Seu app Gazeta do Povo está desatualizado.

ATUALIZAR

G Ideias

Fechar
PUBLICIDADE

Literatura

Quem foi Ernest Hemingway?

Ensaísta analisa as cartas de Hemingway quando jovem para argumentar que a imagem criada pelo autor de “O Sol Também Se Levanta” – a de um homem viril, corajoso e bravo – era só uma casca. Hemingway escreveu muito sobre o desejo de se tornar um só numa relação amorosa ou numa proeza física como a tourada. O que o angustiava era ter de viver sob o peso de ser alguém

Ernest Hemingway, autor de “O Sol Também se Levanta” | Fotos: Creative Commons
Ernest Hemingway, autor de “O Sol Também se Levanta” Fotos: Creative Commons
 
0 0 COMENTE! [0]
TOPO

Ernest Hemingway escreveu a primeira carta de “The Letters of Ernest Hemingway, Volume 2: 1923-1925” quando estava com 23 anos, e a última, com 26. Nesses três anos, vivendo a maior parte do tempo em Paris, teve o primeiro filho, se desencantou com a primeira mulher e se envolveu com a segunda, largou o primeiro emprego como repórter, publicou as primeiras três antologias de contos e poemas, escreveu os dois primeiros romances, viu a primeira tourada e começou uma transformação do escritor que expressava experiências íntimas com frieza – “de forma que você pudesse mesmo viver a coisa” em um aficionado que valorizava a força e a bravura em “pessoas que, por meio de suas condutas, conseguiam gerar um sentimento verdadeiro de admiração”. Ele também passou a atrair esse tipo de admiração para si próprio. Ao fim do livro, o discípulo vanguardista de Gertrude Stein e Ezra Pound, colecionando cartas de recusa enviadas por revistinhas, estava se reinventando como Papa Hemingway, celebrado em toda parte pela valentia sem firulas.

No volume dois das cartas, de um total de 17 previstos na série “The Cambridge Edition of the Letters of Ernest Hemingway”, inclui quase 250 cartas, três vezes mais do que as escolhidas em “Selected Letters 1917-1961”, do mesmo período, editadas por Carlos Baker em 1981. As cartas ora publicadas são cheias de energia e muito envolventes, e elas dão detalhes e profundidade para os vastos registros biográficos da juventude de Hemingway. As anotações extensas dos editores explicam alusões históricas e pessoais, aborda as finanças de Hemingway em minúcias e fala mais do que a gente precisa saber sobre os muitos boxeadores e toureiros que ele admirava.

O livro é revelador não pelos detalhes biográficos, mas sim pela maneira como mostra o funcionamento da mente de Hemingway em cartas espontâneas, longas e ansiosas, escritas para amigos de infância. Há 50 anos, desde que sua amargurada irmã mais velha Marcelline relatou que a mãe deles vestia o jovem Hemingway como uma menina e que tinha tentado criar os dois como se fossem gêmeas, e desde que o romance póstumo, “O Jardim do Éden” (1986), revelou suas fantasias andrógenas, a leitura convencional de Hemingway diz que ele é marcado por uma confusão sexual e por um conflito de gênero. Acontece que essa imagem é tão crua e rasteira quanto a figura do machão que ela substituiu. As cartas deixam claro que o machão e o sonhador andrógeno eram expressões superficiais de um desejo mais profundo que delineou a vida e a obra de Hemingway, um impulso que no fim não tinha nada a ver com sexo.

*

As cartas de Hemingway estão repletas de fofoca e de arrogância que ele, com frequência, floreia para tornar mais interessantes. A certa altura, ele garante a um amigo: “Boa parte do parágrafo anterior é verdade”. Com exceção de alguns acessos de raiva contra os pais, que soam verdadeiros, quase tudo que diz respeito à vida emocional dele parece falso. Os relatos de felicidade conjugal com Hadley Richardson se tornam mais intensos à medida que ele fica mais e mais desencantado com ela.

Ele constrói um estilo diferente para cada correspondente. Com editores, ele é formal e calculista. Com Gertrude Stein, ele é elogioso e deferente: “Eu inventei tudo [“Big Two-Hearted River”, ou “Grande Rio de Dois Corações”], de forma que visualizei tudo e parte do texto saiu como devia sair, ele é bacana na parte que fala do peixe, mas escrever não é mesmo um trabalho difícil? Costumava ser fácil antes de eu conhecer você. Com certeza, eu era ruim, nossa!, eu sou ruim demais agora, mas é um tipo diferente de ruim”.

