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Carola escreve sobre a ausência que seremos

Em trama fragmentada, chilena radicada no Brasil aborda relações amorosas interrompidas, política e a própria literatura

“Quando o amor acaba resta apenas a ficção”, sentencia Carola |
“Quando o amor acaba resta apenas a ficção”, sentencia Carola
 
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Carola escreve sobre a ausência que seremos

Ninguém sai ileso de uma ausência repentina. Se a morte é o destino irremediável, desaparecer em plena vida é uma espécie de tortura para quem fica, lembra e ainda ama. O Inventário das Coisas Ausentes, novo romance de Carola Saavedra trata, sobretudo, da distância e de desencontros. E do tempo, incontornável.

É verdade que as relações amorosas e suas consequências sempre foram assunto para a escritora chilena radicada no Brasil. Toda Terça (2007) e os premiados Flores Azuis (2008) e Paisagem com Dromedário (2010), traziam narradoras à beira da angústia, que de certa forma “se libertavam” ao escreverem cartas e gravar depoimentos. A materialização dos sentimentos, enfim, é parte importante da prosa de Carola. No novo romance, matematicamente fragmentado, é a sua própria escrita o alicerce para a tentativa de cura dos personagens, que agora se veem também em dramas políticos e familiares.

Na primeira parte, “Caderno de anotações”, conhecemos Nina. Ela tem 23 anos quando o narrador escritor a conhece na faculdade. Os dois se envolvem, aparentemente se amam, mas ela desaparece. Não há notícias, a não ser os 17 diários deixados pela moça, a partir dos quais o narrador – um jovem aspirante a escritor – tenta recriar a mulher amada. Mas não há como dedicar-se totalmente a outra pessoa quando a sua própria história não é bem resolvida.

Nas conversas que teve com Nina, o narrador evita falar do pai, um homem – ficamos sabendo – ateu, prático e de certa forma libertário, muito diferente de seu avô, religioso, conservador e pragmático. Em um emaranhado de memórias, digressões e saltos temporais, os personagens transitam entre diferentes países e referências culturais. Inglaterra, Itália, Brasil, Argentina e Dinamarca são os lugares onde tanto o amor (em sua forma “genealógica” e histórica) quanto o esquecimento (ditaduras, perseguições, sumiços repentinos) se desenrolam.

Reencontros

A segunda parte do livro chama-se “Ficção”. Poderia ser o resultado das anotações que acabamos de ler. Mas faz mais sentido se pensarmos como invencionice mesmo: a busca do personagem pela própria identidade, e a resolução de seus problemas passados.

É neste momento que o narrador reencontra Nina. A conversa é truncada, o assunto rareia. É neste momento – após 20 anos – que o narrador encontra seu pai, no fim da vida. “Ele sabe que vai morrer, o corpo magro, encolhido, a doença que se alastra, o envolve.” Carola, numa jogada de mestre, coloca seu narrador em meio à sua própria ficção. Ele precisa decidir, então, o que é verdade e mentira, erro e acerto.

Mais do que falar sobre amor e o que vem a reboque, Carola trata de intermitências e, no limite, do próprio fazer literário. Porque escrever é escolher, e também relembrar. GGGG

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