Terça-feira, 09/02/2010
O que um gênero como o perfil, consolidado pela revista norte-americana The New Yorker, tem a ensinar para o jornalismo “apressado” que se pratica nos dias de hoje
Publicado em 03/05/2008 | Paulo Paniago, especial para a Gazeta do PovoA pressão do futuro sobre o jornalismo o forçou a comprimir o presente. A aposta no “tempo real” fornecido pelo jornalismo on-line indica um tipo de desespero – o que acontece agora, neste exato instante, que o leitor não pode ficar sem saber – e ao mesmo tempo desencadeia uma crise: quem está no controle do tempo é a informação, não o jornalista. Nesse quadro, não surpreende o estarrecimento das grandes empresas diante da crescente crise da mídia impressa, ou seja, jornais e revistas como fornecedores privilegiados de informação.
Uma possível solução para impedir o agravamento da crise não está em tecnologias ou novos procedimentos. Em outras palavras, não está em olhar para o futuro, mas em aprender com lições do passado. O jornalismo literário tem muito a contribuir, principalmente porque parte de um princípio fundamental: no centro de toda atividade jornalística está o ser humano em sua aventura sobre a terra. Boas histórias, mesmo que dramáticas, brotam o tempo todo. A questão é como contá-las bem, como fazer o leitor voltar a ter interesse nesse fundo humano da aventura, em vez de simplesmente fornecer a ele dados, estatísticas, quadros explicativos, infográficos, que têm cada vez mais ocupado os espaços dos jornais e revistas.
Algo interessante aconteceu com uma revista semanal norte-americana chamada The New Yorker, que existe desde 1925. Aos poucos, os repórteres se especializaram num tipo de texto que foi sedimentado por eles, o perfil. Diferente da biografia, que conta uma história inteira de vida e sempre de alguém que se destacou dos demais por algum fator, o perfil lida com gente desconhecida e que não necessariamente fez algo diferente. Vários repórteres da revista se especializaram nesse tipo de texto: Lillian Ross, John Hersey, Truman Capote e, o principal deles, Joseph Mitchell. Este último era tão bom no que fazia que se tornou referência, primeiro dentro da própria The New Yorker, depois entre todos os jornalistas aspirantes a escrever na mesma linha. As mais famosas histórias dele são os dois perfis que escreveu de Joe Gould, um vagabundo que dizia falar a língua das gaivotas e tinha o projeto de escrever a história oral da humanidade. Os dois textos foram traduzidos em português, no livro O Segredo de Joe Gould e existe um filme que conta a história do relacionamento de Mitchell e Gould, Contos de uma Certa Nova York.
O que tornou o perfil produzido pela New Yorker um marco na produção do jornalismo literário foi uma combinação de dois fatores muito importantes: tempo e espaço. Os jornalistas podiam levar o tempo que quisessem para apurar as informações antes de consolidar o texto para ser publicado. Mitchell conviveu anos a fio com Joe Gould antes de escrever. No momento de narrar, o jornalista era quem determinava o tamanho que o texto teria, não o editor ou o projeto editorial da revista. Não entender ou não considerar a força desse exemplo que mexe estruturalmente com duas variáveis importantes da produção jornalística é um dos equívocos atuais do jornalismo padronizado. Para não deixar ao leitor a sensação de que esse jornalismo não é lucrativo, vale dizer que a revista vendia, em 1996, mais de 600 mil exemplares por semana. Em 2006, tinha ultrapassado um milhão de exemplares.
No Brasil, quem levou em conta a experiência da New Yorker foi a revista Realidade. Infelizmente, a revista foi publicada durante dez anos, entre 1966 e 1976, e já não circula mais. Claro, não foi experiência tão radical quanto a da revista norte-americana, mas acumulou façanhas tão importantes que também virou marco para jornalistas. Roberto Freire era um dos especialistas, junto com Narciso Kalili, Luiz Fernando Mercadante e um nome que até hoje é símbolo de jornalismo qualificado: José Hamilton Ribeiro, que, enviado ao Vietnã, pisou numa mina terrestre e perdeu a perna. Mas não perdeu a história, contada na edição de maio de 1968. Por que acabou? Vários fatores, desde o regime militar que se sentia incomodado com os problemas brasileiros que a revista trazia para o leitor, todo mês, até a concorrência de outro modelo de jornalismo, a revista semanal Veja. Curiosamente, ambas as revistas eram do mesmo grupo, a Editora Abril, que fez a opção pelo modelo mais barato e de retorno mais imediato, talvez sem considerar a perda simbólica no longo prazo. Todo jornalista brasileiro se sente um pouco órfão da Realidade.
O que mudou isso foi o surgimento, relativamente recente, da revista piauí, filha e herdeira dos dois modelos anteriores, The New Yorker e Realidade. As pautas veiculadas pela piauí dificilmente aparecem naquilo que se chama grande mídia. O que difere? A abordagem, o tempo de apuração, as técnicas empregadas. É do uso dessas técnicas, emprestadas da literatura, que se cunhou a expressão jornalismo literário. Não se trata de falar de literatura nem se trata de liberdade para ficcionalizar. Nada disso. O bom jornalista literário sabe que a informação, a fidedignidade aos fatos precisa ser motor de toda boa história. Na hora de fazer o relato, no entanto, pode-se usar de alguns segredos que a literatura descobriu e aprimorou. De volta à revista piauí: um dos modelos de excelência da revista encontra-se exatamente no texto de perfil. Vale dizer, por exemplo, que um dos textos de maior repercussão da piauí foi exatamente a publicação de um perfil de José Dirceu, que provocou polêmica por causa da natureza das declarações do perfilado.
Acontece que fazer perfil é trabalhoso. Requer paciência, inteligência aguçada, conhecimento da dosagem certa de ironia, capacidade de articular o ser humano numa rede complexa de relações (com o mundo, com outras pessoas e situações), percepção do que existe de incomum em pessoas aparentemente comuns, construção cena a cena, capacidade de fazer registro do diálogo completo e de muitos detalhes. Ou seja, tudo aquilo que o jornalismo contemporâneo abriu mão de fazer quando entrou na fila dos apressadinhos.
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O jornalista Paulo Paniago é doutor em Comunicação pela Universidade de Brasília, com tese intitulada Um Retrato Interior – O Gênero Perfil nas Revistas The New Yorker e Realidade.
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