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Entre a utopia e a transcendência

 
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Creio que o renovado interesse em torno de Paulo Freire e de seu legado se deve à conjugação de dois fatores: a recente lei que o declara Patrono da Educação Brasileira (Lei 12.612 – 2012) e o recrudescimento de uma nova onda conservadora no Brasil.

O que tem a obra de Freire de tão provocadora, diante da qual ninguém permanece indiferente? É o que procuraremos ver neste pequeno texto.

Freire nasce em Recife em 1921. Conhecerá a realidade nordestina, agravada pela da crise de 1929. O problema que mais o toca é o do analfabetismo. De um total de 25 milhões de habitantes no Nordeste, 15 milhões padecem desta chaga. As oligarquias tiram proveito da situação.

Advogado, ele abandona a profissão já na primeira causa. A urgência da questão educacional concentra toda sua energia e vitalidade. Empreende toda uma luta contra o analfabetismo, que tem em Angicos (RN) seu primeiro marco e símbolo. Não pretendia transformar analfabetos em eleitores, acusação recebida já nesse tempo. Queria transformar analfabetos em ativos sujeitos históricos, construtores de uma realidade que não lhes fosse tão opressiva.

Sua obra é sustentada numa concepção filosófica, que move toda a estrutura de sua pedagogia. A primeira delas é o processo de conscientização. A ela chega pelos pensadores do Instituto Superior de Ensinos Brasileiros (ISEB), gigantes na interpretação da realidade nacional. D. Hélder Câmara popularizará este conceito. O cristianismo, pela via da teologia da libertação, será outra de suas marcas.

Mas qual é o significado de conscientização? Freire responde: “A conscientização não está baseada sobre a consciência, de um lado, e o mundo, de outro; [...] Ao contrário, está baseada na relação consciência-mundo”.

O que vem a ser esta relação consciência-mundo? Que o mundo não é uma realidade estática e imutável, construída por agentes naturais ou sobrenaturais, mas uma construção histórica, portanto, uma construção humana. Explico: está na mão (trabalho) e na mente (pensamento), não separadas, a construção da realidade em que vivemos. E isso ocorrerá na exata medida em que deixamos de ser passivos, nos tornando, partícipes e artífices da realidade. Está aí outra herança do educador, oriunda da filosofia de Marx, especialmente de A Ideologia Alemã. Aí está a parte mais explosiva de sua obra: o ser humano constrói, ele mesmo, a realidade e não as elites e as tradicionais invocações à vontade divina.

Esta parte explosiva forma o conteúdo de sua obra e é expressa em títulos como: Educação como Prática da Liberdade, Pedagogia do Oprimido, Conscientização e Pedagogia da Esperança. A outra parte explosiva se refere ao método.

Aí se soma a maiêutica socrática, do parto das ideias por perguntas/problema, com a curiosidade da mente, ávida na investigação e compreensão. Isso se confronta com o método tradicional de transmissão de valores e de conformação à realidade, pelos métodos catequéticos e conteúdistas que, antes de qualquer curiosidade, já pregam valores, sempre eternos, imutáveis e universais e, em assim sendo, inquestionáveis. Intervenção na realidade é agitação, é subversão.

Outra herança é a da dialética, vista como contradição/superação. A realidade tem dentro de si, sua contradição. A percepção da contradição é a tomada de consciência e esta leva à ação para a superação.

Em síntese, poderíamos dizer que a pedagogia freireana faz acreditar que vivemos numa realidade construída por nós mesmos, mas, isso só será percebido se tomarmos consciência de que ela pode ser mudada, por ser o próprio homem, o agente desta construção. Creio ser desnecessário explicitar porque ele produz tantos e tão profundos ódios em todos aqueles que querem uma sociedade intransitiva, que não transita e que quer a manutenção de privilégios. Outras críticas procedem de teorias economicistas e produtivistas de educação.

Ouvi pessoalmente de Paulo Freire as seguintes palavras: “A denúncia precede o anúncio. Não existe anúncio sem denúncia. A denúncia é a percepção da realidade injusta em que vivemos e o anúncio é a profecia de um novo tempo, a ser construído pelos sujeitos que emergirão de seu modelo pedagógico”.

O anúncio, além do novo tempo, nos anuncia também a transcendência, a impermanência. Por sermos limitados e movidos pela curiosidade, trans-ascenderemos, sempre na busca do aperfeiçoamento máximo. A utopia e a transcendência sempre ocuparão o espaço do nosso horizonte.

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