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Por uma cultura descentralizada

Equipamentos e ações culturais começam a chegar a bairros mais afastados, ainda num movimento tímido e graças ao trabalho da própria comunidade

Marcelo Rocha, coordenador do Mupe, organiza símbolos marcantes da Vila Xapinhal |
Marcelo Rocha, coordenador do Mupe, organiza símbolos marcantes da Vila Xapinhal
 
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Por uma cultura descentralizada

A frase em letras pretas na parede branca diz: “As mulheres na época foram as que mais se destacaram na ocupação. Os maridos iam trabalhar, elas ficavam fazendo um cordão, impedindo que a polícia entrasse”. A memória de Dona Lúcia, moradora da Vila Xapinhal, conta parte da história do bairro, na região do Sítio Cercado, que foi formado a partir de uma ocupação irregular no ano de 1988. O depoimento dela é uma das curiosidades que podem ser vistas no Museu de Periferia (Mupe), inaugurado a pouco mais de uma semana em Curitiba, e que retrata a trajetória do bairro e de um problema que continua atingindo cidades de diversos portes: a luta por moradia.

Pode causar estranhamento o fato de um museu estar localizado em um bairro distante, com problemas sociais e de infraestrutura, já que estamos acostumados a ver as manifestações culturais restritas ao centro da cidade, ou em bairros elitizados. Porém, felizmente, ações em locais carentes aos poucos se multiplicam, graças ao trabalho da própria comunidade. No caso do Mupe, surgido por meio do programa Pontos de Memória, do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) – que, junto com o Ministério da Cultura e o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci/MJ), apoia ações de memória em comunidades populares –, o papel do coordenador Marcelo Souza Rocha foi fundamental.

Para conseguir recolher os materiais necessários, algo feito em cafés na comunidade, e organizar o local, que está instalado na Associação de Moradores, ele deixou de lado projetos pessoais após se encantar com o Museu da Favela, no Rio de Janeiro. Marcelo montou no Mupe uma exposição que contextualiza a região do Sítio Cercado, desde a vocação rural do bairro e suas primeiras famílias, passando pelos movimentos sociais até a atualidade, com melhor urbanização.

Segundo Marcelo, a visitação ainda é “bem pingada, que nem nos outros museus”, mas algumas transformações já ocorreram na rua, com moradores que pintaram as casas ao ver o projeto dar certo, até outros que trouxeram materiais após verem o espaço aberto. “Antes, alguns desconfiavam. A inquietação inicial se dá com a cultura.” O presidente do Ibram, José do Nascimento Júnior, diz que o órgão divulga na comunidade a importância da memória, mas que construir um museu não é obrigatório. “Percebemos o quanto isso aumenta a autoestima da comunidade e ajuda na integração dentro do contexto da cidade.”

Sala escura

Entre o trabalho de presidente da Associação de Moradores da Vila das Torres e sua eletrônica, Marcos Erimberto dos Santos, o Marcão, arranja tempo para assistir aos filmes que ainda não viu. Sua paixão por documentários e filmes clássicos fez com que ele organizasse sessões de cinema para crianças da região dentro do Centro de Apoio à Integração Comunitária (Caico), onde, por quatro anos, fez “vaquinha” para pagar o aluguel. Atualmente, Marcão está mais aliviado, já que ganharam um espaço gratuito dentro da Pastoral Operária – juntar algum trocado, ou tirar do próprio bolso só é necessário para o lanche que é fornecido. “Pegamos um milho para pipoca com um, pão em algum comércio local, é assim que vamos fazendo, já que o lanche também é um chamariz”, conta. As sessões semanais, sempre às sextas-feiras a partir das 18h30, têm por objetivo tirar a criança da rua e desenvolver uma consciência, sobretudo ambiental, tema presente na maior parte dos filmes exibidos, que são sempre educativos. “Pode ser uma comédia, mas sempre com alguma mensagem importante”, diz Marcão. Alguns reflexos das sessões, além de diversão para a criançada, foram mutirões de plantio de árvores, por exemplo. “Isso desenvolve um sentimento de cuidado na comunidade”, conta.

O artista visual Paulo Cesar Oliveira, que trabalha com grafite e já ministrou diversas oficinas para moradores do bairro onde vive há 30 anos, o Conjunto Oswaldo Cruz 2, na CIC, acredita que ações culturais nos bairros permitem que as pessoas se sintam parte da sociedade. “Se você permite reunir meninos para pintar um muro todos juntos, você desperta neles um sentimento de que são capazes de fazer aquilo e muitas outras coisas. Eles encontram seu papel.”

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