores e arqueólogos só terão um desafio a mais.

Atenção! A palestra de Enrico Simonato é nesta sexta-feira!

O evento ocorre no Tuca, nesta sexta-feira, dia 31, às 19h30. É preciso fazer inscrição.

Pequeno merchan

Além de editor e blogueiro na Gazeta do Povo, também sou colunista de ciência e fé na revista católica O Mensageiro de Santo Antônio desde 2010. A editora vinculada à revista lançou o livro Bíblia e Natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé, uma compilação que reúne boa parte das colunas escritas por mim e por meus colegas Alexandre Zabot, Daniel Marques e Luan Galani ao longo de seis anos. O livro está disponível na loja on-line do Mensageiro. Já tivemos um evento de lançamento em Curitiba; não estão descartados eventos em outras cidades. Se isso ocorrer, anunciarei aqui no blog, assim que definirmos datas e locais.