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Entrevista

“Somos todos meio ridículos”

  • Irinêo Baptista Netto
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TOPO

“Somos todos meio ridículos”

Entrevista com Sérgio Rodrigues, escritor.

“Todos” no título acima se refere ao escritores brasileiros. E o contexto em que ele surgiu tem a ver com Sobrescritos – 40 Histórias de Escritores, Excretores e Outros Insensatos, antologia de contos que Sérgio Rodrigues lança pela Arquipélago Editorial.

O livro colige histórias publicadas pela primeira vez no blog sobre literatura Todoprosa, um dos mais conhecidos da área no Brasil. Criado em 2006 para o portal iG, ele mistura notícias com textos de ficção e é editado por Rodrigues, também autor dos romances Elza, a Garota (Nova Fronteira) e As Sementes de Flower­­ville (Objetiva).

Os contos de Sobrescritos falam de tipos literários. Embora os personagens não sejam transcrições disfarçadas de pessoas que andam por aí, é fácil encaixar estas nas figuras que aparecem no livro – da blogueira ao escritor gaúcho. De modo geral, Rodrigues é impiedoso.

“Sempre achei que o pessimista tem a mania irritante de estar sempre certo, principalmente quando consegue juntar o olhar crítico com o senso de humor. Isso é fundamental: rir das desgraças e de si mesmo. Eu não me excluo da gozação que o livro apronta para cima da nossa vida literária. Somos todos meio ridículos”, diz o escritor. E ele continua, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Sobrescritos compila textos publicados no blog Todoprosa. O que o levou a publicá-los em papel? Depois de lançados na internet, qual é a importância de vê-los num formato físico e não virtual?

A questão não é físico x virtual, mas livro fechado x fluxo infinito. Sobrescritos poderia muito bem ser um livro digital e não de papel, e provavelmente seria mesmo, se fosse lançado daqui a alguns anos. O fundamental é que, reunidos, os contos ficam muito mais fortes. Formam um painel que não existiria se eles permanecessem espalhados por três anos e meio de arquivo de blog, recordados vagamente por um ou outro leitor, misturados com milhares de posts perecíveis. A literatura merece mais. Quem aposta, como muita gente aposta hoje, que seu futuro é esse mesmo, que os textos autorais serão só fragmentos numa grande narrativa coletiva em forma de rede social, deixa de levar em conta o poder do livro. O poder do livro não vem do papel e vai sobreviver a ele.

Nos contos, você faz um retrato implacável da cena literária brasileira, com vários personagens ridículos e outros simplesmente tristes. Essa visão realista (pessimista?) do livro é, de alguma forma, também a sua?

De alguma forma, não: de todas as formas. O livro reflete a minha visão até na cor da capa. Sempre achei que o pessimista tem a mania irritante de estar sempre certo, principalmente quando consegue juntar o olhar crítico com o senso de humor. Isso é fundamental: rir das desgraças e de si mesmo. Eu não me excluo da gozação que o livro apronta para cima da nossa vida literária. Somos todos meio ridículos.

Como você descreveria a cena literária no país?

Eu não descreveria a cena literária do país. Preferi outros registros: sátira, alegoria, ironia, sem esquecer aquela “boa dosagem de lirismo” que, como diz a canção do Chico e do Ruy Guerra, todos nós herdamos no sangue lusitano. O que eu tenho a dizer sobre o tema está nos contos.

Um dos textos tem a forma de uma questão objetiva, como a de uma avaliação. A pergunta é “Qual é o maior problema da literatura brasileira?”. Correndo o risco de você me mandar ler um livro e não encher o saco, proponho outra pergunta: qual é a maior qualidade da literatura brasileira (atual)?

Imagino que seja a quantidade de pessoas escrevendo. A vontade de fazer é muito grande.

O Todoprosa é talvez a maior referência de blog literário no país. Como você chegou ao formato que ele tem hoje, misturando textos de ficção a resenhas, comentários e até curiosidades etimológicas?

O formato não mudou muito desde a estreia do blog, em maio de 2006. Como nasceu dentro do NoMínimo, um site de informação e opinião cheio de grandes jornalistas, o Todoprosa sempre teve um compromisso jornalístico. Mesmo os contos, quando começaram a aparecer, surgiram focados no tema e cumprindo uma função meio documental, se entendermos a palavra jornalismo num sentido mais alargado de crônica de uma época. Esse olhar “para fora” acabou sendo muito útil ao diferenciar o Todoprosa no oceano de umbigos que caracteriza a blogosfera literária, com honrosas - mas não tão numerosas - exceções.

Quais são os blogs que você lê com frequência?

Não sou um típico leitor de blogs. Em busca de informação sobre literatura, acabo frequentando mais assiduamente endereços mais estruturados, revistas e jornais, tanto de papel quanto eletrônicos. Mas estou sempre visitando blogs como o The Elegant Variation, o do Michel Laub, o Gymnopedies, muitos outros.

Você já escreveu contos e romances. Na sua opinião, quais são os maiores desafios de cada um dos dois gêneros?

Fico com aquela manjada distinção do Cortázar, a de que o romance vence por pontos e o conto, por nocaute. Faz sentido. Dito isso, não concordo com quem afirma que o conto é um gênero mais difícil. Para mim nunca foi. O fôlego exigido pela narrativa longa foi algo que tive que desenvolver a duras penas, enquanto a medida do conto sempre foi mais natural.

Há quem defenda o conto como o gênero da nossa época porque pode ser consumido de maneira rápida e em grande quantidade. Você concorda com essa ideia?

Não. O conto é um gênero nobre que atravessou e provavelmente continuará a atravessar épocas, mas não acho que seja especialmente indicado para o momento atual. Desconfio da identificação automática entre a velocidade do mundo e o conto, entre a falta de tempo e a narrativa curta. Esse raciocínio deixa de levar em conta o papel da narrativa como santuário e as pessoas que, ao ler ficção, querem justamente fugir dessa tirania cada vez maior do tempo.

É muito raro encontrar livros de contos nas listas de mais vendidos (quando há, eles falam de vampiros jovens etc.). Você tem alguma teoria sobre a impopularidade dos contos?

Acho que o romance é simplesmente um melhor produto editorial. A imensa maioria dos compradores de livros não se preocupa com literatura, quer apenas mergulhar numa história, e encontra no romance um mergulho mais longo e mais gratificante. Os contos exigem um leitor mais sofisticado que não existe por aí em número condizente com as listas de best-sellers.

Serviço:

Sobrescritos – 40 Histórias de Escritores, Excretores e Outros Insensatos, de Sérgio Rodrigues. Arquipélago, 152 págs., R$ 25.

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