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Preparando o terreno para novos artistas

Projeto sociocultural oferece aulas de música para crianças e jovens no Boqueirão e na Vila Sabará, na Cidade Industrial de Curitiba

  • Rafael Rodrigues Costa
O professor Cassiano Wogel dá aula de violão para uma turma no Centro de Assistência Social Divina Misericórdia |
O professor Cassiano Wogel dá aula de violão para uma turma no Centro de Assistência Social Divina Misericórdia
 
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Preparando o terreno para novos artistas

Algumas lições ficaram claras para a freira Anete Giordani em seus 12 anos de residência na Vila Sabará, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Primeiro, qualquer projeto de assistência social que pretenda reverter a vulnerabilidade social do local tem de responder às demandas da comunidade, e não o de seus realizadores (são iniciativas que a religiosa chama de “projetos de gabinete”).

Depois, o enfrentamento das drogas, que Anete viu causarem em torno de 40 assassinatos de adolescentes na vila entre 2000 e 2002, deve ser feito com atividades “tão ou mais prazerosas” que a própria droga.

Foi percebendo o interesse e a aptidão das crianças e jovens da região pelo hip-hop que a religiosa, que é gestora da ONG de projetos socioeducativos Centro de Assistência Social Divina Misericórdia (CASDM), viu na educação musical uma aliada importante.

“A música e o canto são grandes ferramentas no desenvolvimento nas potencialidades e um meio de exteriorizar conteúdos particulares de cada pessoa”, explica Anete.

A ideia acabou se realizando em uma parceria com o Instituto ConSer, que propôs o Espaço Cidadão Musical.

Em atividade desde abril, o projeto sociocultural atende 480 crianças dos bairros Boqueirão e Sabará com aulas de canto, flauta, violão e musicalização infantil, além de sessões de musicoterapia.

A meta é aumentar o número para 900 crianças e jovens em vulnerabilidade social e ampliar as modalidades com a captação do valor integral do projeto, que foi aprovado pela Lei Rouanet (esta primeira fase funcionou com 25% do valor necessário, patrocinado principalmente pela Volvo).

“A música trabalha essa dimensão humana. Enquanto o esporte, que é bem forte na CASDM, trabalha a socialização, a cooperação, e o lado físico, a música entra na parte do sensível e da cognição: concentração, atenção e sensibilização do humano”, explica Juliane Fiorezi, do Instituto ConSer.

Juliane, que é formada em musicoterapia e estuda planejamento estratégico aplicado a projetos de cultura, acredita que o Espaço Cidadão Musical tem potencial para se tornar um programa completo, que trabalhe para o desenvolvimento da cadeia completa da música – dos artistas aos técnicos de som, a exemplo de ONGs como o Grupo Cultural AfroReggae (RJ) e o Instituto Baccarelli (SP).

“Esses jovens têm força e potencial para esse setor cultural, que está carente desses profissionais”, explica.

Maria Sueli dos Santos, auxiliar de serviços gerais e moradora do Sabará, é mãe de uma dessas artistas possíveis. Ela garante que a filha, Daiane, de 10 anos, já tinha era chamada de cantora desde a creche. “Não investimos para ela fazer aulas de música em outro lugar porque não tivemos condições de pagar, nem de levá-la até esses locais”, conta.

Futuro

O interesse da filha desde o início das aulas faz os pais pensarem que a música é uma boa opção para o futuro. “É o que a gente está querendo, porque é algo que ela gosta desde pequena”, diz.

Até lá, o caminho é longo. “A própria educação musical tem que repensar os objetivos. Às vezes o objetivo primário nem é a música, mas os alunos perceberem as coisas por meio da música”, explica o professor de violão e formando de musicoterapia Cassiano Wogel.

A professora da Faculdade de Artes do Paraná (FAP) Carmen Spanhol, uma das principais incentivadoras e articuladoras do projeto, resume a importância da empreitada, independentemente do futuro profissional destes alunos.

“Trata-se de um olhar para a questão integral do ser humano”, explica. “Procuramos entender como é esse sujeito, quais são as dificuldades que ele enfrenta, como se pode trabalhar esse aluno e resgatar sua cidadania através da música.”

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