Terça-feira, 09/02/2010
Publicações tentam explorar novo nicho de mercado, apostando na humanização do jornalismo e textos mais elaborados
Brasileiros,piauí e Rolling Stone tentam substituir a revista Realidade,ainda considerada o expoente do jornalismo no país
Publicado em 03/05/2008 | Vinicius BorekiEntre 1966 e 1968, no auge de sua curta existência, Realidade teve tiragem de 500 mil exemplares para um Brasil menos instruído – e, por isso, com menos leitores – do que o atual. Em 1973, a publicação sucumbiu à força da censura do governo militar, deixando milhares de órfãos até hoje. Preocupada, principalmente, com textos de qualidade e mais próximos da literatura, Realidade venceu oito prêmios Esso de Jornalismo em dez anos de vida.
Apesar de novatas, Brasileiros, piauí e Rolling Stone apresentam diferentes estágios de amadurecimento, com características próprias
PIAUÍ
Cercada por forte publicidade, a revista piauí presenteou seus leitores com a edição de número 0, em setembro de 2006. Porém, o lançamento oficial ocorreu no mês seguinte, em outubro, com tiragem de 70 mil exemplares. De lá pra cá, são 19 edições explorando textos em geral longos, pouco uso de imagens e muita criatividade. Segundo João Moreira Salles, a revista pretende falar de qualquer assunto, desde que seja apresentado de maneira criativa e elaborada. Os perfis – não só de pessoas – são o principal expoente da revista, que se inspira na New Yorker.
ROLLING STONE
Originária dos Estados Unidos, a versão brasileira da Rolling Stone também foi lançada em outubro de 2006. Os textos que normalmente se adequam ao jornalismo literário são traduções de autores estrangeiros. Porém, a revista também abre espaço para os repórteres brasileiros exercitarem a criatividade de seus textos, como na matéria da última edição com a grávida Fernanda Lima. A revista também está no número 19, com tiragem de 100 mil exemplares, e, aos poucos, vai acertando em suas escolhas editoriais.
BRASILEIROS
É a caçula das três, com apenas nove edições. Com um time de respeito – Ricardo Kotscho e Helio Campos Mello –, foi lançada em julho de 2007 e conta com participações de grandes nomes do jornalismo brasileiro, como Ruy Castro, autor de Chega de Saudade e Estrela Solitária. O objetivo da Brasileiros é tentar repetir o sucesso alcançado pela revista Realidade, na década de 1960. Com tiragem de 50 mil exemplares, a publicação conseguiu até o momento manter o fôlego em todas as edições.
O ano é 2008. Lançadas a menos de dois anos, três novas revistas tentam recuperar o legado de um jornalismo humanizado e de texto apurado – quase esculpido –, deixado em aberto pela Realidade: piauí (assim mesmo, com o “p” minúsculo), Rolling Stone e Brasileiros. A piauí ainda apresenta plano mais ambicioso: tornar-se a New Yorker – tradicional revista de jornalismo literário norte-americana – do país.
E o que motivaria o repentino nascimento de três publicações com perfis e objetivos semelhantes? A questão cria verdadeiros quebra-cabeças, mas pode ser explicada por especialistas do ramo. “Talvez porque o pêndulo tenha ido demais para o lado da hard news (o noticiário factual), e se abriu um nicho que não estava sendo ocupado. Não criamos a piauí por causa disso, mas o fato é que descobrimos um número considerável de leitores que queriam complementar suas leituras com aquilo que oferecemos”, opina o cineasta e um dos fundadores da piauí, João Moreira Salles.
Nos últimos anos, a internet ganha mais espaço no tempo ocioso do brasileiro, que é ocupado na busca por novas informações em sites noticiosos.
Edvaldo Pereira Lima, um dos diretores da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL) e autor de Páginas Ampliadas, relaciona o nascimento das três publicações à ascensão dos documentários na cultura brasileira. “Nos últimos tempos, cresceu o interesse pelos documentários. A grande maioria é produzida com espírito do jornalismo literário, embora talvez o documentarista não conheça isso. Tem humanização, perfil e mostra a cara do Brasil. Se o público reagiu aos documentários, é porque essa narrativa do real vem de encontro à necessidade do público. E os comunicadores da mídia impressa certamente encontraram nesse público um potencial interessante a ser trabalhado”, justifica Pereira Lima.
Sergio Vilas Boas, um dos diretores da ABJL e autor de Estilo Magazine, acredita que o jornalismo literário se encorpou também por voltar a ser ministrado nas instituições de ensino. “O jornalismo literário voltou – voltou, porque não é a primeira vez que isso ocorre – a chamar a atenção no país por diversos fatores, entre eles as reformulações feitas nos últimos dez anos nos currículos das faculdades de jornalismo Brasil afora, que passaram a incluir a disciplina de Jornalismo Literário e a possibilidade de praticar jornalismo narrativo como trabalho de conclusão de curso”, diz.
Análises
Apesar da proximidade de nascimento e de estilo, Brasileiros, piauí e Rolling Stone têm características únicas. A Brasileiros busca o mesmo glamour alcançado por Realidade na década de 1960. “O que a Realidade fez nos anos 1960 é o que estamos tentando fazer de novo com a revista. E o que é isso? Uma história com começo, meio e fim. Não é aquela notícia telegráfica, existe um texto mais trabalhado. Não é que haja necessariamente uma preocupação literária. A preocupação verdadeira é com o texto bem escrito, seja curto ou longo. É uma questão de cuidado”, afirma Kotscho, que editou cuidadosamente cada uma das mais de três mil matérias que publicou.
Edvaldo Pereira Lima, que não participa da disputa entre as publicações, vê com bons olhos o surgimento das revistas e analisa friamente a característica de cada uma delas. “Das três, a que tem uma procura bem definida, a melhor de jornalismo literário, é a Brasileiros. Já no primeiro número, ela se declarou dedicada a fazer um jornalismo mais envolvente. A Rolling Stone apresenta um bom jornalismo literário nas matérias traduzidas. Mas os repórteres brasileiros nem sempre conseguem apresentar as características necessárias para se tornar um veículo de jornalismo literário”, afirma.
Enquanto a piauí, para Lima, não consegue dar consistência ao trabalho apresentado, possuindo texto bem trabalhado, mas linha editorial pouco definida. Com defeitos e ainda imaturas, o fato é que as publicações representam uma nova forma de pensar e fazer jornalismo.
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