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Peter Brook, o diretor do futuro

Relançamento do clássico “O Espaço Vazio” mostra como o britânico foi pioneiro em sua visão do teatro total

  • Helena Carnieri
Inovação: encenação de “Mahabaratha”, peça de 1985, usou convenções minimalistas que fariam escola. | Daniel Cande/Wikimedia Commons
Inovação: encenação de “Mahabaratha”, peça de 1985, usou convenções minimalistas que fariam escola. Daniel Cande/Wikimedia Commons
 
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Em vários trechos de “O Espaço Vazio” (1968), que sai em nova edição pela Apicuri com boa tradução de Roberto Leal Ferreira, Peter Brook manifesta o desejo de que a obra não se tornasse um manual para as pessoas do teatro futuro. Condizente com seu conceito de teatro vivo, ele prega que diretores, atores e técnicos reiventem sua arte constantemente, sem se ater a normas pré-fixadas.

Mas, como ele mesmo já imaginava, o livro se tornou um marco para quem está disposto a ousar no palco. Junto a predecessores como Antonin Artaud e outros pioneiros, o diretor ajudou a desenrijecer o teatro.

O título faz pensar no “menos é mais”: saem as cortinas pesadas de veludo, as coxias-esconderijo, a necessidade de fingir que o que acontece no palco é real. Entram convenções minimalistas, como uma rajada de flechas para simbolizar uma batalha (como acontece em seu “Mahabharata”, de 1985) e palcos com espaço para criar. Sua abordagem do épico indiano o inscreveu também como um criador transcultural, transportando com frequência Shakespeare, sua especialidade desde os tempos da Royal Company, para outros contextos. Em 1970, seu “Sonho de uma Noite de Verão” marcou época pelo cenário limpo, que privilegiava a presença dos próprios atores em cena. No prefácio desta edição, Gerald Thomas conta a experiência de assistir à peça em Londres.

Brook veio ao Brasil várias vezes, sempre indo de São Paulo a Porto Alegre e “pulando” Curitiba, lamentavelmente. A vantagem é que continua entre nós, sendo ele também uma pessoa do “teatro futuro”, aos 90 anos: ainda no ano passado veio a São Paulo e Rio sua nova versão do conto africano “O Terno”.

“O Espaço Vazio” continua a ensinar, dividido em quatro partes. ‘O Teatro Moribundo’ fala daquilo que não está dando certo no palco (e já não estava em 1968), como buscar em textos antigos uma “representação original” ou “a intenção do dramaturgo”. Para Brook, o melhor dramaturgo é aquele que acrescenta menos rubricas, dando espaço à criação dos outros.

‘O Teatro Sagrado’ fala da necessidade por rituais contemporâneos, como o próprio ato de ir a uma peça de teatro. Mas a relação que o público terá com a obra pode variar numa escala de total engajamento a total apatia, dependendo do trabalho realizado. As qualidades das companhias populares são apresentadas em ‘O Teatro Rústico’, bem como as vantagens de uma plateia desarmada. Brook relembra a perfeita sintonia encontrada pela encenação de “Esperando Godot” entre presos de San Quentin em 1957 (feita por um grupo de atores), algo que não ocorrera entre a crítica especializada e os habitués dos teatros de classe alta.

“Hoje o teatro da dúvida, do constrangimento, da angústia e do alarme parece mais verídico que o teatro de nobres objetivos”, escreve. Como fazedor experiente de teatro, ele cobre desde a seleção de elencos até a escolha de figurinos e as circulações de espetáculos: um panorama de suas crenças na época.

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