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José Castello

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O relógio insolente

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Ao contrário dos "livros de horas" medievais, em que a cada hora corresponde uma oração precisa (uma solução) e uma imagem síntese, As Horas do Dia/ Pequeno Dicionário Calendário, livro de prosa poética de Leda Cartum (7Letras), não pretende domesticar ou formular padrões para o tempo. O tempo – o desenrolar cruel das horas – é não apenas fluido e impreciso, mas insubmisso. Penso em uma gaiola na qual tentássemos aprisionar um pássaro invisível. Nunca saberíamos se ele continua em seu interior, ou se nos escapou. Nunca teríamos certeza de nada. Eis o tempo, que nos arrasta e serve, enfim, aos poetas como Leda. Matéria flácida, que se deixa moldar sem, no entanto, nunca chegar à forma definitiva.

O tempo, a poeta nos leva a ver, é composto de incertezas. Leda sintetiza sua perplexidade: "O tempo é água invisível que nos envolve quando não estamos mais dentro d'água". A ele continuamos presos, como a uma linha e, contudo, é uma prisão sem muralhas. "Uma hora é uma ponta do tempo", ela nos diz. "Passa desgarrada acima das cabeças, completa sua volta atada ao rumo do dia, faz um pacto firme com a hora seguinte e tem a mesma substância da anterior". Espalha-se, viva e desafiadora. Como delimitá-la, senão com a faca arbitrária dos relógios?

As Horas do Dia é, como diz a autora, um "pequeno dicionário", uma vez que se divide em verbetes, tais como "passado", "os dias longos", "acontecimentos", "instantes". A forma é, ela também, uma estratégia fracassada, já que, com o desenrolar das páginas, aumenta no leitor o sentimento do tempo como algo que, em vez de se deixar pegar, lhe escapa. Segurar o tempo com a rédea precária da linguagem: nada mais difícil.

Tudo começa na impossibilidade de dizer o que é um "instante". Tenta Leda: "Os instantes são pequenos e vibram como cordas sonoras, piscam e brilham azuis e vermelhos, coloridos fogos-fátuos vagalumes, um atrás do outro numa coreografia mal ensaiada, mínimos rápidos e pungentes". Instantes são veementes e persistentes. Perfuram a passagem do dia como espadas afiadas que, no instante depois, deixam apenas uma borra de sangue. Admite Leda: "Às vezes alguns instantes mais cabisbaixos querem caber em momentos ou até arriscam serem compridos, ao que são sempre interrompidos pela própria tentação de durar pouco e passar logo". Mesmo esses instantes mais preguiçosos nos atravessam velozes. Quase não podemos senti-los. Leda está certa: instantes vibram – e quem pode pegar, por exemplo, uma nota que se extraviou de uma sinfonia?

É belo o esforço de Leda Cartum para – mesmo sabendo, todo o tempo, que fracassará – capturar a passagem daquilo que, em vez de atravessarmos (como disse a poeta Helena Kolody), nós, sim, atravessamos. O tempo – a física moderna já nos alerta – é um espaço. Corredor que devemos pisar delicadamente, ou o chão perfura e tudo se perde. Basta observar, como nos sugere a poeta, a passagem tensa dos segundos: "No momento em que acontece, o segundo explode todo: como a abelha que pica e perde o ferrão". Impossível fixar esse momento que, só porque não está mais ali, merece o nome de segundo. (Mas se é "segundo", o que veio primeiro, o que o antecedeu?)

Tentamos domar o tempo com calendários (Leda Cartum batiza seu livro de "calendário"), fatiando-o em dias, semanas, meses, anos, séculos. No entanto, mesmo essas divisões violentas se revelam inúteis – elas só nos consolam, se chegam a tanto. Como definir, por exemplo, um domingo? Escreve Leda, com sabedoria: "O domingo se desenrola sem perspectiva, é um dia achatado". Podemos atribuir-lhe sentimentos humanos; podemos tentar fixá-lo através da geometria. Contudo, um domingo será sempre aquele dia a respeito do qual nada mais se pode dizer, a não ser que é domingo mesmo. A linguagem (a poesia) esbarra na turvação das horas. Como se elas fossem regidas por um relógio insolente e arrogante, indiferente aos desejos humanos, que em vez de esclarecer, martela sua passagem só para nos perturbar.

Resta-nos – como faz Leda – encarar o tempo como um poema. Um poema vivo. Ou (em outra direção, que leva ao mesmo lugar), dele fazer escrita poética. No verbete "Tempo da escrita de um poema", ela nos diz: "As palavras agora esplêndidas ocupam todos os dias e as coisas ao redor". É o esplendor – brilho – do poema que, enfim, se espalha por todas as frestas do tempo, produzindo em nós a ilusão de um acabamento. No verbete seguinte, "Tempo da leitura de um poema", ela esclarece um pouco mais como devemos lidar com ele. Instrui-nos: "Com a mesma delicadeza de quem conduz objetos de porcelana que podem facilmente se quebrar e com a mesma urgência do edifício alguns segundos antes de ser demolido".

Impasse do tempo: ele conecta e iguala pressa e lentidão. Nada depende dele, pobre tempo, longo deserto que devemos atravessar; tudo depende de nossa percepção. É claro, temos nossos preconceitos humanos. Por exemplo: com o "antes". No verbete a ele destinado, Leda assim o define: "Persegue tudo o que é atual como uma cobra no rastro cego da presa". O "antes" está sempre às nossas costas; gera ansiedade e temores infundados. Antecede aquilo que, como um raio, nos escapa. Anuncia a possibilidade de pegar o que nunca se pega. Está sempre fora de hora, "como os raios de sol quando desenham a sombra". Não há captura possível do instante e, no entanto, dele nunca nos livramos. Há algo sempre antes do que estamos a viver, existem sempre antecedentes que – imitando uma batalha longa e sangrenta – nunca se deixam fixar.

Em consonância com o tema que tenta (sem sucesso) reter em palavras, a beleza de As Horas do Dia parece estar, sempre, fora (antes ou depois) das páginas que lemos. Como a visita ansiada que está para chegar, mas nunca chega; ou a que já veio, e nunca mais voltou. Ou, ainda, como a eternidade, que Leda, com sabedoria, define assim: "O mundo passa a ser eterno no segundo quando nada dura e onde tudo vibra tanto que arrebente as estruturas do que antes suportava o que é insuportável". Provavelmente por isso relógio algum pode, de fato, segurar o tempo: porque ele é pura vibração.

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