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Comportamento

Quando as máquinas dizem o que importa

Texto publicado na edição impressa de 03 de março de 2012

Você está trocando mensagens com amigos e, para sua surpresa, os anúncios publicitários que surgem no canto da tela têm a ver com a conversa. Entra em um site de livraria e recebe sugestões que estão relacionadas àquilo que andou lendo e pesquisando nos últimos tempos. Outro site diz que, se você gostou do último disco de Chico Buarque, talvez também vá gostar do novo do Lenine. Tudo automático. É a internet, que sabe cada vez mais sobre você, e quer mostrar a coisa certa na hora certa.

Essa personalização é possível graças aos agentes inteligentes – softwares que reconhecem os padrões de comportamento dos usuários e se adaptam ao feed-back que recebem da massa de internautas conectados. São os chamados sistemas de recomendação, que cruzam dados que não param de chegar e conseguem resultados cada vez mais sofisticados. Os portais de busca também se utilizam deles para ficarem mais eficientes, e assim facilitarem a navegação no dilúvio informativo da internet.

Mas a presença desses sistemas em um número crescente de serviços levanta questões importantes para pensadores da era digital. A máquina filtra informações e torna invisível o que, supostamente, não interessa aos usuários. Além de armazenar informações pessoais à revelia das pessoas – que podem prejudicá-las no futuro –, não seria isso muita responsabilidade para robozinhos incapazes de demonstrar bom senso?

Mediação que isola

“Essas recomendações são interessantes, mas acabam com uma possibilidade que é a grande riqueza das redes e do ciberespaço: o encontro de coisas que não se está procurando necessariamente”, diz o professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, André Lemos, que desde 2000 alerta para o fechamento da web por iniciativas como a dos portais, que “aprisionam” os usuários com sua diversidade de serviços, e os desencoraja a “flanar” pela rede.

“É a experiência da livraria e da biblioteca. Você vai procurar um livro específico. Mas o interessante é passear pelas prateleiras, ver algo que não estava procurando e se surpreender. A internet seria uma livraria gigantesca, onde você encontra coisas as mais diferentes possíveis. Mas chegamos a uma era em que essas indicações personalizadas podem minar, no futuro, essa possibilidade de encontrar coisas ao acaso”, diz Lemos.

Com softwares dizendo o que é relevante, a vantagem da web em relação ao modelo de mídia anterior – em que os responsáveis por fazer a curadoria da informação eram os meios de comunicação de massa – fica em xeque. “Não estou dizendo que a diversidade vai acabar, prevendo um mundo cinza e homogêneo”, diz Lemos. “A questão é o uso que se vai fazer disso. A potência transformadora está sempre aí.”

“Somos artificiais por natureza”

Há culto à tecnologia em toda parte. Seja pela sedução de produtos sempre mais mágicos que seus anteriores, seja pelas promessas da ciência, que chegam a falar em imortalidade. Mas basta lembrar de famosas distopias do cinema, como o clássico Metrópolis (1927), passar pelos robôs malucos de 2001 – Uma Odisseia no Espaço e Blade Runner – O Caçador de Androides e chegar à febre da trilogia Matrix para atestar a relação de medo e fascínio que habita o imaginário coletivo e que, volta e meia, surge no cotidiano da vida nos anos 2010.

Gente que teve de subir e descer muita escada atrás de livros em bibliotecas anda preocupada com o comportamento aéreo de jovens que têm, na palma da mão, ferramentas poderosas como o Google. Cientistas divididos entre otimismo e pessimismo: o hipertexto instiga a inteligência ao permitir uma linguagem multilinear, como afirmam entusiastas na linha do filósofo francês Pierre Lévy? Ou enfraquece processos cognitivos e nos tornam mais superficiais, como sugere Nicholas Carr? Por via das dúvidas, há quem prefira temer a tecnologia.

“Isso existe desde a antiguidade”, diz o professor da Faculdade de Comunicação da UFBA e pesquisador do CNPq André Lemos. De acordo com o acadêmico, a relação conflituosa existe desde os tempos de Aristóteles e Platão. “Nos mitos, a técnica era sempre ensinada pelos deuses. Eles ensinavam a usar as tecnologias como a agricultura, o fogo. Mas sempre que alguém tentava brincar de deus, vinha uma punição”, explica. “Essa relação ambígua continua hoje. E os objetos continuam sendo mágicos. Usamos computadores, mas geralmente não temos ideia de como funcionam”, diz.

Embora a própria tecnologia da escrita possa ser considerada originária de alterações nas capacidades mentais, como o pensamento racional e analítico, o e-book já é visto com desconfiança em relação ao livro de papel, mesmo que as únicas mudanças digam respeito à mobilidade. “O medo e o fascínio são mesmo estruturantes da nossa relação”, diz Lemos.

Para alguns, a solução parece ser o afastamento. Mas, de acordo com Lemos, não faz sentido fugir da técnica. “Não há o homem sem essa dimensão”, diz o pesquisador. “O primeiro da nossa espécie foi o Homo habilis. A manipulação do artefato mudou o córtex cerebral. Transformamos a natureza para habitar. A dependência da técnica é constitutiva do homem. O que acontece é que estamos vivendo o ápice dessa transformação”, diz Lemos.

Risco

Por outro lado, o risco da dependência realmente existe. Há uma sobrecarga de novos dispositivos sendo lançados a todo momento, e eles estão cada vez mais presentes no cotidiano. O ritmo e a quantidade em que surgem novas informações nestes aparelhinhos têm contornos verdadeiramente neuróticos. E, embora seja interessante que a dependência hoje seja em relação a dispositivos de comunicação – o que remete a uma dimensão social, ao contrário da lógica produtiva dos produtos de tempos passados –, é preciso maneirar, de acordo com Lemos. “Não podemos ficar reféns dos artefatos”, diz.

“Nosso perigo não é a técnica. O que temos de fazer hoje é achar o ponto de recuo – nos desconectarmos, pensarmos criticamente. O que vai definir o sujeito não é o seu afastamento dos objetos para achar a pureza interior. Mas sim, como é que nos vinculamos às coisas” diz o pesquisador. “A forma como nos relacionamos com estas tecnologias é o que define a nossa dignidade.”

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