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Artigo

Afeto necessário à vida

Publicado em 26/07/2008 | Marcio e Priscila Robert - Especial para a Gazeta do Povo

Os atentados do 11 de Setembro em Nova Iorque fundamentam as mais variadas discussões a respeito do medo nos dias de hoje. Mas duas correntes de pensamento se destacam.

A primeira corrente parece analisar o endurecimento das políticas imigratórias nos países europeus e nos Estados Unidos à luz de uma idéia geral de que o medo – coerente ou incoerente, justificado ou injustificado, tanto faz – nos aprisiona como reféns. Essa é a corrente, digamos, de cunho sociológico, que problematiza as reduções das liberdades individuais como respostas políticas ao medo coletivo.

A segunda corrente, aparentemente distinta da primeira, é mais médica do que sociológica e não problematiza questões coletivas. Há uma percepção correta do aumento do medo e a conseqüente idéia de que, embora entendido socialmente, ele deve ser tratado como psicopatologia moderna.

É preciso, contudo, considerar que os acontecimentos do 11 de Setembro não inauguraram as discussões a respeito do medo, apenas as fundamentaram em novas bases. No Brasil, por exemplo, há um consenso de que o aumento da violência urbana modificou as relações dos brasileiros com o medo muito antes, desde meados da década de 1970.

Não desconsiderando a importância dos aspectos históricos que envolvem o tema, é impossível não perceber o caráter constitutivo do medo no sujeito. Nesse sentido, é possível delinear uma outra via para abordar a questão na atualidade sem abandonar a implicação do medo na subjetividade e articulando as concepções sócio-históricas e médicas. Ao mesmo tempo em que há um “medo coletivo”, proliferam-se, no âmbito individual, tratamentos rápidos para os mais variados e inusitados tipos de fobia.

Mais ou menos assim: do ponto de vista coletivo, o medo é plenamente justificado e até esperado. É a nossa proteção contra a violência do outro em um mundo não mais seguro. Seja o outro estrangeiro, terrorista, ou alguém de religião ou classe social diferente. Por outro lado, do ponto de vista individual, o medo é menos justificado.

O esperado é o “controle do medo”, que admite apenas o medo adequado, supostamente racional e protetor. Todo o medo que excede o funcional deve receber tratamento químico ou no máximo uma terapia brevíssima. Em outras palavras, é aceitável – e até considerado prudente – o sujeito socialmente amedrontado. É necessário, porém, que este mesmo sujeito seja ousado, não perca tempo com o medo e saiba, sempre, usá-lo a seu favor.

Este paradoxo – do amedrontado destemido – é resultado das exigências do mundo contemporâneo que supervaloriza o individualismo (quase nunca a individualidade) e promove o fracasso ou o afrouxamento dos laços sociais. Busca-se o desfrute máximo das potencialidades individuais adequadas a quaisquer padrões de eficiência em detrimento do sujeito, das suas singularidades e também da relação com o outro.

No entanto, em vez de sujeitos próximos dos ideais de independência e eficiência, o que se percebe é um número cada vez maior de pessoas amedrontadas e “panicadas”, tomados pelo pavor, o tipo mais primitivo de medo e, vale notar, sem nenhuma causa aparente. Isso porque há uma impossibilidade de sintetizar estas exigências incompatíveis: ter medo do outro e ter um desempenho completamente funcional para si. É neste ponto que se configura um dos principais impasses da constituição subjetiva ancorada no medo: não há subjetividade que se sustente sem um laço de confiança com o outro.

É na relação com o outro que se constrói a continência necessária que protege as pessoas de passarem por situações excessivamente amedrontadoras. A sensação de ser real, de existir e de confiar em si mesmo é posterior à presença do outro – pilar da subjetividade, ensina o psicanalista inglês D.W. Winnicott. Toda e qualquer idéia de independência tem o outro como ponto de partida. A tentativa de afastá-lo para apaziguar o medo está fadada ao fracasso. Até porque, em regra, quanto mais longe algo ou alguém está de seu espaço de apreensão subjetiva, maior é a tendência de que se torne amedrontador. Talvez a eficácia das técnicas comportamentalistas – tributárias do modelo médico – ao promover uma aproximação progressiva dos “clientes” aos objetos fóbicos, possa ser pensada à luz da idéia de apreensão subjetiva.

Exemplo melhor da relação entre medo e espaço subjetivo é o modo como as pessoas se relacionam com a morte nos dias de hoje. Mesmo sendo, em qualquer tempo, impossível a significação do próprio morrer, durante muito tempo, a idéia da morte esteve inserida na vida social. “Antigamente não existia nenhuma casa, e apenas poucos quartos em que já não tivesse morrido alguém. Hoje residimos em aposentos livres da experiência de morte e, quando se aproxima os cidadãos modernos são enviados por seus herdeiros a sanatórios e hospitais”, escreve o filósofo alemão Walter Benjamin. Esta alienação da morte do cotidiano das pessoas não resultou em pessoas melhor preparadas para lidar com ela. Ao contrário. A morte é mais temida e menos aceita do que nunca.

Similar ao processo que se deu com a morte, a tentativa de construir um modo de vida social baseado no medo do outro, fruto do isolamento e da exigência de eficiência, restringe ainda mais os espaços para os afetos que fazem parte da vida. E a impossibilidade de significar as experiências com o diferente implica na perda de um suporte subjetivo importante que, em vez de nos libertar do medo, nos aprisiona na ilusão de que podemos viver sem ele.

Marcio e Priscila Robert são psicanalistas (marciorobert@gmail.com).

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