Sexta-feira, 03/09/2010
Divulgação
Guilherme Menezes, o Guizado: paulistano de 36 anos já trabalhou com Elza Soares, Lulu Santos, Nação Zumbi, Cidadão Instigado, Mauricio Takara e Instituto. Seus álbuns Punx (2009) e o recém-lançado Calavera revelam um compositor de mão cheia
Guizado lança disco influenciado pela música mexicana de rua, que conta com participação de Céu e Karina Buhr
Publicado em 26/05/2010 | Cristiano CastilhoCalavera, nome do novo disco do trompetista paulista Guilherme Menezes – além, acredite, de já ser um dos candidatos a entrar na lista dos melhores de 2010 –, dialoga com a festança em pelo menos dois sentidos: o nome (caveira, em espanhol) e a sonoridade, já que é, como diz o próprio, influenciado pela música de rua do feita no México e em outros países hispânicos. Sem nunca esquecer do jazz norte-americano e da canção brasileira.
Pés no chão e cabeça nas nuvens
Cristiano Castilho, repórter do Caderno G
Há uma dualidade intrigante em Calavera. Muito por conta da prosa (ou poesia?), novidade no trabalho de Guizado. Se o instrumental cheio de groove, bases eletrônicas e sintetizadores guiado pela melodia do trompete nos sugere uma paisagem “pé no chão”, tudo muda quando o músico ou seus convidados abrem a boca.
Aí pinta um clima de mistério, algo etéreo, sonhador, embora nunca deixe de sugerir a vida cotidiana, da correria da cidade grande. O que parece é que Guizado quer nos fazer lembrar da nossa capacidade de se encantar. De entrar em êxtase, seja na fila do metrô ou no aperto do Interbairros II.
Isso acontece em momentos brilhantes. Por exemplo, em “Emanação dos Sonhos”, música serena e sintética que explode em uma espécie de maracatu carnavalesco.
“Rolê Beleza”, a melhor do disco, prima pela simplicidade nas linhas de teclados e sintetizadores. É como um passeio à tarde.
“Vendaval” é épica e grandiosa. Como na maioria das faixas, a voz acompanha a linha melódica, criando instantaneamente uma sensação de conforto. É um álbum de um compositor já maduro, que lança cabeças às nuvens por mais que os pés teimem em ficar no chão. GGGG
“Meu trompete agora está mais ligado à cultura de rua. Encontrei no México e em outros países latinos a presença do instrumento e tentei dialogar com o que acontece em Olinda e no Recife. Nesses lugares, os metais têm força”, explica o músico de 36 anos.
Guilherme Menezes, o Guizado, é dono de um dos discos mais comentados do ano passado. Punx revelou um artista que conseguiu celebrar a velocidade e a exigência de uma cidade como São Paulo em músicas instrumentais que vão de solos à la Miles Davis a inserções eletrônicas sujas e certeiras.
Em Calavera, o trompetista vira cantor e também anfitrião. Canta em algumas das 13 faixas e divide atenções com Céu – para a qual gravou trompete em uma música do álbum Vagarosa – e Karina Buhr, antiga parceira. Céu, convidada da moda que também participa do último disco de Otto, canta em “Skatephaser”. Karina solta a voz em “Girando”.
“Meus amigos e o público davam um feedback legal quando cantava nos shows. Mas também pensei na voz como um elemento adicional no arranjo, algo orgânico. Enfim, é tanto para enriquecer a nossa atmosfera quanto para estabelecer uma comunicação maior com o público”, diz o músico.
Outra diferença, que moldou o disco lançado virtualmente pela Trama no dia 21, foi o tempo dentro do estúdio. “Punx era mais cru, praticamente gravamos o nosso show. Agora tivemos mais calma e paramos para pensar aonde poderíamos ir”, diz. E foram longe.
Apoiado na bateria de Curumin, no baixo de Rian Batista (Cidadão Instigado) e na guitarra de Régis Damasceno (Cidadão Instigado e Mr. Spaceman), Guizado, trompetista desde os 17 anos, teve novamente o privilégio de ser um porta-voz de parte de sua geração e, agora, utilizando a voz, reforçar o coro de uma crescente cena paulista que sai do underground para atingir o mainstream. Seja lá o que signifique mainstream nos dias de hoje.
E, como cantor, Guizado é um construtor de sonhos. Semana passada o músico lia poesia francesa do século 19. Baudelaire, por exemplo. “Notei que tem a ver com o que eu faço, é um caminho bacana. Vejo esses poetas sentando na grama, fumando ópio e escrevendo intuitivamente sobre ‘dançarinas no céu’”, explica – ou tenta explicar – o músico. “Vozes de trovões rompendo o ar” e “nuvens que brincam de algodão” foram algumas das frases cunhadas pelo paulista, muitas delas nas madrugadas em que passava no estúdio da Trama, a dez metros de sua casa.
Unidos da rede
Ao contrário do disco anterior, que pipocava em links de blogs, Calavera foi “concentrado” somente no site da Trama. “Temos todos os downloads em um lugar só. Assim, todo mundo sabe que saiu o disco e onde baixá-lo”, comenta Guizado, outro participante do projeto Álbum Virtual – que teve início em 2008 e lançou também Danç-Êh-Sá ao Vivo (Tom Zé), Artista Igual Pedreiro (Macaco Bong), Donkey (Cansei de Ser Sexy), Chapter 9 (Ed Motta) e C_mpl_te (Móveis Coloniais de Acaju).
Guilherme Menezes e seu Calavera vem dar novas cores ao já diversificado cenário da música urbana paulistana, que encontra eco em artistas como Rômulo Fróes, Stela Campos e Curumin, entre outros. “Não acho que seja um movimento como foi o manguebeat. Mas é o resultado atual de uma riqueza musical. São ótimos músicos que vivem o seu melhor momento”, resume. Que continuem assim.
Serviço
Na internet: Baixe Calavera gratuitamente em www.albumvirtual.trama.com.br
ATUALIZADOhá 1h
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