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paulo freire

Pela união na construção do saber

Interesse renovado em torno da obra do educador pernambucano comprova a importância de seu legado, fundamentado no diálogo como base para a tomada de consciência do indivíduo

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Paulo Freire (1921-1997) defendia uma educação assumidamente ideológica. E foi justamente essa postura que lhe deu seguidores e detratores, apaixonados em igual proporção ao defender ou atacar o eleito “patrono da educação brasileira” em 2012.

Ao teorizar sobre a necessidade de um ensino tendo o diálogo como base para a tomada de consciência do indivíduo, e em que a política acompanha o estudante da sala de aula para o mundo, o pernambucano que morreu em 1997 tornou-se referência internacional para a educação, embora em seu próprio país suas ideias sigam longe do consenso.

“O ensino nunca é neutro e encarar isso faz parte do pioneirismo de Freire. Até o ensino que se diz neutro, na verdade, é ideológico, é a ideologia de manter as coisas como estão. Ter estudantes que aprendem em um contexto dialógico e crítico não é interessante a muitos, como os políticos. Por isso Paulo Freire não entra com facilidade na sala de aula. Mesmo dentro da escola, ter alunos críticos é difícil, porque eles vão questionar, vão querer mudanças, incomodam”, diz a professora de pós-graduação em Comunicação Popular e Comunitária da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Luzia Yamashita Deliberador. Ela utiliza os preceitos do educador pernambucano em oficinas de midiaeducação em escolas públicas.

Freire propunha uma prática de sala de aula que pudesse desenvolver a criticidade dos alunos e condenava o tradicionalismo da escola brasileira, que chamou de “educação bancária”, em que o professor deposita o conhecimento em um aluno desprovido de seus próximos pensamentos. Tal sistema, diz, só manteria a estratificação das classes sociais, servindo o ensino de mero treinamento para a formação de massa de trabalho. Contrariamente, Freire propunha a construção do saber de forma conjunta, em que o professor se aproxima dos conhecimentos prévios dos estudantes, para com, essas informações, ser capaz de apresentar os conteúdos aos alunos, que teriam poder e espaço para questionar os novos saberes.

“Foi convivendo com diretores e professores de escolas primárias, coordenadores e participantes de programas culturais que Paulo se convenceu do peso do autoritarismo na cultura brasileira”, afirma Vera Barreto, em seu livro Paulo Freire para Educadores (Arte & Ciência, 1998). Advogado por formação, o pernambucano preferiu o magistério, atuando especialmente na alfabetização de jovens e adultos, na década de 1960 – um período em que boa parte da população era analfabeta – e o voto era vetado a quem não soubesse ler e escrever.

Comunista?

Com uma das suas inspirações para seu pensar sobre a educação na obra de Karl Marx, logo ganhou o desprezo das classes dominantes. “Para elas, eu era comunista, inimigo de Deus e delas. E não importava que eu não fosse. Perfila quem tem poder. Quem não tem, é perfilado. A classe dominante tinha poder suficiente para dizer que eu era comunista”, fala. Claro que havia condições para tal acusação. Ele pregava a educação formal dos trabalhadores, que, enquanto alunos, tinham o dever de brigar pelo direito de participar das escolhas. “Mas não era um marxista. Ele mesmo se diz, em seu livro Pedagogia da Esperança [Paz e Terra, 1992], um não-marxista, que usou Marx como base, ao pensar a luta de classes, para a educação popular”, diz a professora do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Maria Aparecida Zanetti.

“Até hoje Paulo Freire tem esse caráter de ‘ame ou odeie’. Usava muito o termo ‘curiosar’, que indica a necessidade de gerar no educando o questionamento. Ainda hoje, porém, falta aos professores a formação política, científica e pedagógica para colocar o projeto de Freire em prática. A má formação do professor é o maior problema, ainda, da educação brasileira”, opina o o mestre em História e Filosofia da Educação e professor aposentado Pedro Elói Rech.

Entrevista“O pensamento de Paulo Freire é exigente”

Maria Aparecida Zanetti, professora do Setor de Educação da UFPR, com atuação na educação de jovens e adultos

Houve um período em que a obra de Paulo Freire esteve “fora de moda” dos estudos em Pedagogia?

Até os anos 2000, esteve menos presente nas leituras dos cursos de educação das universidades, quando retorna com mais força à academia, até mesmo pela renovação dos quadros docentes e pela reaproximação dos movimentos sociais, da educação popular com as universidades.

Paulo Freire é um autor bastante utilizado por grupos de esquerda, como o Movimento Sem-Terra. O mote socialista atrapalha o pensamento freireano de estar mais presente na escola pública e particular?

Não. Ele foi secretário de Educação da cidade de São Paulo na gestão da Luíza Herundina [entre 1989 e 1991], um governo marcadamente de esquerda. Quando foi convidado, foi questionado se não estaria traindo seus princípios de apoiar os oprimidos. Ele diz que não poderia recusar o convite de implementar uma escola pública diferente. Teve resultados bastante significativos da gestão democrática nas escolas. A escola brasileira tem uma tradição muito hierarquizada socialmente. Um exemplo concreto é pensar no sujeito adulto não alfabetizado. Na nossa sociedade, ele é ninguém. Mas, esquece-se de ver que ele, mesmo sem o conhecimento formal, tem seus saberes.

Porque ele é tão reconhecido como teórico da educação, mas é tão complicado colocar seu pensamento na prática?

Paulo Freire é um auto que questiona, desacomoda, incomoda. Muitas vezes, o que se tem é uma prática no espaço educacional da repetição, do não questionamento. Em vez de se escolher o repertório educacional a partir dos sujeitos que eu tenho na escola para definir as estratégias de ensino, simplesmente se faz a manutenção do sistema. O pensamento de Paulo Freire é exigente, de mudança das relações pessoais, sociais. É um pensamento que, se assumido para pensar as relações com os filhos, com a escola, com a política, exige mudanças efetivas dos sujeitos. Isso dá trabalho. Temos isso em vários exemplos, como quando eu e outros professores dávamos aula na Vila Capanema. O acordo é que não daríamos aula em dia de culto. Em um dado momento, o pastor pediu para avisarmos, no dia de uma aula, que teria culto. Os estudantes começaram, então, a refletir sobre a autoridade do pastor na comunidade. Cogitavam: se iam para a escola para aprender a ler a Bíblia e combinaram de ter aulas em dias que não fossem de culto, mas o pastor marca culto em dia de aula, quem está desrespeitando o acordo é o pastor. Quem se liberta é o oprimido quando não se permite ser oprimido. E foi isso o que a comunidade fez. E nenhum deles leu Paulo Freire.

O professor está preparado para todo esse trabalho de educação pelo diálogo e pela conscientização?

Ensino futuros professores. Seria leviana se dissesse que os professores não estariam preparados. Muitas vezes, porém, falta nós compreendermos como sujeitos em formação, não como sujeitos acabados. E isso vale também para os professores da universidade. Assim, vamos avançar, permitindo outro tipo de relação menos encastelada.

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