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Cinema

“Vai doer”

Guto Pasko filma o retorno de Iván Boiko, ucraniano naturalizado brasileiro, à sua aldeia natal, quase 70 anos após ser levado dali pelas tropas nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial

Seu Iván mostra o passaporte com que entrou no Brasil depois de escapar dos nazistas |
Seu Iván mostra o passaporte com que entrou no Brasil depois de escapar dos nazistas
 
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Algum tempo depois de filmar o documentário Made in Ucrânia – Os Ucranianos no Paraná, em 2006, Guto Pasko foi surpreendido pelo encontro com um dos participantes do filme, Iván Boiko, que lhe presenteou com dois caderninhos espirais inteiramente preenchidos com letra caprichada e miúda.

Eram diários escritos em ucraniano sobre os anos terríveis que ele vivenciou desde que foi arrancado de sua casa, na Ucrânia, em 1942, para realizar trabalhos forçados na Alemanha, até o mo­­mento em que chegou ao Brasil com a esposa e a filha recém-nascida, fugindo do degredo na Sibéria. “Minha primeira reação foi não aceitar, mas ele insistiu, me dizendo que precisava confiar aquilo a alguém preocupado em preservar a história daquela etnia no Brasil”, diz.

Seu Iván estava certo. Espan­­tado com o conteúdo dos diários, o cineasta descendente de ucranianos de Prudentópolis se pôs a realizar outro filme, Iván – De Volta Para o Passado, desta vez, com foco exclusivo na trajetória dramática e emocionante que acabava de conhecer. Resolveu, no entanto, inverter a ordem da história e, ao invés de contá-la de forma tradicional, propôs a seu Iván algo inimaginável para ele: retornar à Ucrânia após 68 anos para reencontrar uma de suas duas irmãs.

“Não brinca com isso!”, disse seu Iván diante das câmeras, em uma primeira reação incrédula ao convite. Mas ele logo se decidiria. Ontem à noite, voou com a equipe de Guto Pasko para Kiev, capital ucraniana, a primeira parada de uma viagem de 18 dias de norte a sul do país, que terá como ápice o tão sonhado reencontro com a irmã. “Nos comunicamos por carta, e é sempre uma choradeira de lá e de cá”, conta Iván.

Na última quinta-feira, a repórter da Gazeta do Povo acompanhou as filmagens dos preparativos da viagem, na casa de seu Iván. Lá estava ele, aos 91 anos, animadíssimo diante das câmeras ao receber emocionado o seu primeiro passaporte das mãos de Guto Pasko. Malas arrumadas em cena, como se fosse personagem de um reality show, ele fez uma pausa para contar sua história ao jornal.

Sua única preocupação, conta, é que preparem a irmã, de mais de 80 anos, para o encontro. “Vai doer”, diz ele. De sua parte, sente-se amparado emocionalmente pela equipe e por uma das filhas, que o acompanha na viagem. Ativo, seu Iván já desenhou todo o trajeto que farão pela Ucrânia e os principais pontos de sua aldeia, Koanuchke, na cidade de Berejany, noroeste do país. “Meu sonho é passear por ela para ver o que mudou de 1939 para cá”, diz.

Segunda pátria

Sem recursos para voltar à Ucrâ­­nia, seu Iván decidiu que viveria feliz no Brasil. “Quando cheguei pela Ilha das Flores, rezei um Pai Nosso e pensei: ‘Graças a Deus estou aqui’. O Brasil me protegeu, me deu teto, é onde vou descansar para sempre”, conta.

Ele e a família aportaram no Rio de Janeiro como refugiados, após serem libertados do jugo alemão pela tropas aliadas, na Se­­gunda Guerra Mundial. Já não poderiam voltar para casa, pois todos os que trabalharam para os nazistas, mesmo a contragosto, foram declarados traidores pelo governo soviético.

Acolhido pela comunidade ucraniana, em Curitiba, Iván foi cuidar da vida. Fazia pequenos serviços, aqui e ali, até conseguir um emprego de costureiro na Polícia Militar do Paraná, onde trabalhou por 27 anos. Ao se aposentar, manteve-se um participante ativo da Sociedade dos Amigos da Cultura Ucraniana no Brasil, no bairro Portão, a ponto de fabricar com as próprias mãos e sem qualquer conhecimento prévio um típico instrumento musical da Ucrânia, a bandura (leia mais nesta página).

Paisagens da Ucrânia

Ao percorrer 5 mil quilômetros a bordo de um ônibus, equipado até mesmo com uma ilha de edição, não faltarão belos cenários para dar concretude a esta viagem de volta para o passado. As memórias de Iván se intercalam às variadas paisagens daquele país, em um filme que flerta com o gênero road movie, com trilha sonora produzidas por banduristas. “É um documentário de processo, ou seja, que vai se construindo à medida que as situações vão acontecendo”, conta Pasko.

O diretor não costuma se colocar como personagem em seus filmes, mas decidiu abrir uma exceção em um filme que só se realiza pela relação de afeto entre ele e seu Iván. “Quis dar a ele a oportunidade de contar sua própria história, que é também a de outros imigrantes de várias etnias que vieram para o Brasil ou foram para outras partes do mundo”, diz.

O documentário, vencedor do edital de longa-metragem digital da Petrobras, deve ser lançado em 2011, por ocasião dos 120 anos da imigração ucraniana no Brasil. Com apenas R$ 415 mil de orçamento, Pasko pretende, em seu retorno ao Brasil, correr atrás de mais recursos para transformar o longa, que está sendo filmado em formato Full HD, em filme de 35 mm.

Mergulhado dos pés à cabeça na história e na cultura dos imigrantes ucranianos no Paraná, Guto Pasko quer completar uma trilogia: após Ivan – De Volta para o Passado, deve realizar um documentário sobre a relação de sociabilidade dos ucranianos de Pru­­dentópolis, sua cidade natal.

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