Com Ezra Pound, ele é intolerante e obsceno: “Você deve ter ouvido falar do casamento de [Lincoln] Steffens com uma intelectual judiazinha de Bloomsbury de 19 anos. Low-ebb, o ex-editor de revista judaica [ele faz um trocadilho com o nome de Harold Loeb, ex-editor de Broom, usando uma expressão traduzível como “decadente”], joga tênis comigo de vez em quando. Caga com preocupação a bunda de quem usa a coroa etc.”. [Aqui, ele escreve “uneasy shits the ass that wears the crown”, brincando com a expressão “uneasy lies the head that wears the crown”, algo como “é cheia de preocupação a cabeça de quem usa a coroa”.]

Para os venerados pais, ele alterna uma formalidade entediante com justificativas furiosas: “Não tenho tempo nem disposição para defender minha escrita[;] eu uso toda a minha energia e todos os meus pensamentos para torná-la melhor e mais verdadeira e nunca faltarão defensores para uma obra de arte que é boa de verdade, nem faltarão pessoas com ódio dela e com desejo de destruí-la. Bom, não faz diferença nenhuma. Eles não podem destruí-la e, no fim, eles têm medo e se afastam dela”.

Nenhum dos estilos diferentes que ele emprega nas cartas se parece com a voz narrativa usada na ficção. Ao mesmo tempo em que estava aperfeiçoando a tensão de “Big Two-Hearted River” e “O Sol Também Se Levanta” (1926), ele estava escrevendo para amigos de infância e para colegas do período em que foi motorista de ambulância durante a guerra num misto de gírias privadas (“yencing” é o ato sexual) e zombarias polissilábicas. Falando sobre o percalço enfrentado por alguém que se dirigia à casinha do banheiro no meio da noite, ele diz: “Não é preciso dizer que o dito-cujo [isto é, Hemingway] jamais conseguiria se engajar movimentos peristálticos a não ser em plena luz do dia com o sistema solar fazendo o que pode para aquecer a função”.

Três meses depois de submeter uma estória sobre um toureiro que envelhece, “O Invencível”, para a revista “The Dial”, ele relata: “A Dial está com minha longa estória sobre Stier Kampf [tourada] faz quase um trio de meses, arrisca me mandarem algum dindim”.

Para apreciar a inventividade de Hemingway, é melhor ler as cartas com uma biografia à mão, de preferência a minuciosa “Hemingway: The Paris Years” (1989), de Michael Reynolds. A raiva justificada de Hemingway quando ele descobre que os sublocatários dele em Paris “se revelaram vigaristas e foram embora no meio do primeiro mês embora tivessem concordado em ficar por três meses” tem um impacto diferente se você lembrar que ele fez a mesma coisa um ano antes, quando ele e a mulher foram embora de Toronto furtivamente no terceiro mês de um contrato de um ano.

O trabalho de Hemingway como escritor novato, até viajar para Paris em 1921, foi feito em um estilo cordial e loquaz que ele aprendeu com Sherwood Anderson (que seria ridicularizado por Hemingway anos depois em “As Ilhas da Corrente”): “Quando você entrar no aposento, e sua chance não será melhor que a do animal na famosa gincana do camelo-através-do-buraco-da-agulha, haverá um silêncio repentino”.

Gertrude Stein o ensinou a se livrou de tudo isso. Ele escreveu e não publicou prosas experimentais como esta: “Através dos tempos. Por que é através dos tempos? Através e contra os tempos. Contra os tempos. Não isso não”.

Stein o libertou para escrever um tipo de ficção que ela nunca escreveu, para estudar um tipo frio de distanciamento difícil de descrever em palavras, o distanciamento de Krebs em “O Lar do Soldado”, que deseja vagamente ter uma garota, mas sem “as intrigas e as políticas”: “Ele não queria nenhuma consequência. Ele não queria consequências nunca mais. Ele queria viver junto sem consequências”.

Ou o distanciamento carregado de significados de Nick Adams em “Big Two-Hearted River” quando ele recua diante de um pântano traiçoeiro: “Ele sentiu algo à medida que caminhava com dificuldade pela água que batia na altura do peito. (...) Na profundidade da água corrente, à meia-luz, pescar seria trágico. No pântano, pescar era uma aventura trágica”.

Agora Hemingway era especialista em descrever esse tipo de distanciamento num conto, mas ele estava frustrado por não conseguir fazer o mesmo num romance. Foi quando ele teve a ideia de dar a Jake Barnes, em “O Sol Também Se Levanta”, uma indiferença tão completa que não haveria nenhuma consequência psicológica com que se preocupar, causada por um ferimento durante a guerra que o deixou indiferente ao sexo. Mas F. Scott Fitzgerald percebeu algo mais profundo nesse distanciamento. Jake Barnes, disse ele, “não é como um homem impotente. Ele é como um homem numa espécie de cinto de castidade moral”.

