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Literatura

Redes sociais “aprisionam” a alma dos poetas, diz o escritor Paulo Scott

  • Folhapress
Paulo Scott: “Pode ser que o demônio tenha finalmente encontrado uma forma de aprisionar a alma dos poetas”. | Olavo Amaral/Divulgação
Paulo Scott: “Pode ser que o demônio tenha finalmente encontrado uma forma de aprisionar a alma dos poetas”. Olavo Amaral/Divulgação
 
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Se mente vazia é oficina do capeta, o Facebook talvez seja toda uma indústria de artesãos do sete-pele. Ao menos para o gaúcho Paulo Scott, que acaba de publicar uma ficção – “O Ano em que Vivi de Literatura” (editora Foz), narrada em primeira pessoa – sobre um escritor, a “solidão contemporânea” e a “invasão absurda dos relacionamentos virtuais na nossa vida”.

“Pode ser que o demônio tenha finalmente encontrado uma forma de aprisionar a alma dos poetas”, diz Scott.

No romance, o seu quarto, um escritor chamado Graciliano ganha um robusto prêmio literário (R$ 300 mil).

O valor é o suficiente para que compre um novo apartamento, na zona sul do Rio, e consiga viver confortavelmente, dedicando-se exclusivamente à escrita. Um privilégio ainda maior porque, com o prestígio, encomendam-lhe um novo livro, cercado de expectativas.

O problema é que não sai nenhuma linha sequer.

A não ser na caixa de texto da rede social, em que Graciliano (“um poeta que bota seus poemas no Facebook para conhecer mulheres”) mata o tédio a troco de curtidas e de sexo (e são muitas as descrições de transas desse tipo). É mais um candidato a “funcionário do mês” das empresas que administram a internet.

“Cheguei, em 2010, a colocar isso no meu perfil do Facebook, que queria criar uma sátira scottiana sobre praticar uma vida de literatura num contexto em que as redes sociais acabam dominando todos os cantos, todos os momentos”, comenta.

A história começou a se desenrolar no ano seguinte, em 2011, ano em que saiu “Habitante Irreal”, pela Alfaguara – eleito melhor romance no prêmio da Biblioteca Nacional de 2012. Dois anos depois, em 2013, viria “Ithaca Road”, pela Companhia das Letras, parte do projeto Amores Expressos.

Entre tantas semelhanças com seu narrador-personagem (ambos gaúchos, premiados), Scott faz questão de cravar o elo entre si mesmo e o protagonista: é tudo ficção.

“É um cara que entendo bastante, porque larguei coisas para viver aqui no Rio. Larguei uma vida de advogado, de professor, e não posso reclamar que eu seja um autor desconhecido e renegado pela atenção dos meus pares. Até jurado de concurso eu já fui”, diz, emendando: “Veja bem, ele não sou eu. É absolutamente ficção.”

Em “O Ano em que Vivi de Literatura”, Scott retrata o meio literário como um ambiente cheio de relações promíscuas entre escritores, editores e imprensa, em que interesses profissionais se misturam e se resolvem, com frequência, com desejo sexual.

Um pouco como o Facebook?

Isso, o escritor não diz. Mas conta que, “nesse mercado, damos um jeito de nos aprisionar, de nos se relacionar apenas com o que nos envaidece, com nossos preconceitos, nossas estranhezas. E nisso a gente vai morrendo.”

“No fim, o ano em que Graciliano viveu de literatura foi o ano em que mais esteve perdido, mas foi também quando revolveu suas imperfeições”, afirma Scott.

O machismo é uma delas – há uma cena em que o personagem quase chega a estuprar uma colega. Outra, os problemas com o pai e com a irmã mais velha, que sumiu no mundo sem deixar muitos rastros além de um profundo sentimento de ausência (e carência) em Graciliano.

É a ela, aliás, que o escritor consegue escrever suas poucas palavras no ano em que viveu de literatura, além daquelas postadas nas redes sociais.

Questões familiares, a propósito, estão dando o tom de “Marrom e Amarelo”, romance que escreve para a Alfaguara e prevê que chegue ao prelo em 2017.

“Estou mergulhado nele, trabalhando intensamente desde março o ano passado. É um volume de pesquisa muito grande, estou falando de racismo no Brasil”, conta o autor.

O título remete ao tratamento distinto que ele e o irmão – “um filho mais claro e outro, mais escuro” – costumavam receber. “Uma espécie de ‘Diário da Queda’, do Michel Laub, não de uma família judaica, mas negra, brasileira, do sul, e que financeiramente é até vencedora”, diz. “Até postei isso no Twitter, foi em março do ano passado, quando comecei a trabalhar em ‘Marrom e Amarelo’.”

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