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Minha vida de oficial bombeiro militar

  • Cezar Tridapalli, escritor Especial para a Gazeta do Povo
 
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 | Felipe Lima
Felipe Lima

O estrondo do Massacre do Centro Cívico passou, mas seus ecos permanecem (o estampido dos tiros reboando?). Muita gente escreveu sobre o assunto de modo impecável e meu silêncio se deveu a isso: difícil ter um ponto de vista original.

Minha biografia diz, entre outras coisas, que sou professor. Há um caminho já longo ligado à educação. O que pouca gente sabe é que eu estudei em colégio militar desde a sexta série. Terminei o Ensino Médio lá e segui direto para o Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar. Estrela no ombro, formei-me oficial do Corpo de Bombeiros. Para incompreensão de todos, saí logo em seguida, justamente no momento em que “o melhor da vida iria começar”. A formação dos oficiais bombeiros militares é um pouco diferente da oferecida aos oficiais da PM, mas nós éramos muito próximos. Pude testemunhar em profundidade a cultura da caserna.

Eu acredito – ou torço mais do que acredito? – que essa cultura tenha mudado. Os resquícios da ditadura ainda eram grandes 20 anos atrás. Para se ter uma ideia, a Polícia Militar do Paraná era (ainda é?) regida pelo Regulamento Disciplinar do Exército.

No bloco de alojamento dos cadetes havia uma frase: “Aqui se forja o caráter do miliciano”. E eu posso falar um pouco sobre como se forjava esse caráter.

O trote foi feito sob um sol escaldante que me provocou crateras de pus no couro cabeludo (haviam nos raspado a cabeça, por supuesto). A cada rastejamento na lama e aquele fuzuê todo que forja o caráter de qualquer um, alunos de hierarquia mais alta nos xingavam e berravam frases toscas, homofóbicas e outras delicadezas. Os perdigotos que nos batiam em cheio eram nada, afinal, chafurdados em lama, sofríamos na pele alguns pequenos gestos de tortura.

Os bombeiros tínhamos aulas de Combate a Incêndio, Resistência dos Materiais, Mecânica dos Fluidos, Busca e Salvamento, Mergulho, essas coisas. Em comum com a PM, estudávamos Psicologia Social, Introdução ao Estudo do Direito, Defesa Pessoal, Tiro, entre outras que me fogem agora. Os cadetes da polícia tinham várias disciplinas chamadas Técnica Policial Militar e não tenho ideia do que aprendiam lá. Eu convivia mais com eles nos intervalos de almoço, nos alojamentos à noite, quando ficávamos de serviço fazendo sentinela ou presos (eu ficava preso muitas vezes por um coturno que não brilhava, uma perna que parecia sem vontade de marchar, um fuzil torto nas coreografias militares – “pelotão, apresentar armas!”), essas coisas que eu fazia mal feito e que impediam que meu caráter se forjasse.

Alunos de hierarquia superior e oficiais que nos comandavam eram dominados por um sadismo que se traduzia por firmeza, rigor, princípios consolidados, doutrinas. Era comum que os alunos policiais fossem escalados para coisas do tipo Operação Carnaval. Quais eram os comentários posteriores? Risadas, troças, esculachos, pancadas que deram em bêbados, putas e travestis. Tudo contado com sorrisos, cada um falando de seus feitos gloriosos. O caráter ia sendo cada vez mais forjado naquela juventude cheia de energia, sedenta por extravasamentos. Aos poucos, formava-se uma verdadeira comunidade de amigos, que se dava pela identificação e também pela diferença. O grupo cria muros, fronteiras entre o nós e o outro. O outro, claro, é o diferente, o desvio, o erro.

