Seu app Gazeta do Povo está desatualizado.

ATUALIZAR

Enkontra.com
PUBLICIDADE

Literatura

A eternidade dos 100 anos de Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes marcou fundo a cultura e – mais do que isso – a alma brasileira. As homenagens no centenário de nascimento dão uma dimensão da sua grandeza. E o culto de sua memória só cresceu nos 33 anos desde sua partida

  • Roberto Muggiati, especial para a Gazeta do Povo
 |
 
0 0 COMENTE! [0]
TOPO

A eternidade dos 100 anos de Vinicius de Moraes

Um de nossos maiores poetas, Carlos Drummond de Andrade, afirmou: “Eu queria ter sido Vinícius de Moraes. Foi o único de nós que teve vida de poeta, que ousou viver sob o signo da paixão.” De certo modo, todos nós desejamos um dia ser Vinícius de Moraes, pela riqueza da sua vida, variedade da sua experiência e excelência do seu canto.

Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes – aos nove anos vai com a irmã Lygia a um cartório no centro do Rio e muda o nome para Vinicius de Moraes – nasceu (19/10/1913) e morreu (9/7/1980) no bairro da Gávea. O círculo que se fechou no Rio abrangeu o mundo: Europa, França e Bahia – Estados Unidos, Argentina e Uruguai. O avô paterno era latinista e poeta, a avó fazia versos. O pai, funcionário público, arranhava um violino e poetava; a mãe tocava piano. A família ainda era cheia de boêmios e seresteiros. Vinicius começou a versejar cedo, aprendeu violão e formou no colégio um conjunto com três colegas, os irmãos Tapajós. Aos 25 anos, ganhou uma bolsa para estudar língua e literatura inglesa em Oxford. Começa aí sua extensa carreira amorosa. Em Oxford, casa por procuração com Beatriz Azevedo de Melo, que ficaria conhecida como Tati de Moraes. Em 1939 estoura a Segunda Guerra e ele volta ao Brasil, onde nascem os primeiros filhos: Susana (1940) e Pedro (1942). Poema enjoadinho: “Filhos... Filhos?/Melhor não tê-los!/Mas se não os temos/Como sabê-lo?” Para Tati compõe em 1941 o “Soneto de Fidelidade”: “Eu possa me dizer do amor (que tive):/Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure.” O casamento com Tati não é eterno, mas dura quase uma eternidade, para os padrões do poeta: 11 anos.

Em cerimônia secreta numa igreja de Petrópolis, Vinicius celebra um brevíssimo segundo “casamento” com Regina Pederneiras, arquivista do Itamaraty. Regina leva de lembrança o poema “Balada das Arquivistas”. Vinicius entrou na carreira diplomática aos 30 anos. Três anos depois, como vice-cônsul em Los Angeles, conhece a nata do cinema e do jazz, sua paixão.

Em 1951, numa boate de Copacabana, o cupido é Rubem Braga: “Vinicius de Moraes, apresento-lhe Lila Bôscoli. Lila Bôscoli, apresento-lhe Vinicius de Moraes. E seja o que Deus quiser”. Deus quis uma paixão fulminante. O dobro da idade de Lila, Vinicius tem duas filhas com ela, Georgiana (1953) e Luciana (1956), e dedica à mulher o “Poema dos Olhos da Amada”. Apesar desse imenso amor, Vinicius se apaixona em Paris pela manequim de Dior Mimi de Ouro Preto. Rechaçado, tranca-se na cozinha, veda todas as frestas e abre o gás. Por sorte, a mãe de Lila chega mais cedo em casa e salva o poeta da tentativa gauche de suicídio.

Em 1957, Vinicius casa com Lúcia Proença, sobrinha de seu mentor, o escritor Octávio de Faria. Já perderam as contas? É a quarta mulher. Lúcia sai com a crônica “Para Viver um Grande Amor”.

O casamento com Nelita de Abreu Rocha tem lances rocambolescos. Ela – 20 anos, 30 mais moça que o Poeta – tem um noivo que ameaça matá-la se o deixar. Carlinhos Lyra propõe uma fuga para Paris, onde Vinicius foi designado para um posto consular. Acossados pelo ex-noivo, exímio atirador, Nelita e Vinicius partem para o Aeroporto do Galeão, com Tom Jobim ao volante, Fernando Sabino e Otto Lara Resende como “seguranças.” Nelita comunica por carta o “casamento” aos pais, que num anúncio de jornal tornam público o enlace da filha com o “poeta e diplomata Vinicius de Moraes”. Uma amiga comenta com Nelita: “O pior que pode acontecer é você ganhar meia dúzia de poemas e ficar famosa”. Vinicius dedica a Lenita, em 1966, “Para uma Menina com uma Flor”. Ao cabo de cinco anos, a menina vê mais garrafas do que flores no convívio com o poeta e vai embora.

