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Carnaval, tensão e sacanagem na madrugada

  • Luiz Claudio Oliveira - luizs@gazetadopovo.com.br
 
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Curitiba tinha o baile da Bem Bolada, título disputado por meninas que representavam boates da cidade. Pelo menos eu acreditava que o título fosse realmente disputado pelas garotas até que se deu o que passo a contar.

O chefe de redação do jornal em que trabalhava na época me escalou para ser jurado do concurso, na Sociedade Beneficente dos Operários do Batel. Era para ser ele, mas sabe como é, sempre tem um bagrinho disposto a mostrar serviço.

Também por razões de trabalho, cheguei atrasado ao tal baile e já haviam me substituído no júri. Então, fiquei em pé, junto dos jurados, sem a obrigação de votar, com um olho nas moças e outro nos votos.

Uma das garotas se destacou. Conquistou público e jurados. Era, sem dúvida, a vencedora. Garota nota 10.

Finalizado o desfile, as notas foram recolhidas e o "baile" continuou. Nisso fui ao banheiro e na saída dou de cara com a Garota Nota 10, que me reconheceu e veio falar comigo. Disse que estava muito muito nervosa e perguntou como tinha se saído. Eu caí na asneira de falar que, pelo que tinha visto, ela seria a vencedora. Pronto, ela me abraçou, me beijou de agradecimento e começou a comemorar ali mesmo com as amigas. Deveria ter ido embora naquele momento.

No anúncio oficial, surpresa. Venceu uma garota que, segundo a nota dos jurados, deveria ter ficado em quarto ou quinto. Recebeu a faixa entre vaias e aplausos. Logo em seguida, começa um bate-boca no camarote e eu, como jornalista, vou ver o que é e chego justamente quando a Garota Nota 10 entre choros e gritos aponta para mim e diz: "o jornalista disse que eu ganhei" e sou puxado para o centro da discussão.

Repeti para os organizadores o que tinha visto e nisso a roda já tinha crescido e estávamos cercados de seguranças. O dono da boate em que trabalhavam tanto a vencedora quanto a injustiçada pegou a "reclamona" pelo braço e retirou-a dali. Alguns minutos depois, dois seguranças me pediram que os acompanhasse até a sala da presidência do clube.

Um segurança ficou do lado de dentro e outro do lado de fora. Pediram só para eu esperar. O tempo ia passando e eu sentei ao lado de um senhor com um copo de uísque na mão. Na parede em frente havia retratos de ex-presidentes do clube e então eu vi.

Na galeria, havia um retrato do meu pai quando jovem. E o último retratado era aquele senhor alcoolizado ao meu lado. Comentei com ele que meu pai havia sido presidente do clube e ele se acendeu: "você é filho do Alemão?" Era o apelido do meu pai. Contei-lhe da confusão que estava se passando. Ele disse que não estava gostando da situação e se levantou com desequilibrada determinação. "É melhor você sair agora". Pegou no meu braço, afastou os seguranças e me levou até a saída.

Na calçada, me deu um abraço, mandou um abraço para o meu pai e voltou apoiado em um dos dois seguranças. Um tanto quanto aliviado, já estava quase na esquina quando ouço uma voz feminina me chamando. Me viro e era a Garota Nota 10. Pensei, "será que no final de tudo ainda vou me dar bem?" Mas não foi por muito tempo.

A garota estava receptiva, é certo, expliquei rapidamente o que estava acontecendo e ela disse que iria embora comigo. Mas nesse instante chegou um rapaz para falar com ela, seguido por um dos mesmos seguranças. A garota começou a gritar. Disse que ele tinha prometido que ela iria vencer o concurso, que ele era isso e aquilo. O segurança ficou do meu lado. Foi então que a garota deu um tapão na cara do garoto.

O segurança interveio contendo uma mal disfarçada risadinha. Falou alguma coisa rápida com o rapaz, que saiu fora. Ficamos os três. O segurança explicou para ela – e para mim por tabela – que, para acalmar a situação, iria falar com o pai do garoto, que era aquele mesmo dono da boate. Ela ainda disse que queria ir comigo, mas o segurança, quase como um paizão, calmamente, explicou que era melhor ela voltar agora, porque a confusão já estava grande.

E assim se foi a Garota Nota 10, que depois faria sucesso na noite curitibana e conquistaria por vários anos seguintes o título de Bem Bolada, mas eu fiz questão de ficar bem longe do júri.

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