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Masculinidade: Personagem

Nascimento: crise do homem pós-moderno

O protagonista de Tropa de Elite 1 e 2, visto por muitos como um “herói brasileiro”, é um sujeito solitário, abandonado e de causas duvidosas

Fraga (Irandhir Santos), Rosane (Maria Ribeiro) e Nascimento (Wagner Moura), mergulhado em profunda crise existencial e de valores |
Fraga (Irandhir Santos), Rosane (Maria Ribeiro) e Nascimento (Wagner Moura), mergulhado em profunda crise existencial e de valores
 
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Esta semana, a revista Veja estampou em sua capa uma imagem de Wagner Moura. Mas não era do ator baiano que estavam falando, mas sim de seu personagem nos filmes Tropa de Elite 1 e 2: o capitão Roberto Nascimento, do Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o Bope. A principal reportagem da publicação semanal da Editora Abril dava a ele o título de “herói brasileiro”. Com certeza, muitos dos quase 10 milhões de espectadores que já viram o segundo episódio da saga dirigida pelo diretor José Padilha concordaram. Mas será que Nascimento, de fato, é um herói?

O psicoterapeuta e professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Sócrates Nolasco, discorre em seu livro De Tarzan a Homer Simpsonsobre como a concepção de herói tem sofrido profundas transformações no mundo moderno. Ele argumenta que, em sua concepção clássica, moldada a partir dos protagonistas dos poemas épicos homéricos Odisseia e Ilíada, nessa figura está presente a interseção entre o religioso, a ordem natural e social. “A representação social masculina é positivada quando funciona co­­mo agenciadora de esforços em­­preendidos pelo herói na direção dos ideais sociais e coletivos. Corresponde a uma das manifestações do divino.”

Em contrapartida, Nolasco ar­­gumenta que, na passagem para o individualismo moderno, há um distanciamento do significado conferido ao que era considerado sagrado. “As sociedades contemporâneas abrem mão desta perspectiva [do herói munido de um dever divino de agir em nome do coletivo] , passando a configurar o sujeito como um solitário e abandonado”, afirma o professor.

Portanto, um personagem com­­plexo como Nascimento, que, sobretudo no primeiro filme, recorre à violência como única forma de resolução de conflitos, ainda que em nome de uma visão pessoal e distorcida de Justiça e de bem comum, não se enquadraria na concepção clássica do mito do herói. E parece muito mais alinhado a uma concepção pós-moderna de sujeito.

Se, no longa-metragem original, ele já é retratado como um homem mergulhado em profundo estresse, crises de insônia e de pânico, que tensionam a sua relação com a esposa, Rosane (Maria Ri­­beiro), no segundo filme, esse quadro depressivo se agrava. Separado da mulher, com dificuldades de relacionamento com o único filho homem, Nascimento cai em desgraça dentro da própria corporação. Mas segue buscando levar a cabo o seu ideário de justiça, numa cruzada que agora se volta não apenas contra os traficantes que dominam as favelas do Rio de Janeiro, ou os consumidores de dro­­ga da classe média que alimentam esse comércio ilegal. Ele tem como alvo os agentes do Estado – policiais mi­­litares, deputados, o governador –, que realimentam essa ordem perversa.

Só que, pelo menos quase até o desfecho da trama, ele segue lançando mão, sem muito foco ou critérios defensáveis, de expedientes de violência.

Chamar Nascimento de herói, portanto, é ignorar que ele é um homem perturbado, doentio. A atribuição ao personagem de qualidades da ordem do sagrado, se­­gundo os modelos míticos, acionados na direção dos ideais sociais e coletivos, é uma simplificação pe­­rigosa do personagem, Mesmo que seja assim que boa parte do público o enxergue, ingnorando o fato de que, tanto no primeiro como no segundo episódio, o policial se aproxima muito mais desse ho­­mem da pós-modernidade, ilhado, abandonado pela família, com enorme dificuldade para se relacionar com o mundo.

É exemplar o antagonismo entre Nascimento e o ativista pelos Direitos Humanos, e depois deputado estadual, Diogo Fraga (Irandhir Santos). Apresentado como inimigo do protagonista – é um crítico da ação do Estado e da polícia, casou-se com a mulher de Nascimento e conquistou o filho do policial –, Fraga, sim, é revelado como um possível e contemporâneo modelo de herói. Há nele o intuito de ir além do confronto maniqueísta, e tentar compreender os fatores geradores da contravenção. Isso se torna claro na se­­quên­­cia em que tenta impedir que a rebelião no complexo penitenciário de Bangu seja resolvida à base da força, sem diálogo. Seu esforço, no entanto, é em vão. A violência prevalece.

Será Fraga, todavia, que servirá a Nascimento de modelo de ho­­mem para que, mesmo que a contragosto, o policial inicie um processo de autocrítica, de reavaliação de seus valores e métodos. Sobretudo quando seu filho é atingido por uma bala destinada ao padrasto. O aparente “inimigo”, nesse mo­­mento trágico, que reaproxima Nas­­cimento do âmbito do sagrado, acaba por assumir o papel de aliado – e talvez de guia – numa luta muito mais complicada e, aparentemente, sem fim.

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