Em 1924, época em que Hemingway estava escrevendo “Big Two-Hearted River”, o mundo muito diferente de sua carreira futura começou a se formar. Em 1923, ele ficou impressionado com as touradas em Pamplona. Agora, enquanto se preparava para retornar à fiesta, ele escreveu numa carta: “Você se lembra do que eu falei numa noite em um bar de Montallegro a respeito da necessidade de encontrar pessoas que, por meio de suas proezas físicas, causassem em você um sentimento genuíno de admiração. (...) Bom, eu encontrei isso nas touradas. Meeeu Deus, sim”.

*

As histórias do jovem Hemingway existem dentro de um código moral que exige que elas respondam apenas a elas mesmas. A questão moral que elas lançam, relacionada a suas ações, é se elas fazem jus ao seu ideal heroico e não o efeito que elas podem causar em qualquer pessoa. Elas negam as responsabilidades impostas por suas famílias e os compromissos almejados por mulheres. Em vez de relações pessoais, elas se unem como num bando que compartilha do mesmo ideal.

As cartas de Hemingway para os amigos nos Estados Unidos e na guerra são impressionantemente vívidas no compromisso que assumem com os laços fraternos. Em vários parágrafos, em vez de escrever sobre “eu” ou “você”, ele se refere aos amigos e a ele mesmo simplesmente como “um homem”. “Deixe um homem bem informado”, ele pede. Incentivando um amigo a conseguir um emprego em Paris, ele escreve: “Não é um mérito nem um trabalho difícil para um homem conseguir um bom emprego”. Outro amigo se casou depois de sofrer de “um prolongado período celibatário além do ponto que pode ser útil para um homem”.

Hemingway parece ter sido atraído para seu grupo de amigos pelos mesmos motivos que muitos jovens colegiais se sentem atraídos por fraternidades e garotas, por irmandades femininas. Sentindo-se ansioso porque sua sexualidade complexa e conflituosa não chega nem perto do modelo imaginário de franca masculinidade, e muito jovem para saber que a sexualidade de todo mundo é complexa e conflituosa, ele se uniu a outros rapazes que acalmavam sua ansiedade com um ódio compartilhado por tudo que era descaradamente diferente: “Os veados vão fazer coisas para se excitar que são proibidas para um homem. Nenhum veado passa fome nem necessidade. Muitos caras legais enfrentaram ambas as coisas. Infelizmente, um homem acaba ficando contra eles ao praticar literatura”.

Ele põe a mão no fogo por um de seus amigos: “Ele odeia judeuzinhos mais do que a gente”. Mas Jake Barnes insinua um antagonismo mais profundo em relação a qualquer um que pareça isento da complexidades que os amigos de Hemingway temem neles mesmos: “Desconfio de todas as pessoas simples e francas, sobretudo quando as histórias delas fazem sentido”.

O casamento de Hemingway não é uma ameaça para o bruderband, ele insiste, porque Hadley é como se fosse outro homem. A um amigo, ele relata: “Ele é o melhor cara que você pode levar numa viagem”; para outro: “Ela pesca não com um interesse simulado típico do sexo feminino, mas como um homem”. Ele explica que, por causa da felicidade que sente no casamento (quando na verdade ele está indo para o brejo), é possível manter as amizades: “Não existe nenhum padrão de decência para um grupo de homens se um deles vive um casamento infeliz”.

Na cultura do século 20, o código heroico serviu razoavelmente bem aos jovens até por volta dos 25 anos. Depois disso, ele se tornou gasto e desconcertante por não ter nada a dizer para eles a respeito de relações adultas e de comportamentos sociais de um adulto. O grupo de amigos se transformou em um bando de solitários que tentam reviver seu companheirismo como parceiros de copo, com o álcool dissolvendo as individualidades, ou numa competição para ver quem é mais macho. Passados alguns anos, quando Hemingway não estava bebendo com um bando de amigos, ele insistia em dizer que era não apenas mais forte e mais corajoso que você, mas também que a mulher dele era melhor a sua mulher: “A senhorita Mary [Mary Welsh, a quarta e última esposa dele] é durável. Ela também é valente, charmosa, esperta, faz bem aos olhos, é uma companhia prazerosa e uma boa esposa. Ela também é uma pescadora excelente, tem boa pontaria, é uma nadadora forte, uma ótima cozinheira, entende de vinhos, é uma jardineira excelente, uma astrônoma amadora, estudante de artes, de economia política, de suahili, francês e italiano, e consegue comandar um barco ou uma residência em espanhol”.

Mais tarde, Hemingway imaginou impassíveis homens mais velhos como o coronel Cantwell em “Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores” (1950) que, no entanto, podiam ser amantes apaixonados de mulheres mais jovens, mas nos anos 1920, ele ainda estava comprometido com a verdade infeliz das próprias emoções. Para Nick Adams, “um lugar bom” é onde “nada pode atingí-lo”. Quando Nick termina a relação com Marjorie, “não houve nenhuma cena”.