Correm os Anos de Chumbo, Vinicius foi demitido da carreira diplomática e, na intimidade do lar, vive toda a ira dos “Anos de Estanho” ou da Guerra dos Castiçais. Injuriada por uma infidelidade do poeta, sua sexta mulher, a jornalista Cristina Gurjão, grávida de Maria (1970), quinta e última dos filhos do poeta, ataca Vinicius com dois castiçais de estanho.

O pivô da crise, a baiana Gesse Gessy, filha de santo, será a sétima mulher de Vinicius. Gesse leva o marido ao terreiro da Mãe Menininha do Gantois, em Salvador. Menininha livra Vinicius do medo de voar, mas cobra obrigações: ele só veste roupas brancas, cobre-se de colares de contas e conchas, deixa os cabelos crescerem até os ombros e cumpre uma série de rituais toda vez que entra num avião. Os amigos abominam Gesse, o próprio Tomzinho se afasta. Segundo a jornalista argentina Liana Wenner, “por Gesse, Vinicius foi astutamente levado a um coquetel vulgar, confuso e superficial de hippismo, candomblé, amor livre e quantos ‘ismos’ dernier cri se cruzassem”. Fim de caso. Vinícius saía sempre dos casamentos com uma escova de dente e seu retrato pintado por Portinari em 1938, quando o poeta tinha 25 anos. Para recuperar a tela teve de entrar na Justiça contra Gesse.

Um dia, uma jovem fã procura Vinicius para mostrar alguns poemas. A oitava mulher de Vinicius é a argentina Marta Rodriguez Santamaría, a Martita. O abismo etário sobe para 38 anos: ele 61, ela 23 – 12 anos mais moça que Susana, a primeira filha do poeta. Apaixonado, Vinicius apresenta-lhe os grandes escritores, artistas e músicos, vivos e mortos. Dedica-lhe um poema bem-humorado: “A mulher de gêmeos/Não sabe o que diz/Mas tirante isso/ Faz o homem feliz”. Casam-se em 1976, mas será “uma relação feita de despedidas e reencontros.” (Liana Wenner)

Nas turnês europeias, Vinicius é assessorado por Gilda Matoso. Apesar de 40 anos mais moça, Gilda coloca o poeta no prumo e lhe traz uma nova maturidade. Instalam-se numa casa na Gávea onde Vinicius intensifica sua parceria com Toquinho e as prolongadas sessões à banheira, seu verdadeiro escritório. E é na água da banheira (“uma volta ao útero materno”) que vive seus últimos momentos. Vinicius é encontrado inconsciente pela empregada na manhã de 9 de julho de 1980. Tentam reanimá-lo em vão e ele morre nos braços da nona e última companheira, Gilda Matoso, e do último parceiro, Toquinho.

“O poeta só é grande se for triste”

O mundo literário sempre desconfiou dos poetas de êxito popular. Vinicius foi crucificado muito tempo por esse preconceito. Até amigos como Rubem Braga e João Cabral tentaram resgatá-lo do que consideravam um “desvio” no seu talento. Em 1977, em entrevista à mulher, Martita, para um livro que ficou inédito, ele lamentava não ter composto uma obra-prima como o Bâteau Ivre de Rimbaud, os Cantos de Ezra Pound ou A Terra Desolada, de T.S. Eliot. Na verdade, Vinicius publicado em livros já basta para consagrá-lo como um dos maiores poetas da língua. Mas a sua enorme inquietação criativa o levou a se aventurar pelo território novo e desconhecido da música popular.

Tudo começou num fim de tarde de abril de 1956, no Bar Villarino, no centro do Rio. Vinicius acabara de escrever a peça Orfeu da Conceição, transplantando o mito grego para o morro carioca, e procurava alguém para compor as músicas do espetáculo. Convidou Vadico, ex-parceiro de Noel Rosa, que, recém-infartado, declinou. Haroldo Barbosa e Lúcio Rangel sugeriram então Tom Jobim. Vinicius o conhecera três anos antes, mas mantinham uma relação apenas cordial. Vinicius: “Você toparia musicar minha peça?” E Jobim: “Tem um dinheirinho nisso?” Lúcio Rangel repreende Tom: “Como ousa falar em dinheiro com o poeta numa hora dessas?” O fato é que tinha dinheiro naquilo – e muito. Depois de comporem praticamente todas as canções da trilha de Orfeu da Conceição, Vinicius e Jobim iniciaram uma das mais vitoriosas parcerias da MPB, assinando os maiores clássicos da bossa nova.

