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Exposição

Nelson Leirner brinca com a ousadia

Publicado em 28/05/2009 |
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Nelson Leirner quer amordaçar o público, já que as pessoas não reagem politicamente: “Não há mais ideologia na arte, nem política. O discurso dos artistas só existe hoje se ele tiver um interlocutor”, afirma ele, que inaugurou ontem para convidados no Itaú Cultural, em São Paulo, não uma exposição, mas o resultado da “Ocupação” que ele fez no espaço de cerca de 120 m· no piso térreo da instituição.

Com a liberdade total que o Itaú Cultural lhe deu para abrir o novo projeto da instituição para o local (que ainda vai receber José Celso Martinez Corrêa e Abraham Palatnik), Leirner escolheu colocar trabalhos emblemáticos de sua carreira, todos da década de 1960 – “Porco Empalhado”, “Tronco com Cadeira”, “Homenagem a Fontana II” e “Stripencores” – e fazer releituras contemporâneas dessas obras.

Christina Ruffato

Christina Ruffato / Leirner, aos 77 anos, passa sua carreira em revista numa “Ocupação” Ampliar imagem

Leirner, aos 77 anos, passa sua carreira em revista numa “Ocupação”

O diálogo entre os trabalhos reitera e faz reverberar seu pensamento: se não há mais espaço para a audácia na arte, deixe o público de castigo. Quando Leirner criou “Homenagem a Fontana”, em 1967, a grande novidade do “primeiro múltiplo feito no Brasil, industrializado”, como diz, era a de que o quadro, feito com tecido e zíperes, poderia ser manipulado pelas pessoas. De maneira irônica e bem-humorada, o artista fez menção, tal o título do trabalho, ao emblemático corte que Lucio Fontana promoveu na tela de um quadro como parte de sua pesquisa do conceito espacial – na Homenagem do Brasileiro, cada área da pintura poderia, por assim dizer, se cortada camada por camada pela ação de se abrir o zíper.

Agora, na recriação atual dessa obra, não há como interagir: a composição, chapada, é toda feita com pedaços de madeira e ploter. Numa passagem rápida, tirar a brincadeira de seus trabalhos significa podar o caráter interativo de todas as obras. Num sentido mais amplo, significa ainda mostrar que não há espaço para a liberdade. “O trabalho de arte não pode mais ser interativo: as instituições e a sociedade proibiram isso porque agora aquela obra tem valor comercial. E se você chega ao trabalho e não pode mexer, é frustrante”, diz.

Nelson Leirner está com 77 anos e ao longo de sua carreira se tornou uma referência da arte contemporânea brasileira. Foi professor de uma turma importante de criadores da chamada Geração 80 – cita entre alunos próximos e com os quais tem relação de afeto Leda Catunda, Sergio Romagnolo, Dora Longo Bahia e Luiz Zerbini. A interrupção da interatividade nos diálogos entre as “Homenagens a Fontana” são sua ação mais visível, mas é emblemático também o artista ter optado por colocar “O Porco Empalhado” nessa mostra, obra que ficou conhecida como “happening da crítica” – foi mandada para o 4º Salão de Arte de Brasília em 1967 e aceita e o artista perguntou publicamente por que um porco empalhado havia entrado para o circuito da arte.

Serviço

Nelson Leirner. Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149, São Paulo), (11) 2168-1776. Das 10 às 21 horas. Sábados e domingos, até 19 horas (fecha na segunda-feira). Até 28 de junho.

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