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OPINIÃO

Licht+Licht é uma “ópera seca” que discute o papel do artista na sociedade

Baseada em Goethe, montagem de Caetano Vilela prioriza a encenação em uma peça que deixa perguntas no ar

Marcações operísticas e iluminação intensa determinam a encenação de Licht+Licht, peça da Cia. da Ópera Seca que estreou ontem no Festival |
Marcações operísticas e iluminação intensa determinam a encenação de Licht+Licht, peça da Cia. da Ópera Seca que estreou ontem no Festival
 
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Licht+Licht é uma “ópera seca” que discute o papel do artista na sociedade

Quando Caetano Vilela adaptou Travesties, texto do dramaturgo norte-americano Tom Stoppard, em 2010, ouviu-se aqui e ali que ele havia exagerado. As liberdades tomadas, principalmente em relação aos personagens, dentre eles James Joyce, não agradaram certa parcela do público – talvez a mais erudita ou que conhecesse o texto original de Stoppard que, só no ano passado, ganhou tradução no Brasil. No entanto, Travesties era uma obra coesa, grandiosa em certo sentido, com enredo amarrado e deliciosamente engraçada com sua sátira sobre o papel do artista na sociedade. Em Licht+Licht, que estreou ontem no Guairinha, dentro da Mostra Oficial do Festival de Curitiba, ele volta ao tema, mas, ao invés de uma adaptação, o texto – se é que há um, questionam-se os atores Germano Melo, Fabiana Gugli e Wagner Antônio no palco – é uma criação do próprio diretor, inspirado em três obras centrais de Goethe: Os Sofrimentos do Jovem Werther, Fausto e Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. Há outro “mas”: embora Licht+Licht traga elementos que foram marcantes em Travesties – a grandiloquência algo operística, o cenário e iluminação impecáveis, Germano Mello, o protagonista de ambas, e livros, muitos livros – a nova peça não se assemelha à primeira no aspecto que mais a caracterizava, o da narrativa. É curioso que o segundo trabalho de Vilela à frente da Companhia da Ópera Seca não só apareça depois de Gargólios, o espetáculo de Gerald Thomas que estreou em São Paulo e teve sessões na mostra deste ano no início da semana, como também tenha sido apresentada na sequência. Em 2009, Vilela assumiu o posto de Gerald depois que ele, Gerald, largou a toalha e se mandou para Nova York, onde reside, e Londres, onde montou a versão inglesa da companhia brasileira, a Dry Opera, com a qual veio com a peça para Curitiba. Quem assistiu a um e outro pôde perceber semelhanças na estrutura dos espetáculos. Talvez até de tema – mas enquanto Gerald carrega no tom político, Vilela envereda pelas referências artísticas que lhe são caras e importantes, transpondo-as todas em Licht+Licht, mesmo que o público não as perceba. Com seu segundo trabalho, verifica-se a existência de dois Vilelas: o de Travesties e o de Licht+Licht, no qual os pressupostos de Gerald Thomas e de sua ópera seca estão mais evidentes. São dois espetáculos diferentes e, por isso, é difícil valorar qual dos dois é melhor. Até porque a natureza de ambos os trabalhos também é diferente, embora a metalinguagem e a discussão do artista na sociedade possam ser temas comuns. No entanto, entender o recado em Licht+Licht é mais difícil. Vilela sabe disso e permite que seus atores reverberem esta questão. “Alguém vai entender a peça”, solta Germano Melo, que funciona como um alter ego do diretor, uma figura também cara a Gerald – e, espertamente, o diretor coloca esta dúvida em cena como se ele próprio, por meio de seus personagens, duvidasse do método que preconiza. A frase arranca gargalhadas da plateia, com se ela concordasse com a dificuldade que se apresenta. Ainda mais quando a encenação é mais importante que a construção narrativa baseada em Goethe. É preciso dizer que o escritor alemão está lá como a luz a que evocou na sua última frase antes de morrer, “licht mehr licht” (“luz, mais luz”), mas algo sugerido, assim como os seus personagens. Os valores preconizados pelo autor romântico – e importantes para o diretor – como cidadania, ética, respeito à natureza e o papel da arte na sociedade também estão lá, ora sugeridos, ora defendidos com rigor – a questão da contrapartida social do artista é colocada em destaque nos momentos finais da peça. Porém, diferentemente de Travesties, lhes falta coesão, o que dilui a importância deles para o público, mesmo que o diretor lance luzes – todas as luzes possíveis, diga-se – sobre eles. Aliás, também é preciso dizer que Vilela é, antes de tudo, um iluminador. “E o que é essa luz?”, pergunta, de novo, Melo que, agora, interpreta a si mesmo na peça. Depois, tem uma vasta carreira como diretor de óperas. Depois, e só depois, ele se tornou diretor de teatro. Isso não significa que não desempenhe a função com competência. Pelo contrário. Por causa dessas experiências, seus espetáculos se tornam mais interessantes: é pela luz que ele conduz Licht+Licht, que ganha contornos operísticos pelas marcações estabelecidas em cena e pelos trechos de óperas que permeiam a estrutura da peça. No entanto, por fim, Licht+Licht deixa perguntas desatadas no ar e, perto de Travesties, um certo dissabor, o que só aumenta as expectativas em relação aos novos trabalhos que Vilela promete para o ano que vem – Tetralogia, uma adaptação de quatro óperas de Richard Wagner em um único espetáculo, e Brutos, desenvolvida a partir de Júlio César de Shakespeare. Que eles venham, mesmo ofuscando a plateia com as suas luzes incandescentes.

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