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‘The Young Pope’ é uma das séries mais perturbadoras dos últimos anos

Jude Law interpreta um cardeal de sangue frio que é escolhido para ser o próximo Papa

  • Hank Stuever The Washington Post
Jude Law interpreta o jovem cardeal escolhido para ser o próximo Papa. | Divulgação
Jude Law interpreta o jovem cardeal escolhido para ser o próximo Papa. Divulgação
 
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Ao mesmo tempo assombrosa e cativante, a nova minissérie da HBO, “The Young Pope” (que estreou semana passada nos Estados Unidos e não tem previsão de estreia no Brasil) está entre as séries mais estranhas e perturbadoras que eu já resenhei nos últimos anos – a história, contada devagar, de um cardeal de sangue frio dos EUA, chamado Lenny Belardo (Jude Law), que é escolhido para ser o próximo Papa, apesar de ainda ter apenas os seus 40 anos.

Assumindo o nome de Pio XIII, Lenny imediatamente se transforma num pontífice dotado de caprichos maliciosos, que deixa perplexos os seus colegas no Colégio de Cardeais e causa medo em todo o Vaticano quanto às suas verdadeiras intenções – o que acaba alarmando até mesmo a cozinheira do Papa, quando ele recusa grosseiramente seu vasto buffet de café da manhã em seu primeiro dia, pedindo, em vez disso, que lhe seja servido apenas uma Cherry Coke Zero a cada manhã e nada mais.

Descartando sistemas e protocolos tradicionais que mantinham o Vaticano e toda a Igreja Católica Apostólica Romana em pé, o Papa Pio parece determinado a se isolar e a isolar a Santa Sé de todo o mundo, tudo em nome da glória de Deus.

Fazendo referência a artistas de sua época que eram reclusos ou utilizavam pseudônimos (de J. D. Salinger ao grafiteiro Banksy) e citando o imenso potencial de marketing do mistério, Pio diz à diretora veterana de comunicação do Vaticano, Sofia Dubois (Cécile de France), que ele deseja nunca mais ser visto em público. Ele não irá posar para fotos, tampouco sua imagem estampará quaisquer souvenirs oficiais. Ele também demite o cardeal encarregado das viagens papais oficiais, com o aviso de que o seu cargo não existe mais, porque o Papa não estará mais viajando. É o mundo que deverá vir até ele.

Em outras palavras: Jesus, que babaca!

Como concebido pelo cineasta italiano Paolo Sorrentino (que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014 por “A Grande Beleza”), é difícil entender o porquê de “The Young Pope” estar aqui e de ser tão imediatamente fascinante, ou o que é que a série está tentando nos dizer sobre a fé e a religião organizada. O primeiro dos cinco episódios disponibilizados para resenha (há 10 episódios ao todo) são deliberadamente lentos. Demora até a quinta hora para os planos de Lenny/Pio começarem a se tornar mais nítidos ou fazerem sentido de um ponto de vista religioso. Apesar do ritmo, a série é uma obra arrepiante, desafiadora e visualmente atordoante.

Silvio Orlando está maravilhoso no papel do Cardeal Angelo Voiello, o secretário de Estado do Vaticano, que é o primeiro a se dar conta de que o Papa Pio tem intenções de romper radicalmente com a tradição. Acaba ficando para Voiello, então, a tarefa de tentar dialogar com esse novato inebriado pelo poder, que, como aprendemos, ganhou a maioria dos votos dos cardeais porque foi visto como uma aposta segura entre um candidato conservador (James Cromwell como o Cardeal Michael Spencer) e a ala mais progressista da Igreja.

Analogia com os EUA

Eu fico relutante atualmente em interpretar qualquer série nova na TV como uma analogia da transição atual de poder nos Estados Unidos, mas é quase impossível assistir a “The Young Pope” sem pensar em outro diletante recém-eleito que zomba da precedência institucional e expertise a favor de uma reordenação radical do poder. Para sublinhar essa desconfiança em relação ao sistema, Pio convoca imediatamente a sua aliada mais antiga: a irmã Mary (Diane Keaton), uma freira americana que o criou num orfanato depois que os seus pais o abandonaram quando era pequeno.

A irmã Mary é tão enigmática quando o próprio Papa. Agora presente em todas as suas reuniões como sua conselheira pessoal, ela brevemente se torna, em alguma medida, a sua própria Kellyanne Conway [a gerente de campanha de Trump], enviada para lidar com uma conferência com a mídia após o primeiro e talvez único discurso do Papa às massas reunidas na Praça de São Pedro. Realizada à noite para evitar que os fotógrafos da imprensa consigam uma boa foto do Papa, o discurso logo se torna um sermão ardido sobre a fé. Em vez de elucidar ou suavizar as palavras do Papa, a irmã Mary lê uma declaração dele que enfatiza a infalibilidade de Vossa Santidade e sua indiferença a qualquer mero mortal que possa querer desafiá-lo ou responder-lhe.

Fábula sobre o poder

“The Young Pope”, no geral, passa a impressão de ser uma fábula implausível sobre o poder absoluto, salpicada de indicações de uma certa divindade verdadeira sob o aspecto cruel de Pio. Ele pode ter razão em crer-se infinitamente mais qualificado do que os seus antecessores. Jude Law parece deliciar-se em interpretar a natureza inescrutável do seu personagem, sobretudo quando se trata da sagacidade imprevisível do Papa e sua arrogância marcante.

“Eu amo a Deus, porque é tão doloroso amar seres humanos”, ele diz em certo ponto. “Eu amo a um Deus que nunca me abandona e que sempre me abandona. Deus, a ausência de Deus, sempre reafirmadora e definitiva. Eu renuncio aos homens, às mulheres, meus companheiros, porque não quero sofrer”.

A série se refestela no funcionamento interno sereno, porém sinistro, do Vaticano. Voiello e alguns outros cardeais conspiram para retirar Pio, escolhendo uma página mais previsível do seu livro de estratégias: causar um escândalo sexual, convencendo a esposa, bela e infeliz, de um guarda suíço (Ludivine Sagnier) para seduzir o Papa (quem tiver interesse em antigas teorias da conspiração do Vaticano, que ainda se lembram do pontificado misteriosamente breve do Papa João Paulo I em 1978, podem se perguntar porque é que os cardeais não visaram uma solução mais permanente).

“The Young Pope” fica realmente aterrorizante lá pela metade dos episódios, depois que os cardeais entram no jogo. Coberto da cabeça aos pés nas vestimentas tradicionais mais ornamentadas, Pio informa que os gestos bonzinhos de evangelização e ecumenismo da Igreja pertencem ao passado. Muito será exigido dos católicos que desejarem continuar na Igreja. “Eu quero histórias de amor. Quero fanáticos por Deus, porque o fanatismo é amor”, ele grita. “A liturgia não será mais envolvimento social, mas trabalho duro. E o pecado não será mais perdoado à vontade”.

Mas esperem, tem mais: “A cortesia e boas maneiras não são coisas dos homens de Deus”, ele diz aos cardeais. “Não há nada para além da obediência a Pio XIII – nada exceto o inferno. Um inferno que vocês podem não conhecer, mas que eu conheço, porque eu o construí”.

Sorrentino atrai o espectador engenhosamente. Assim como os cardeais, você pode tentar resistir e ainda assim cair nos encantos desse Papa. É uma posição assustadora de se estar.

Hank Stuever é o crítico de TV do Washington Post desde 2009. Ele entrou para o jornal como escritor para a seção de estilo, onde faz cobertura de uma variedade de temas de cultura popular (e impopular) em toda a nação.

Tradução: Adriano Scandolara

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