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literatura

“O Esculpidor de Nuvens” marca pela densidade poética

Segundo livro de Otavio Linhares atravessa o passado para estabelecer uma linguagem memorialista própria

  • Daniel Zanella Especial para a Gazeta do Povo
Segunda obra do curitibano é nada comum. | Olívia D’Agnoluzzo/Divulgação
Segunda obra do curitibano é nada comum. Olívia D’Agnoluzzo/Divulgação
 
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Em “Nova Poética”, Manuel Bandeira apresenta um propósito: “Vou lançar a teoria do poeta sórdido./ Poeta sórdido:/ Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.” O ideário é plenamente adequado para localizar “O Esculpidor de Nuvens”, segundo livro do curitibano Otavio Linhares, uma descida ao chão escorregadio das memórias primeiras. “me conta a estória da tua adolescência. comece do começo. não se perca em fábulas e vozes. e não se atreva a me labirintar entre corredores escuros e sombrios. não crie tabelas.”

Linhares não é o primeiro, nem será o último a revisitar o passado – toda literatura é exercício de resgate. O que “O Esculpidor de Nuvens” promove de singularidade é uma carga lírica bem acima da média aliada a elementos da escuridão mais densa. Numa encruzilhada entre a dramaturgia de Samuel Beckett, visível principalmente nas elipses narrativas, e uma poética do cotidiano-chão, das palavras que se criam, se chocam e se condensam (como Manuel Bandeira fazia ao andar no interior dos sentidos), a obra se prevalece de um terreno onde nada é permanente, tudo está em trânsito, em constante significação. O resultado é provocante, raramente carregado – possíveis ecos do volume dramatúrgico inerente à obra de Linhares – e estruturalmente corajoso.

Não há compromisso com uma narrativa em si. A própria experiência de recontar literariamente o passado permite um jogo de labirintos e campos abertos, onde cada frase ou capítulo existe para gerar efeito e sentido por si. Ou nenhum dos dois, apenas para proporcionar uma ligação de palavras diferenciada, solo cativo da poesia: “comecei a beber eu tinha 13 anos. Aí eu fui numa festa bebi e entrei em coma alcoólico. parei de beber eu tinha 13 anos.” De uns tempos para cá, muito se tem dito sobre a autoficção, isso de reescrever a própria vida entre o real e o inventado. Em certo momento, por exemplo, Linhares refere-se ao seu personagem como Tavinho, possível vocativo familiar. Importa? Não. Se os autores usam a realidade – seja lá o que isso queira dizer –, para recriar, redizer ou mentir descaradamente, o que de fato vale, na contagem lúdica das bibliotecas, é a capacidade do narrador em produzir impacto, sensação, desmanche, sonho.Nisso de promover contrastes através da “sujidade” do passado, “O Esculpidor de Nuvens” é muito competente. Um livro nada comum.

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