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 | Ricardo Humberto/Especial para a Gazeta do Povo
| Foto: Ricardo Humberto/Especial para a Gazeta do Povo

Um avião se aproxima do Afonso Pena numa tarde de sol. Vem do velho mundo e carrega antigo flagelo da humanidade. Ornam-lhe as asas negras flâmulas esfarrapadas. Parece trazer atrás de si uma parede de nuvens de tempestade. Ratos e baratas se inquietam: aproximam-se da pista de pouso.

Dentro desse avião vinha eu.

Dentro de mim: a peste.

Na farmácia do aeroporto eu desisto. Depois de três dias com uma gripe esquisitíssima, uma febre que vai e vem, uma dor da molesta em tudo quanto é parte e mais esse curioso novo traço da gripe europeia que é o espirro com tosse simultânea, decido finalmente comprar um antigripal. Eu, que estava tinha tipo umas 30 e tantas horas sem dormir (bendita classe econômica!), ainda perguntei se tinha daqueles que têm versão “dia” e versão “noite”. O famacêutico, homem de bem, me disse com quase todas as letras que isso de versão dia é pros fracos. Que o negócio é sapecar o mais forte de uma vez.

Depois dessa, nem titubeio. Resfenol, sois rei.

Aqui sentadinho botando em ordem setecentilhões de emails e pendências desse tempo de férias (Duas semanas! Desculpa, mundo!). Uma das coisas que me atormentavam era esse convite pra escrever crônica aqui pro G. Coisa nova. Hmmm…

Será que vai dar pé?

Será que o Irinêo vai ficar com vergonha de ter me convidado?

Não sabia nem bem por onde começar. Falo de amenidades? De lições de vida?

Aí que eu resolvi falar do Resfenol. Porque se não fossem aquelas cápsulas incrivelmente feias eu estaria, certeza, esticado na cama gemebundo, choroso (o olho esquerdo me escorria sem parar; só o esquerdo), remelento, dolorido, sem nem poder mexer os olhos pra cá e pra lá sem sentir como que uma chave inglesa no nervo ocular.

Eu lembro bem.

Estava assim ainda ontem.

Mas estou aqui pensandinho nas coisas amenas, profundas, nas coisas sérias tipo a coluna pro G. Graças a uns comprimidúnculos (e eis a minha contribuição filosófica e lírica para a discussão das funções da crônica e para os rumos da infectologia contemporânea) que não curam NADA!

Aquela carga viral que me prostrou só vai ser eliminada quando o meu corpo der conta de eliminar. Sozinho.

Eu vou me curar dessa gripe, de verdade, e aí ficar imune a essa pérfida cepa de retrovírus gálicos (pra sempre) só quando o agressor e o meu sistema imunológico terminarem de fazer o que no fundo é uma dancinha darwiniana lá entre eles, que segue assim há eras e eras.

O comprimido “só” cura os sintomas. O mal original continua lá.

O axioma: Agora, me conta: pra quase totalidade das coisas, não é disso mesmo que a gente precisa? Porque, o provérbio que me desculpe, mas há, sim, males que sempre duram.

E não é a gripe.

Como diz o grande poeta Paulo Henriques Britto, há dores que, se passam, não eram de verdade.

E com essas, com as coisas mais ferradas da vida, a gente só tem é que manejar os sintomas.

E tocar em frente.

Bora tentar escrever um Resfenol semanal. Vem comigo?

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