Começavam àquela altura os casamentos paralelos de Vinicius com seus parceiros musicais. Tom Jobim só não lhe bastava. Em 1961 entra em cena Carlos Lyra. Vinicius com ele compõe canções como “Você e Eu” (aquela do “eu não vou ir”), “Minha Namorada”, “Coisa Mais Linda”, algumas delas incluídas no musical Pobre Menina Rica, baseado em peça do poeta. Por ser exclusivamente letrista, Vinicius se vê excluído do boom da bossa nova nos Estados Unidos, a partir do concerto no Carnegie Hall, em novembro de 1962, e do álbum Getz/Gilberto, gravado em 1963. A conquista do mercado internacional exigia letras em inglês, daí “The Girl From Ipanema” (ou “The Boy”, quando cantado por mulheres), “No More Blues” (“Chega de Saudade”), “This Happy Madness” (“Estrada Branca”) e “How Insensitive” (“Insensatez”). O Poetinha passa então a investir mais na sua voz e aparece com destaque no LP Vinicius & Odete Lara, em 1963. É a estreia em grande estilo da parceria com Baden Powell, com clássicos como “Só Por Amor”, “O Astronauta Berimbau”, “Samba da Bênção” e “Samba em Prelúdio”, do qual Vinicius disse a Baden: “Camaradinha, acho que plagiamos Chopin.” Vinicius participa na maioria das faixas como um belo “cantor sem voz”; aliás, se lança nessa categoria dois anos antes de Tom Jobim. Com Baden, Vinicius abre seu repertório para “baianidades”: candomblé, berimbau, capoeira e samba de roda.

Ao final da década, a ditadura detona o diplomata Vinicius. Lotando teatros no Brasil, Roma, Paris, Lisboa e Buenos Aires, não consegue mais conciliar a música com a carrière. Na onda de demissões que se segue ao AI-5, Vinicius é sumariamente mandado para a rua. Na fala vulgar do general João Baptista Figueiredo, então chefe do SNI: “Nem pestanejamos. Mandamos brasa”.

O poeta indignou-se com a arbitrariedade, mas manteve o humor. Corre a anedota de que a degola atingira homossexuais, corruptos e bêbados e Vinicius, ao voltar repatriado, gritou do alto da escada do avião para a imprensa: “Ei, rapaziada, eu sou alcoólatra!”

Há todo um folclore em torno da sua complexa relação com a bebida. O uisquinho, diminutivo no chamamento afetuoso, é um problema enorme. Ele define o uísque como “o cachorro engarrafado,” o melhor amigo do homem. É sempre visto com um copo na mão, um litro na mesa, até nos shows. Adora o apelido “vate 69”, criado a partir de uma marca de scotch, o Vat 69. (“Vate”, vale explicar às novas gerações subvocabuladas, significa “poeta, versejador, e também profeta, vaticinador, vidente.” Já 69... deixa pra lá). Ou seja, “sexo, bebida e bossa nova.”

Apesar da dependência alcoólica, Vinicius cresce como compositor, cantor e showman. Inicia uma nova parceria, com o violonista Toquinho. Já não é mais a bossa típica, mas um novo estilo de canção solar que celebra a vida em canções como “Tarde em Itapoã”, “Na Tonga da Mironga do Kabuletê” e “Como Dizia o Poeta” (“Ai de quem não rasga o coração/ Esse não vai ter perdão.”) Com Toquinho, Tom Jobim e Miúcha, ele faz um show memorável no Canecão (Rio) que fica um ano em cartaz. Uma temporada com Toquinho e Maria Creuza na boate La Fusa de Mar del Plata é a ponta de lança que abre o mercado portenho. Numa destas turnês, em Buenos Aires, 1976, desaparece o pianista Tenório Jr., assassinado nos porões da ditadura militar argentina. Em meados da década, Vinicius e Toquinho gravam dois álbuns na Itália, um deles com a cantora Ornella Vanoni. Em 1980, sai o álbum Arca de Noé, com vários intérpretes cantando composições inspiradas no livro infantil do poeta.

Como poeta pop, Vinicius cristalizou o sentimento daquela época conturbada que se estendeu do final dos anos 1950 a meados dos 1970 – um tempo em que o indivíduo ainda se destacava do coletivo, com uma mistura agridoce de pós-existencialismo e neo-romantismo que ele, como ninguém, soube traduzir em versos. A parceria de 1958 com Tom, “Eu Não Existe sem Você” – feita para a trilha do filme “Pista de Grama” – é uma espécie de manifesto ideológico-sentimental do Poeta: “Que todo grande amor/ Só é bem grande se for triste. Assim como viver/ Sem ter amor não é viver. Assim como o poeta/ Só é grande se sofrer”.

O poeta, que sabia mais de si do que qualquer outro, disse certa vez: “Sou um labirinto em busca de uma saída”. Vinicius de Moraes passou a vida tentando sair de labirintos. Essa sua luta, de dimensão mitológica, engrandeceu a sua eterna busca da beleza e do amor. Como ele mesmo diz, em “Tomara”: “E a coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais.”

o que você achou?

deixe sua opinião

PUBLICIDADE

mais lidas de Caderno G

PUBLICIDADE