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Literatura

Os meus dias Conyventes

Aos 84 anos, Carlos Heitor Cony lança um livro autobiográfico de crônicas: Eu, aos Pedaços. Aqui, fragmentos de convivência com o consagrado escritor

O escritor Carlos Heitor Cony acaba de lançar reunião de crônicas com paladar autobiográfico, embora insista que não tem interesse em contar a história de sua vida |
O escritor Carlos Heitor Cony acaba de lançar reunião de crônicas com paladar autobiográfico, embora insista que não tem interesse em contar a história de sua vida
 
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Os meus dias Conyventes

Dias de chumbo, Dias de dúvida. Dias de sexo, drogas & rock-and- roll. Dias de contestação, em que o fim podia estar logo ali, dobrando a esquina. Já dizia a canção, “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte.” Em 1969, eu dirigia a Fatos&Fotos, revista semanal que concorria com a própria Manchete. Toda vez que ameaçava o carro-chefe da empresa, a F&F era brutalmente posta no devido lugar. Durei um ano no cargo e fui parar na redação da Manchete.

Um flash-forward de 40 anos: estou na Livraria da Travessa-Leblon, Rio de Janeiro, no lançamento do novo livro de Carlos Heitor Cony, Eu, aos Pedaços, uma seleção de crônicas autobiográficas. (“Não sou foguete da Nasa para ter lançamento”, ele costuma dizer, mas abre exceções).

Antes dos autógrafos, Cony bate bola com Ruy Castro. Os dois vêm fazendo tabelinhas verbais há décadas. Cony dá o ponta-pé inicial e afirma que toda autobiografia é mentirosa. Exemplifica: o presidente JK insistia que nascera em 1902, quando os documentos registravam 1900. Aos 70, JK fazia questão de ser dois anos mais jovem e reclamou de Adolpho [Bloch] quando a Manchete publicou a data correta.

Responsáveis pelo “erro histórico”, Zevi Ghivelder, R. Magalhães Jr e eu fomos crucificados por Adolpho Bloch: “Vou demitir este cabeludo filho-da-mãe!” Cony veio ao meu socorro e recomendou: “Muggiati, coloque sua mesa atrás da coluna.” Escondido atrás da larga pilastra de mármore do Niemeyer, fiquei a salvo da fúria de Adolpho.

O Cony sempre foi uma Madre Teresa dos perseguidos. As demissões na Bloch, bruscas e intempestivas, vinham em ondas, como os pogroms dos cossacos na Rússia czarista, pogroms que a família Bloch sofreu, antes de fugir para o Brasil. A gíria da redação anunciava: “O passaralho está voando!” Cony conseguiu livrar do olho-da-rua 90% dos demitidos, um feito para alguém que se professa descrente do mundo.

No “Roteiro”, texto de Eu, aos Pedaços, ele reitera: “Sou contra a exata compreensão dos meus di­­reitos de cidadão e contra o impostergável dever de solidariedade. Sou contra as injunções de ordem econômico-social e contra a voz da consciência.”

Voltando a 1970: escrevi na Manchete o necrológio do Jimi Hendrix. Cony gostou do texto e me levou para a EleEla, a revista mensal que dirigia, dois andares abaixo do teatro de guerra que era a Manchete. Às cinco e meia, Cony fechava as cortinas e lotava seu carro de caronas para Copacabana, com direito a uma parada na confeitaria Chuvisco, no Leme, para comer doces.

Escrevi um longo texto para a EleEla, que foi o embrião do meu livro Rock: o Grito e o Mito. O título rimado ecoava O Ato e o Fato, o livro com que Cony confrontou a ditadura militar já na primeira hora, em 1964. Não que fosse esquerdista. Ele tem horror a “ismos” e facções. Cony era contra a tirania e insistiu na sua campanha pessoal. Foi demitido do Correio da Manhã.

Em 1965, fez parte dos “Oito do Glória”, uma manifestação contra o presidente Castelo Branco. Fo­­ram todos presos. Do episódio, Cony lembra com humor a manchete de um jornal argentino: PATEARON EL MARISCAL!

Em 1966, a grande questão, fustigada por Che Guevara, passou a ser: suportar a ditadura ou pegar em armas? Três dos “Oito do Glória” transformaram o dilema em obra de arte: Glauber Rocha (Terra em Transe), Antônio Callado (Quarup) e Cony (Pessach: a Travessia). Fugindo da militância, ele se define como “um anarquista humilde, triste e inofensivo.” Com ironia, canibaliza o jargão das esquerdas ao filosofar sobre a morte: “Outra noite, fui ao velório de um amigo no São João Batista e me deu vontade de já ficar ali, de queimar etapas.”

Os clichês também são apropriados por Cony. Ainda o “Roteiro” de Eu, aos Pedaços: “Sou contra o apaziguamento dos espíritos e contra as inalienáveis prerrogativas da pessoa humana. Contra os lídimos representantes das classes produtoras, contra os autênticos interesses de nossa soberania e contra os sagrados postulados da civilização cristã”. Quanto à morte, desde os anos 80, ouço o Cony fugir de certos compromissos com a desculpa: “Não posso, Muggiati, eu sou um terminal.” É o terminal mais longevo que conheço.

Em 1975, os papéis se invertem e eu me tornei chefe do Cony, co­­mo editor da Manchete. Hesito ao designar trabalhos para ele, que é o redator-estrela da Bloch e amigo do Rei (Adolpho). Mas o maquivélico Adolpho me pressiona para arrancar o máximo do Cony. É uma década de grandes crimes e Cony brilha nesta área.

Fantasia-se de médico para fazer um perfil do Monstro de Ipanema. Pula acrobaticamente muros da casas vizinhas para uma entrevista exclusiva com Roberto Medina, recém-liberado de um sequestro. Cobre em Cabo Frio o histórico julgamento de Doca Street (assassino da Pantera de Minas Ângela Diniz). Investiga o caso Lou e Van, batizando a bela morena assassina de Mona Lou (Rubem Gerchman a transforma em pintura).

Com JK escreve as memórias do presidente para a Bloch. Viajou no avião do Papa na primeira visita de João Paulo II ao Brasil, que resulta num livro da Bloch, Nos Passos de João de Deus. São tarefas utilitárias demais para o talento de Cony, uma brecha abissal na sua carreira de escritor.

Publica um livro que define como o derradeiro, uma brincadeira muito séria: o escatológico Pilatos – A História de um Homem Castrado, alegoria que lhe cabe como uma luva. Pilatos termina com a definição de que os homens felizes são apenas mal-informados. Nessa fase em que se torna “pena de aluguel”, Cony mergulha fundo no papel de mercenário. Na melhor tradição dos ex-se­­minaristas, arde na culpa, se martiriza e depois apela para o cinismo. “Eu sou venal, Muggiati”, confessa-me quando resolve redigir artigos para um norte-americano (suposto agente da CIA) em troca de charutos cubanos.

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