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Tevê sem cores

A TV no Armário mostra o despreparo das emissoras brasileiras nas questões de gênero

  • Luigi Poniwass
Dicésar e Marcelo Dourado: “conciliação” depois de festival de absurdos na décima edição do Big Brother Brasil |
Dicésar e Marcelo Dourado: “conciliação” depois de festival de absurdos na décima edição do Big Brother Brasil
 
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Tevê sem cores

À primeira vista, parece que nunca a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) esteve tão bem representada na telinha. Em praticamente todas as novelas há pelo menos um personagem homossexual – quase sempre recebido com simpatia pelo público –, assim como nos humorísticos e até nos reality shows; no jornalismo, eventos como a Parada Gay de São Paulo (que no início do mês reuniu mais de 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista) ganham ampla cobertura da mídia, e os representantes do movimento são fontes recorrentes para entrevistas.

O que poderia parecer um sinal de tolerância e simpatia, quando observado mais atentamente, porém, se revela mais um instrumento para garantir e perpetuar a dominação da maioria heterossexual sobre quem não se encaixa nesse modelo – camuflado pelo verniz do politicamente correto. É o que demonstra o jornalista Irineu Ramos Ribeiro no livro A TV no Armário (134 páginas, R$ 31,90), lançado no início do mês pela Edições GLS.

Versão ampliada da dissertação de mestrado em Comu­nica­ção pela Universidade Paulista (Unip), defendida pelo autor em 2008, o livro parte de um minucioso levantamento da cobertura jornalística da edição de 2007 da Parada do Orgulho Gay de São Paulo na tevê aberta (mais os canais pagos Globo News e Band News) e se estende à abordagem das diferenças de gênero em programas de humor, entretenimento e nas telenovelas.

Em dois anos de pesquisa, balizada pelo pensamento de Michel Foucault e pela teoria queer (do “estranhamento”, descrita na livro), Ribeiro chegou à conclusão de que, apesar de todo o discurso politicamente correto e do alardeado respeito à diversidade, a televisão continua desqualificando a comunidade LGBT, ao mostrar gays, lésbicas, travestis ou transgêneros de forma caricata, superficial, deselegante e/ou preconceituosa.

E o pior é que, aparentemente, nada mudou desde a gestação da obra. Se em 2007 a cobertura jornalística da Parada Gay de São Paulo – descrita por Ribeiro no livro – já foi lamentável, a de 2010 foi “medonha”: “A tevê aberta se limitou a mostrar uma caricatura do gay: só apareciam drag queens e travestis fazendo caretas”, comentou o autor em entrevista à Gazeta do Povo. “Essa abordagem caricata é uma forma de dominação. Mostrar um gay exatamente igual a mim incomoda as pessoas, por isso eu preciso desqualificá-lo.”

Sob Nova Direção (Globo) e Beija Sapo (MTV), dois dos programas analisados e que também escorregaram feio no tratamento destinado aos homossexuais, não são mais exibidos. Assim como a novela América, que segundo Ribeiro apelou para o sentimentalismo e perdeu a chance de mostrar um romance gay com mais naturalidade. Mas os deslizes continuam ocorrendo em diversas outras atrações, incluindo a última edição do Big Brother Brasil, apelidada de “BBB da diversidade” por ter três homossexuais entre os participantes. Entretanto, quem faturou o prêmio de US$ 1,5 milhão foi o “machão” Marcelo Dourado, que diversas vezes teve um comportamento homofóbico.

“A ideia em si, de colocar três gays no BBB, foi muito interessante”, analisa Ribeiro. “Mas eles foram podados o tempo todo. Como naquele episódio da mesa, quando o Dourado levantou e disse que ia vomitar porque o Serginho estava falando de homem. Na sequência, ficou acertado que Serginho e Dicésar não falariam mais de homem à mesa, e em contrapartida Marcelo Dourado deixaria de arrotar... percebe o absurdo? Associar uma questão afetiva dos gays com algo tão repugnante quanto um arroto?”

Um oásis de tolerância e respeito com o gay na mídia é representado pelo jornalista Caco Barcellos, da Rede Globo – uma edição do seu Profissão: Repórter foi o único programa elogiado no livro de Ribeiro. “É um profissional a ser imitado pelos colegas, pela abordagem séria, criativa e respeitosa”, resume o autor. “E tem outra grande qualidade: deixa a fonte falar, não sai com a pauta fechada da redação, como mostrou num programa recente sobre as famílias de homossexuais.”

Segundo Irineu Ribeiro, a televisão ainda tem um longo caminho a percorrer, se quiser retratar a diversidade sexual de forma mais adequada. “Meu objetivo com o livro foi levantar a discussão, questionar a abordagem feita pela mídia. Repensar essa abordagem precisa ser um exercício diário, que pode começar escolhendo-se melhor os profissionais que vão falar de sexualidade na televisão.”

Serviço

A TV no Armário. Edições GLS, 134 páginas, R$ 31,90.

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