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Um gauche na vida

Fã de Garrincha, imitador de Sílvio Santos e proprietário d’O Torto Bar, point pop de Curitiba, Arlindo Ventura teve uma vida difícil, mas hoje é um dos maiores agitadores culturais da cidade

“Deus escreve certo por pernas tortas.” Arlindo Ventura, o Magrão, dono d’O Torto Bar |
“Deus escreve certo por pernas tortas.” Arlindo Ventura, o Magrão, dono d’O Torto Bar
 
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Em uma tarde de segunda-feira, sob um sol daqueles, ele chega de táxi, gesticulando com o motorista, enquanto tenta segurar as muitas folhas – notas fiscais, documentos, rascunhos – que quase voam quando desembarca do carro laranja em frente d’O Torto Bar, na esquina boêmia formada pelo encontro das ruas Paula Gomes e Duque de Caxias, em Curitiba. “Já estou pensando no ano que vem”, diz Arlindo Ventura, o Magrão, referindo-se à Quadra Cultural, evento de sucesso que chegou à sua quarta edição no último dia 25 de fevereiro e trouxe o sambista paulista Germano Mathias como atração principal.

O dono do bar que homenageia Garrincha, o anjo de pernas tortas, é um ser astuto, inquieto e um dos maiores agitadores dessa Curitiba contemporânea, que se acostuma aos poucos a sair da toca e a frequentar eventos a céu aberto, seja no craquento São Francisco ou no cool Batel Soho.

“Entra, entra. Hoje vou abrir só mais tarde”, avisa Magrão, que chega perto de uma grande frigideira, no cantinho do bar. “Quer um bolinho de carne? É receita de vó.”

Já cercados pelos cerca de 250 retratos de Garrincha – Magrão é um dos maiores colecionadores de artigos do craque do Botafogo e já fez diversas exposições pelo país –, Arlindo Ventura começa a contar sua história, marcada por vitórias e derrotas, como se fosse um torneio de futebol.

“Nasci em um vilarejo em Mauá, interior de São Paulo. Vivia entre vacas, galinhas. Tive uma infância muito bonita, mas tudo foi precoce porque de repente o lugar virou uma Cidade de Deus. A violência estava sempre por perto”, lembra Arlindo, 38 anos.

Caçula de seis irmãos, ele viu a mãe morrer em 1986, mesmo ano em que Zico perdeu o fatídico pênalti no jogo contra a França, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo do México. Tristeza. O pai estava vivo, mas longe. “A base da minha família ficou comprometida. Mas levei sorte por encontrar algumas pessoas na hora certa.”

Havaianas

Os truques que faz no balcão, as brincadeiras que às vezes acontecem no Torto – ele imita Sílvio Santos como poucos – Magrão aprendeu há muito. Sua relação com bares é íntima desde a adolescência. Depois de os irmãos também se afastarem, Magrão foi acolhido por João e Sérgio, que tocavam o bar Joser, ainda em Mauá. O nome não era lá muito criativo, mas o estabelecimento se transformou em sua nova casa. “Vi muita coisa lá, mas tinha medo. Acho isso importante, ter medo de algumas coisas porque quem é corajoso demais acaba se expondo”, reflete Arlindo, cruzando as pernas e mostrando suas inseparáveis havaianas azuis.

Por muito tempo, o Joser foi sua única fonte de informação. Magrão já tinha largado os estudos, mas, no bar, falavam sobre um livro ou outro. E ele ali, atento. “Li Jorge Amado, Monteiro Lobato e alguns revolucionários, porque pensava que podia mudar o mundo. Mas aí o tempo me mostrou que não posso. Só posso dar uma contribuição legal”.

Escort amarelo

Arlindo chegou a Curitiba pouco antes da Copa de 1990, já que um dos seus irmãos estava na cidade. Ambos buscavam fazer um pé de meia. “Senti uma frieza, não conseguia me identificar. Mas depois descobri que era meu dever me adaptar”, diz.

Então, Magrão se apaixonou por uma moça que rodava pela cidade com um Escort XR-3 amarelo, conversível. Um must para a época. “Sou pobre, mas tenho bom gosto”, brinca Arlindo, que ainda vivia na pindaíba. “Por alguns dias dormi na lanchonete onde trabalhava, no chão mesmo. Fazia bicos em bares, trabalhei em estacionamento, vendia pipoca no Largo da Ordem”. Chegava a Copa de 1994, e o Brasil seria campeão com aquele time sem brilho, mas eficiente.

Mesmo aos trancos e barrancos, Magrão conseguiu economizar para tentar realizar dois sonhos: conhecer o Museu do Louvre, em Paris, e trabalhar na Inglaterra. Morou 30 dias na França, em um quarto avec douche. Almoçava em um “RU” cuja refeição custava 2,60 euros, e achou o Louvre o máximo. Mas foi deportado quando tentou entrar na terra da Rainha. Por essa época, Ronaldinho Gaúcho, quase do meio de campo, batia a falta que dava a vitória ao Brasil por 2 a 1, justamente contra a Inglaterra, pelas quar­­tas de final da Copa do Mundo de 2002.

Pernas tortas

O bar do Torto foi inaugurado no dia 5 de fevereiro de 2003. O ponto passou de mão em mão ate chegar às de Arlindo, que só queria “pagar as contas e fazer o que gosta”. Dormiu no próprio bar por três anos e meio, em um colchãozinho. Até que o jogo começou a virar.

Hoje Arlindo Ventura é presidente do Conselho de Segurança do bairro São Francisco, e o Bar do Torto é pop. Em algumas sextas-feiras, há tanta gente reunida ali que os carros penam para passar pela Rua Paula Gomes. Alguns vizinhos até reclamam do barulho. E , no bar, não há nada além de Garrincha, cerveja, bolinho de carne e soja e empadinhas.

Magrão não é casado, mas de vez em quando “alguém tropeça nele”. Também diz que bebe uma dose ou outra, “para relaxar”. Venera Garrincha por causa de sua humildade e compara inimigos com filhos: “se tenho, não os conheço.” E acredita em Deus, já que ele “escreve certo por pernas tortas”.

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