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Sobre canções pacifistas em tempos de medo

 | Ricardo Humberto
Ricardo Humberto
 
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Eu não sei se foi ali mesmo que ouvi pela primeira vez.

Parece pouco provável. Mas é assim que está na minha cabeça.

O meu irmão participando de um espetáculo de Natal que terminava com a canção “Natal branco”. E eu lembro de ter ficado comovido pra diabo com aquela melodia. Lembro de ter pensado que aquela devia ser a música de Natal mais linda do mundo.

E não fui só eu.

Anos… muitos anos mais tarde eu fui saber que “White Christmas”, na gravação original de Bing Crosby, de 1942, é provavelmente o compacto mais vendido de todos os tempos. O livro Guinness registra mais de 100 milhões de cópias.

Também é a música de natal mais regravada da história (e não vamos esquecer que no mundo de língua inglesa essa coisa de canções de Natal é muito, mas muito forte), com mais de 500 versões em dezenas de idiomas diferentes.

Eu, particularmente, sento todo ano na época do Natal pra tocar a minha versão do que ainda me parece uma música linda demais.

A melhor canção popular da maior festa cristã. Escrita por um judeu.

*

Eu às vezes me incomodo um pouco com o uso estatal da religião. Mesmo quando não se trata de teocracias, de extremismos. Não sei se gosto de crucifixos em repartições públicas.

E não sei se gosto do fato de George Washington ter acrescentado, meio que por reflexo, um “com a ajuda de Deus” no final do juramento de posse do presidente dos Estados Unidos. Uma frase que, de lá pra cá, ninguém teve coragem de retirar. E uma frase que gente como Thomas Jefferson e Benjamin Franklin não aprovaria sem ressalvas.

Em tempos de trumpismo desenfreado, ainda mais, é difícil lembrar que talvez o maior hino do patriotismo americano (fora o “Hino”, propriamente dito) seja a canção chamada “God Bless America”. Deus salve a América.

Outra que é tão conhecida que até no Brasil teve circulação. Com letra em português e tudo mais.

Mas no fundo a canção é um belo de um hino pacifista, com uma letra bem singela. Sem os chamados às armas que tendem a caracterizar os “hinos” de verdade das nações por aí.

E até hoje é usada em ocasiões cívicas e eventos esportivos lá na terra do Tio Sam.

Um hino patriótico americano, afinal. Escrito em 1918 por um judeu. Russo. Siberiano.

*

Em tempos de recusa a imigrantes…

Em tempos de medo da diferença…

Em tempos de crítica à “apropriação cultural”...

Sei lá. Acho que vale a pena pensar nesse compositor; pensar em Israel Moiseiévitch Beilin. Ou Irving Berlin, como ele preferiu se chamar profissionalmente, pra escapar a preconceitos que mesmo naquele tempo dificultavam a vida dos judeus russos em Nova Iorque.

(Ele que também foi o primeiro compositor branco a fazer sucesso com o ragtime, a música dos negros americanos que daria origem ao jazz.)

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