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Incendiando a memória da MPB

Historiador mostra como o cantor Wilson Simonal foi esquecido em nome de uma memória de resistência à ditadura militar

De acordo com Gustavo Alonso, Simonal foi vítima da construção de uma memória da resistência à ditadura militar, que vitimiza a sociedade brasileira |
De acordo com Gustavo Alonso, Simonal foi vítima da construção de uma memória da resistência à ditadura militar, que vitimiza a sociedade brasileira
 
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Incendiando a memória da MPB

Uma pérola da MPB, que ficou esquecida por décadas, começou a ser redescoberta, sobretudo nos anos 2000. O nome Wilson Simonal, que não tinha mais que algumas notas de rodapé e pequenas citações na imprensa desde o início dos anos 1970, passou a circular em listas como “50 Imortais da Música Brasileira” ou “Cem Maiores Músicos do Brasil”. Uma de suas músicas, “Não Vem Que Não Tem”, voltou a ser hit nacional quando entrou para a trilha sonora do filme Cidade de Deus e de um anúncio de multinacional. Outra, “Sá Marina”, foi resgatada por Ivete Sangalo.

O processo foi visto de perto pelo historiador Gustavo Alonso, que enxergou um pouco dos dois cenários para Simonal – um dos cantores brasileiros de maior sucesso na segunda metade da década de 1960, mas que caiu no ostracismo e carregou a fama de dedo-duro da ditadura nos anos seguintes. A escolha pelo caso do músico carioca como tema para a sua tese de mestrado em História pela Universidade Federal Fluminense surgiu justamente da ausência de referências a Simonal na bibliografia.

“Eu perguntava sobre Simonal, e as pessoas não respondiam”, disse Alonso, em entrevista por telefone à Gazeta do Povo. “Nos livros que lia, as referências eram sempre muito pontuais. O fato de ele ter sido expulso do panteão da MPB me atraiu. Não conhecia a obra dele, mas me deparei com aquilo e vi que tinha algo ali”, explica Alonso, que se lançou em uma pesquisa de seis anos que culminou em sua tese e no livro Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga: Wilson Simonal e os Limites de Uma Memória Tropical, publicado pela editora Record.

Mas o ostracismo de Simonal, durante o período em que Alonso fez a pesquisa, foi mudando rapidamente. O próprio autor se deparou com uma postura diferente das pessoas quando passou a tratar do cantor, por exemplo, após o lançamento do filme Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei (2009).

“Antes, eu ia falar do Simonal e citava Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso. E acontecia algo que me incomodava: ninguém conseguia debater Simonal”, diz Alonso. “Depois, acontecia o oposto. Eu ia falar do Simonal e as pessoas não queriam sair do assunto”, diz.

Algoz e vítima

Ao contrário da simplicidade da reabilitação, é justamente a visão crítica da institucionalização da MPB e da construção da memória da sociedade que norteiam o olhar de Alonso sobre o caso Simonal. “A reabilitação dele foi de diabo a santo muito rapidamente, sem se compreender os meandros, as ambiguidades, ignorando os outros casos. Se colocarmos o Simonal no papel de ‘não fez nada’, continuamos sem problematizar a MPB”, diz Alonso.

No livro, o historiador faz uma instigante análise social em que os músicos são os principais protagonistas de uma confusa dicotomia entre as posturas de protesto e adesão à ditadura nos anos 1960 e 1970. E traz polêmicas: vários artistas flertaram com a ditadura. Simonal foi um bode expiatório, e ajudou a MPB e a sociedade a “purgar” e a se eximir de suas relações com o governo militar.

Para Alonso, o episódio que passou a associar o cantor com a ditadura não foi a causa central do “exílio” que ele viveu dentro do país.

Simonal foi condenado pelo envolvimento na tortura de um ex-contador, feita por policiais do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) em 1971, e se defendeu como um colaborador do regime. Acabou sendo considerado, mais que um adesista, traidor. O caso também inclui racismo, como se costuma reconhecer. Mas, de acordo com Alonso, foi sobretudo uma questão de estética e política.

MPB

“É uma tragédia em vários sentidos. Mas costumo enfatizar que, muito mais que racismo ou o caso do contador, parece que o fundamental para o ostracismo do Simonal foi a concorrência com o tropicalismo e a tentativa de diálogo com o país massivo – que estava na base da ditadura”, diz Alonso.

O cantor representava bem a sociedade em sua relação com a ditadura. Havia nuances e contradições que colocavam os brasileiros em uma “zona cinzenta” entre a resistência e a colaboração. “Para mim é incômodo também, porque estou dizendo, entre outras coisas, que familiares meus apoiaram”, diz o historiador. “Mas não se trata de punir fulano ou cicrano, e sim de entender o que aconteceu, e por que se esqueceram disso.”

* * * * * *

“A história da MPB sempre foi privilegiada por pesquisadores, escritores, acadêmicos e jornalistas [...]. É comum que artistas não identificados a este gênero estético-político sejam associados a baixa qualidade estética e a alienação política. [...] Constrói-se, assim, uma história musical dicotômica, simplista, que enxerga resistentes e alienados. [...] Enfim, certos artistas são silenciados pela memória hegemônica em nome de um conceito estético e político, apagando-se a vivência afetiva de milhões de brasileiros.”

Trecho de livro Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga, de Gustavo Alonso.

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