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Lixo e arte levam o Brasil ao Oscar

Codiretor de Lixo Extraordinário, o cineasta brasileiro João Jardim fala sobre a experiência do trabalho com os catadores, o artista plástico Vik Muniz e a indicação do filme na categoria de melhor documentário

Lixo Extraordinário foi gravado no lixão próximo à comunidade de Jardim Gramacho, região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro |
Lixo Extraordinário foi gravado no lixão próximo à comunidade de Jardim Gramacho, região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro
 
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Lixo e arte levam o Brasil ao Oscar

“O lixo tem o poder de libertar, de fazer com que a gente procure algo que não sabe ao certo o que é.” É assim que o codiretor do filme Lixo Extraordinário (confira o trailer, fotos e horários das sessões), o cineasta brasileiro João Jardim define a experiência de ter participado da produção do filme indicado para o Oscar deste ano na categoria de melhor documentário. O efeito transformador e surpreendente do tema, aponta o realizador, também deixou marcas que devem influenciar seus trabalhos futuros, em especial quando se trata de “dar liberdade à história e garantir uma boa impressão nos expectadores”.

De férias em Foz do Iguaçu, no Oeste do estado, onde está com a família, Jardim disse estar bastante gratificado com a indicação ao mais cobiçado prêmio do cinema mundial.

Lixo Estraordinário, em cartaz em Curitiba desde sexta-feira passada, mostra o trabalho do artista plástico Vik Muniz que fotografa catadores de lixo, depois usa os materiais do lixão para reconstituir os retratos, registra de novo com sua câmera o resultado e, desse processo, tira obras espantosas. Numa delas, um dos catadores, Tião, personagem marcante da comunidade de Jardim Gramacho (RJ), posa como o revolucionário Marat, assassinado em sua banheira por Charlotte Corday. O Marat negro, interpretado por Tião segundo a imaginação de Muniz, causa funda impressão no espectador.

O documentário mergulha, assim, em cheio na realidade brasileira e em suas mais duras contradições. O faz a partir da experiência de um artista também vindo da periferia – Muniz nasceu na periferia de São Paulo, filho de retirantes nordestinos –, mas que reside e faz sucesso no exterior.

A motivação do artista é retribuir ao seu país de origem parte do seu êxito internacional. Não faz mera filantropia. Os personagens do lixão, convertidos em artistas, participam desse sucesso. Viajam para exposições com o badalado Vik Muniz. Têm sua vida transformada por essa mesma alquimia que faz o dejeto virar arte. É comovente. Sem ser piegas. É real. Sem mistificar. Mas seria um olhar puramente brasileiro voltado a essa realidade e a esse processo de transformação?

“O material bruto do filme é brasileiro. A história se passa no Brasil, com personagens brasileiros e trata de uma realidade co­­mum entre a gente, que é a de pessoas que sobrevivem do trabalho com o lixo”, observa. Mas, segundo o cineasta, é a partir desse ponto que o documentário passa a contar com um diferencial: a visão da diretora britânica Lucy Walker, que assina o filme. “Ela conseguiu pegar essa coisa nossa e transformar em algo atraente também para o público estrangeiro, com uma linguagem universal. E o investimento inglês possibilitou que ele tivesse mais chances de viajar além das fronteiras brasileiras e ganhasse o mundo”, disse Jardim à Gazeta.

“A Lucy veio ao Brasil e iniciou o trabalho no Jardim Gramacho”, conta Jardim. “Ela ficou apenas dez dias e teve de ir embora para tocar outro projeto dela. Então eu assumi as filmagens e realizei cerca de 60% das cenas que são vistas na tela.” Por fim, a pernambucana Karen Harley (montadora de filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, e Baixio das Bestas, de Claudio Assis) assumiu e tocou o resto do trabalho. Por fim, o material seguiu pa­­ra o exterior e Lucy Walker o montou. “Ela teve o ‘final cut’ do filme e isso é fundamental.”

Cerimônia

“O meu maior sonho é produzir muitos filmes. A indicação e, quem sabe, a premiação podem garantir muitas oportunidades para que eu possa concretizar esse sonho”, comentou João Jardim ao lembrar que a produção conjunta com a Inglaterra teve grande influência no sucesso do documentário.

A produção se estendeu por três anos e custou cerca de R$ 3 milhões, sendo mais de US$ 1 milhão da inglesa Almega Projects e R$ 900 mil da brasileira O2 Filmes.

Detentor de 18 prêmios internacionais (confira quadro nesta página), entre eles os dos festivais de Sundance e de Berlim, e três nacionais, Lixo Extraordinário tem chances de também levar o Oscar. Para Jardim, independentemente do reconhecimento que já teve até agora, o filme merece a premiação pela questão da abordagem do mundo dos catadores. Concorre com o favorito Exit Through the Gift Shop, Gasland, Restrepo e Trabalho Interno, sobre as raízes da crise econômica mundial de 2008.

Em declaração à Agência Folhapress, Vik Muniz garantiu que irá participar da entrega do prêmio, em 27 de fevereiro, assim como os diretores: “Estarei lá, mas a pessoa que deve subir ali no pódio se o filme ganhar é o Tião. Isso para mim fecharia esse projeto com chave de ouro, fazer alguém que sai de Duque de Caxias ser visto agora por 1 bilhão de pessoas.”

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