Terça-feira, 09/02/2010
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Bomba atômica: fato na origem de uma das melhores reportagens de todos os tempos, Hiroshima, de John Hersey
Sobrevivência da imprensa pode estar nas mãos de reportagens interpretativas e bem elaboradas. É um novo começo?
Publicado em 03/05/2008 | Irinêo NettoA imprensa enfrenta uma crise sólida, cruel e irreversível.
Os jornais impressos precisam se transformar. Ou serão devorados por meios de informação mais ágeis – no caso, a internet e a televisão, os reis da floresta.
Diante da tempestade que se precipita, não faltam análises e hipóteses. Algo que pode orientar os que esquentam a moringa imaginando soluções possíveis é a atenção que o chamado jornalismo literário tem atraído no Brasil. Porque nos EUA ele é muito respeitado e muito lido desde o século 19. Revistas como a piauí (assim mesmo, em minúsculas) e a Brasileiros surgiram para ocupar espaços que estavam inexplicavelmente vagos, pois a imprensa parece que ainda se debate entre o noticiário bruto e urgente (hard news) e as matérias mais elaboradas e interpretativas.
O cineasta João Moreira Salles, um dos criadores e colaboradores da piauí, lembra de uma fala do jornalista Philip Gourevitch durante a Festa Literária Internacional de Parati em 2006. O autor de Gostaríamos de Informá-lo de que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias comentou que jornais e revistas dos EUA amargam uma queda de circulação que já dura anos. Existem duas exceções: a Economist e a New Yorker, ambas chegaram à marca de 1 milhão de exemplares vendidos em uma única edição naquele ano.
“A razão parece estar relacionada com a velocidade da informação. A gente sabe do atentado terrorista on-line: no computador, no celular, no cabo 24 horas. Tanto o jornal quanto a revista tendem a chegar atrasados. A Economist e a New Yorker não dão a notícia, mas explicam o seu contexto. Por isso cresceram tanto”, diz Salles.
Em tese, o que as duas revistas praticam, em alguma medida, é jornalismo literário. O gênero alia métodos de investigação jornalística a um estilo de escrita mais elaborado. Porém, essa distinção não é consenso.
“Não sei se chamaria de jornalismo literário a execução de reportagens com mais profundidade, pesquisa, vivência e acabamento de texto. Só sei que, quando bem feitas, exercem atração. E a boa reportagem não é só uma forma estelar de informação, mas também um gênero literário equivalente ao romance. E quem diz isso é o Gabriel García Márquez, que entende, de jornalismo e de literatura, bem mais do que eu”, diz José Hamilton Ribeiro, que entende de jornalismo bem mais do que muita gente.
Salles também faz restrições ao termo, usado para traduzir em português o new journalism dos americanos. “Tenho sempre a impressão que ele revela um complexo de inferioridade. É como se o jornalismo não se bastasse. Para sonhar com a permanência, precisaria tomar emprestado a aura da literatura.”
A visibilidade que o jornalismo – literário ou “bem feito” – conquistou para si nos últimos anos é evidente. Além das revistas de circulação mensal, pelo menos duas editoras grandes criaram séries que logo se tornaram referências. A Companhia das Letras publica a coleção Jornalismo Literário e a Objetiva, a Jornalismo de Guerra. As duas disponibilizaram no país livros fundamentais (confira quadro na página 2).
Numa leitura rasa dos fatos – crise na imprensa de um lado, interesse dos leitores por reportagens elaboradas do outro –, não é difícil supor que o jornalismo literário seja uma saída possível e digna para os veículos impressos.
“Ninguém minimamente bem informado poderia estar contente com o grau de banalidade atingido pelo jornalismo brasileiro”, diz Sergio Vilas Boas, um dos fundadores da Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Para ele, os meios de comunicação do país se sustentam num quadrilátero de estatísticas, efemérides, serviço e colunismo.
Outro senhor que entende um bocado de reportagem, Ricardo Kotscho explica que esse “resgate da reportagem” acontece porque há informação demais e cada veículo vai buscar sempre um diferencial, seja no papel ou na internet. “E o diferencial é uma história que o outro não tem, com tratamento original. É o que antigamente se chamava jornalismo de autor, não é aquele texto padronizado.”
“O jornalismo deve apresentar um relato objetivo – mas de uma forma muito particular. Em outras palavras, a melhor reportagem é a verdade, nada mais que a verdade, refletida no talento lingüístico do jornalista”, define Jon E. Lewis, editor de O Grande Livro do Jornalismo, recém-lançado pela José Olympio.
Hoje, nos EUA, surgem pesquisadores que enxergam um novo new journalism, formado pela geração atual de repórteres que, em comum, têm “a dedicação à reportagem e a convicção de que por meio da imersão na vida das pessoas que fazem parte de história que querem contar, freqüentemente por longos períodos de tempo, é possível criar uma ponte entre a subjetividade do repórter e a realidade que ele observa”.
A teoria é de Robert S. Boynton, professor de Jornalismo da New York University, defendida na apresentação de The New New Journalism (Vintage, inédito no Brasil). Nas palavras de Boynton, o que esses profissionais praticam é a “literatura do cotidiano”. Mas basta chamar de jornalismo.
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