Terça-feira, 09/02/2010
No livro Rainha da Moda, Caroline Weber escreve sobre a influência de Maria Antonieta e o desvario de um mundo aristocrático que deixou de existir
Publicado em 11/08/2008 | Agência EstadoAscensão e queda narrados no modelo de Galliano. Na estampa do lado esquerdo do quadril, o estilista reproduziu Maria Antonieta com um penteado altíssimo e em seu famoso falso traje de pastora – basicamente, um avental amarrado sobre um vestido pastel. Já no lado direito, surge a mesma mulher, também desprovida de atributos régios mas de aspecto medonho e não mais extravagante – com a cabeça rudemente tosada, Maria Antonieta desponta trajando um vestido prático, com um simples lenço branco amarrado no pescoço e um rubro barrete enfiado na cabeça. Ali, ela caminhava para a guilhotina, condenada pelos revolucionários que, naquele ano de 1793, derrubavam o regime monárquico.
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Maria Antonieta, de Sofia Coppola: moda como defesa perante à corte francesa
Depois da morte de Maria Antonieta, seu estilo persistiu, seduzindo súditos pelo mundo afora. Embora seu guarda-roupa tenha sido matéria de sonhos e pesadelos, ele ainda inspira filmes de sucesso como Marie Antoinette, com Norma Shearer, produção de 1938; o longa O Enigma do Colar, produzido por Charles Shyer em 2001; e o recente Maria Antonieta, de Sofia Coppola, inspirado na biografia escrita por Antonia Fraser.
Também Madonna se valeu por duas vezes de sua figura: primeiro na execução de “Vogue” para o MTV Music Awards de 1990, em que ela e os dançarinos usaram trajes e penteados inspirados em Maria Antonieta; e no material promocional de sua turnê Reinvention, de 2004, quando ela usou um vestido espartilhado de Christian Lacroix em estilo do século 18.
A famosa boneca Barbie também surgiu com um modelo copiado das roupas da rainha, enquanto a campanha publicitária de um relógio suíço, da marca Brequet, se inspirou em um modelo supostamente ofertado a Maria Antonieta por um amante.
Não foi apenas o fascínio pela história de Maria Antonieta que inspirou John Galliano. Em seu vestido, ele mostrou como a moda adotada pela rainha ao longo de seu poder era identificada como um arma chave em sua luta por prestígio pessoal, autoridade e por vezes mera sobrevivência. A relação era tão forte entre o que vestir e o reinado de Maria Antonieta que até inspirou a historiadora Caroline Weber a escrever Rainha da Moda – Como Maria Antonieta se Vestiu para a Revolução, que a Zahar lança na nesta semana.
“Percebi que havia uma relação muito forte entre moda e o poder de Maria Antonieta quando comecei a pesquisar sobre o Regime do Terror, na França, e percebi que políticos, jornalistas, oradores, todos faziam referência aos vestidos e aos penteados da rainha”, conta Caroline. “Notei que havia ali um significado político muito forte.”
O livro, recheado com boas ilustrações, retrata a ostentação e o desvario de um mundo aristocrático já desaparecido, mas cujo ícone, Maria Antonieta, ainda inspira não apenas Galliano como também uma boa fatia da cultura contemporânea, do cinema popular às performances de Madonna.
Nascida na Áustria em 1755, Maria Antonieta casou-se ainda jovem com o príncipe francês Luís Augusto, matrimônio ardilosamente preparado por sua mãe, a imperatriz Maria Teresa, e pelo avô do rapaz, o rei Luís XV, a fim de estreitar os laços entre as duas nações e fortalecer seu poderio, particularmente diante da Inglaterra.
Apesar de admirar o porte da nova rainha, os súditos franceses inflamavam-se com a demora do surgimento de uma gravidez (na verdade, Luís Augusto, depois rei Luís XVI, parecia ter aversão a mulheres) e contra a atitude de Maria Antonieta, que encenou uma revolta contra a etiqueta cortesã arraigada, transformando suas roupas e acessórios em expressões desafiadoras de autonomia e prestígio.
Armadura chique
Isolada e hostilizada por facções intrigantes, a recém-chegada austríaca foi obrigada a encontrar um meio de sobreviver na França. Adotou, então, o estilo como arma e, a partir de roupas e acessórios cuidadosamente não convencionais, Maria Antonieta cultivou o que mais tarde viria a se chamar de “aparência de prestígio político”.
Auxiliada por uma inspirada classe de estilistas parisienses, Maria Antonieta cultivou aparências brincalhonas, efêmeras e imprevisíveis. Segundo Caroline, uma de suas modas características foi o pouf, um oscilante penteado, feito com muito talco, que recriava cenas de eventos tanto histórico como corriqueiros. Assim, não era incomum ver no alto da sua cabeça a recriação da cena de uma vitória naval contra os britânicos. Ou ainda retratos bucólicos, com animais pastando, moinhos, camponeses e riachos murmurantes. Enfim, Maria Antonieta punha em seu cocuruto o que hoje se chama ‘instalação artística’.
Ela também combatia a pesada moda atrelada a armações de saias e espartilhos com vestidos chemise, muito mais soltos e confortáveis. O curioso é que, mesmo entre as mulheres da burguesia que consideravam chocantes tais inovações, Maria Antonieta era fonte de inspiração, ou seja, ao mesmo tempo em que criticavam a rainha por suas roupas, essas pessoas continuavam a imitá-la freneticamente.
O estilo heterodoxo de Maria Antonieta, porém, tanto a tornou uma celebridade como contribuiu para sua condenação. “Ela incitava uma reação violenta entre cortesãos que se opunham vigorosamente à sua ascensão e se irritavam com o modo como ela contestava veneráveis costumes reais”, afirma Caroline.
A rainha era acusada também de sangrar os cofres públicos a fim de saciar seus desejos excêntricos. De fato, antes que as forças revolucionárias tomassem Versalhes em outubro de 1789, a coleção de Maria Antonieta preenchia três aposentos inteiros do castelo. Com o agravamento da insurreição, a família real foi obrigada a deixar Versalhes, mas não conseguiu escapar da ira dos inimigos – rei e rainha foram encarcerados até que fossem executados em 1793. Nesse período, seus bens foram saqueados e, da deslumbrante coleção de Maria Antonieta, sobraram apenas um sapatinho enfeitado com fitas que ela perdeu ao fugir do palácio e pedaços de roupas destruídas. Embora pequena, a melhor coleção de relíquias do vestuário de Maria Antonieta está preservada no Musée Carnavalet, em Paris.
Vítima da moda, mas também responsável por torná-la “espelho da História”, Maria Antonieta desafiou, como poucas, as idéias estabelecidas sobre o tipo e a extensão do poder que uma rainha deveria ter.
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Serviço
Rainha da Moda – Como Maria Antonieta se Vestiu para a Revolução, de Caroline Weber. Zahar, 458 págs., R$ 69.
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