Sem nenhum bando de amigos em que se dissolver, Hemingway começa a fantasiar que ele pode fundir com uma amante. Todo mundo cita os exemplos mais óbvios. “Adeus às Armas”: “Não existo de jeito nenhum. Eu sou você”; “Nós somos um só”; “Quero que a gente se misture”. “Por Quem os Sinos Dobram”: “Eu sou você também agora. (…) Você é eu agora”; “Eu sou você e você é eu e tudo que é um também é o outro. (…) Eu nos teria como uma coisa só”. “O Jardim do Éden”: “Agora você não consegue dizer quem é quem, consegue?” (isso depois que a mulher dá um tapa no homem). Todo mundo interpreta essas frases como um cruzamento de gêneros, mas elas expressam o mesmo desejo de dissolução recorrente nas cartas de Hemingway para o seu grupo de amigos. Nelas, em um parágrafo entusiasmado depois do outro, ele se refere a cada um deles com uma única expressão: “um homem”.

O que Hemingway queria - tanto como machão como andrógeno - era uma conexão íntima duradoura que o livrasse de ser um indivíduo por si só - algo que ninguém pode ter. Virginia Woolf, numa crítica que o enfureceu, percebeu o preço que ele pagou por esse desejo. Os personagens de Hemingway, ela disse, são como pessoas que você ouve sem querer no restaurante falando rápido em gírias, “porque gíria é o idioma da manada”. Aqueles que falam gíria “parecem mais tranquilos e, no entanto, se a gente os observa com atenção, eles não estão nem um pouco tranquilos, na verdade, estão morrendo de medo de serem eles mesmos”.

Gíria é um dos elementos do estilo de Hemingway que aparece em toda sua correspondência. O vocabulário de elogios dele vai pouco além de “bacana”, “borogodó” e “tipão”, usado em quase todas as situações, ad-lib. Ele diz a um amigo que Pauline Pfeiffer, que seria sua segunda mulher, é “uma garota bacana”.

Edmund Wilson escreveu uma crítica famosa de “As Verdes Colinas da África” (1935): “Por razões que não posso tentar explicar, algo terrível parece acontecer com Hemingway assim que ele começa a escrever na primeira pessoa. Na ficção dele, os elementos conflitantes de sua natureza, as situações emocionais pelas quais é obcecado, são externalizadas e materializadas, e o resultado é uma arte severa e intensa, profundamente séria. Mas, assim que ele fala em primeira pessoa, parece perder toda capacidade de autocrítica e acaba se tornando pretensioso ou piegas”.

Jake Barnes e Frederic Henry falam apenas entre si, indiferentes aos leitores que os ouvem por acaso. Nick Adams ignora o narrador que registra seus pensamentos. Quando Hemingway tenta falar na primeira pessoa, se dirigindo propositadamente para o “você” na audiência, ele sabia que não tinha nenhuma voz pública autêntica, apenas bravata e arrogância, com as quais declarar a excelência de sua conduta física enquanto sentia medo de ser ele mesmo.

Ele era amargamente consciente do fato que a excelência física, como a de Pedro Romero em “O Sol Também Se Levanta”, seja ela real ou simulada, não tinha nada a dizer e era constrangedor quando tentava falar. James Thurber, ciente do temperamento típico de Hemingway que marcava a época, escreveu um conto, “O Melhor Homem do Mundo” (1931), sobre um herói que faz uma proeza física excelente, mas quando abre a boca para falar do próprio triunfo, se mostra desprezível.

O desejo mais profundo de Hemingway, escondido por sua máscara autoconfiante, era de se tornar um só com outra pessoa ou outra coisa, de viver sem o peso de ser alguém. Denis de Rougemont observou que amantes como Tristão e Isolda, que desejam deixar de existir para se tornar um só, acabam se descobrindo presos nos próprios corpos e só conseguem escapar da armadilha morrendo. Quando um senador americano se matou em 1924, Hemingway escreveu numa carta: “Eu continuo dizendo que qualquer pessoa que queira fazer isso, é capaz de fazer. As coisas estão melhorando e não vejo a hora de não provar minha teoria por algum tempo”. No ápice de uma tourada em “O Sol Também Se Levanta”, a espada de Romero “vai fundo e, apenas por um instante, ele e o touro eram um só”.

Edward Mendelson é professor de Humanas na Universidade de Columbia.

Tradução de Irinêo Baptista Netto

Siga a Gazeta do Povo e acompanhe mais novidades

deixe sua opinião

PUBLICIDADE

mais lidas de Caderno G

PUBLICIDADE
Acompanhe a Gazeta do Povo nas redes sociais