Depois das aulas da manhã, íamos todos marchando para o rancho. Dependendo do nível de sarcasmo do comandante, se chegássemos ao refeitório sem marchar direito, os cabeças-de-papel tinham de voltar e fazer tudo de novo. Na marcha, as canções não diferiam em nada de qualquer grito de torcida. As letras corroboravam o espírito bélico, bater, tocar o horror. Tinha uma coisa meio Capitão Nascimento avant la lettre. Nessas canções festivas, as veias saltavam. Ali também se estava forjando o caráter.

Como toda regra não construída coletivamente, as militares são seguidas sem muita reflexão, entronizadas a ferro e fogo (procure “forjar” no dicionário). Engessam modos de pensar o mundo, fecham olhos para a diversidade, para contextos. Uma pessoa cujo caráter se forjou naquele modelo tem dificuldade em fazer contrapontos ou reconhecer equívocos de valor. O microcosmo inflexível serve como chave de leitura para o mundo lá fora. A lei do tacape que comanda a criminalidade, as torcidas organizadas, os regimes fundamentalistas que tanto condenamos é, a rigor, a mesma que comanda a cabeça de quem deveria zelar pela segurança pública. Quando dá uma merda do tamanho do Massacre do Centro Cívico, não se discute a ação, mas sim qual discurso usar para se safar e em quem colocar a culpa (detalhe: o então Secretário de Segurança frequentou o curso de formação da PM pouco depois de mim).

Se uma grande torcida organizada, armada, encontrasse a torcida rival, desarmada, o que faria? Pergunto: a ação da polícia foi diferente? Tantas técnicas policiais estudadas para fazer o mesmo que uma torcida organizada faria? O poder nas mãos, insuflado pelo ambiente de agressividade adestrada durante a formação, explica um pouco o resultado estarrecedor. Saber que alguns policiais riam enquanto batiam em professores entristece, mas não surpreende.

*

As contradições da sociedade brasileira acentuam as contradições humanas de que todos somos vítimas, sejamos brasileiros, suecos, sudaneses. A educação e a justiça social conseguem façanhas notáveis ao nos blindar de nós mesmos, ao passar no indivíduo e em sua coletividade ao menos um verniz de civilização. O bem-educado sempre vai entender melhor do que é capaz uma boa educação. Falar de educação para mal educados é esmurrar pontas de faca. Refiro-me a quem recebeu formação escolar (em geral ruim, seja no sistema público, deficitário, seja no particular, competitivo e desumano), mas não consegue transportar a enxurrada de conteúdos desconexos para a vida em sociedade. Colocar um livro na mão de alguns é fazê-lo ser destruído a pauladas depois de receber um olhar ressabiado, o sujeito cofiando o cocuruto com os cinco dedos da mão. Falar em literatura, falar em divulgação científica, em mobilidade urbana, em justiça social, em direitos humanos virou uma abstração (ou comunismo, esse rótulo curinga para tudo que busca melhorar as condições da vida coletiva) na cabeça de quem, vítima da própria educação ruim, não tem qualquer noção do que vocifera. Há um muro que os separa daqueles que chamam de bárbaros. Se os bárbaros avançarem, a solução é simples: porrada.

Não tive intenção de ferir egos, pessoas, ex-colegas. Havia gente muito boa lá. Tenho certeza de que há policiais militares que estão sofrendo com a situação. Achei importante, como ex-militar e agora educador, colocar uma voz a mais no debate, uma voz que conheceu os dois lados. Pessoas inteligentes podem tirar algum proveito disso, agregando um ponto de vista diferente e refutando, manifestamente ou não, os pontos dos quais discorda. É assim que as coisas andam, ao menos hoje em dia. Jamais com o tacape na mão arrastando a presa pelos cabelos até a caserna. Digo, até a caverna.

Cezar Tridapalli é educador. Formado em Letras (UFPR), especialista em Leitura de Múltiplas Linguagens (PUCPR) e mestre em Estudos Literários (UFPR), é também escritor, autor dos romances “Pequena Biografia de Desejos” (7Letras) e “O Beijo de Schiller” (Arte e Letra), vencedor do Prêmio Minas Gerais de Literatura em 2013.

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