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Divulgação / Julio Cortázar, em Paris: 30 anos de exílio voluntário Julio Cortázar, em Paris: 30 anos de exílio voluntário
Literatura

A dupla volta do cronópio

Com 40 anos de atraso, duas obras inéditas do escritor argentino Julio Cortázar chegam ao Brasil de uma tacada só

Publicado em 21/09/2008 | Mariana Sanchez, especial para o Caderno G

Se livros recentes como Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, ou o romance de estréia da carioca Cecília Giannetti, Lugares Que não Conheço, Pessoas Que Nunca Vi provocaram imenso fascínio em você pela originalidade da mescla entre texto e imagem, agora você já pode consultar as fontes inspiradoras de Foer, Giannetti, W.G. Sebald, Valêncio Xavier e outros autores de hibridismos literários. É que, 40 anos após seu lançamento, a editora Civilização Brasileira acaba de lançar no país A Volta ao Dia em 80 Mundos e Último Round, escritos por Julio Cortázar respectivamente em 1967 e 1969 e agora disponíveis aos brasileiros pela tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht.

Espécie de almanaque experimental onde fotografias, desenhos e reflexões muito pessoais convivem caoticamente com poesias e pichações parisienses de maio de 1968, cada livro foi lançado em dois tomos, em edições bastante fiéis às originais. Como o próprio título sugere, A Volta ao Dia em 80 Mundos tem como ponto de partida o livro de Jules Verne (A Volta ao Mundo em 80 Dias). Só que, neste caso, o ambicioso viajante Phileas Fogg dá lugar a um anarquista da palavra cujo passatempo favorito é viajar ao som do piano de Thelonious Monk enquanto penetra em uma tela de René Magritte, decifrar evocações obscuras em um romance de Lezama Lima ou, ainda, acariciar o pêlo do seu gato Teodoro W. Adorno.

Camaleidoscópio

Confira outros títulos de Julio Cortázar disponíveis no Brasil:

O Jogo da Amarelinha (1964, Civilização Brasileira)

Histórias de Cronópios e de Famas (1962, Civilização Brasileira)

As Armas Secretas (1959, José Olympio)

Todos os Fogos, o Fogo (1966, Civilização Brasileira)

Octaedro (1974, Civilização Brasileira)

Divertimento (1950, Civilização Brasileira)

62, Modelo para Armar (1968, Civilização Brasileira)

Os Prêmios (1960, Civilização Brasileira)

Adaptações para a telona

Blow-up, Depois Daquele Beijo - Michelangelo Antonioni (1966)*

Weekend à Francesa - Jean Luc-Godard (1967)

A Hora Mágica - Guilherme de Almeida Prado (1998)

Jogo Subterrâneo - Roberto Gervitz (2005)*

*Disponível nas videolocadoras.

Nascido em Bruxelas por obra do acaso, Julio Florencio Cortázar (1914-1984) viveu na Argentina até que Juan Perón fosse eleito presidente, quando decidiu adotar Paris como residência definitiva. A maior parte de sua obra, portanto, é resultado de mais de 30 anos de exílio; mas Cortázar nunca deixou de escrever no idioma castelhano, tornando-se um dos pilares do chamado boom da literatura hispano-americana. Autor de novelas, romances, peças teatrais, poesias, ensaios críticos e contos, foi no texto breve que encontrou sua voz mais autêntica.

Fortemente influenciado pela literatura fantástica do século 19 (leia-se Rudyard Kipling e Edgar Allan Poe), Cortázar construía seus contos de modo que o real e o fantástico se entrecruzassem cotidianamente, trazendo o insólito para dentro das situações mais rotineiras, como o simples ato de vestir um pulôver e encontrar-se preso dentro dele. Freqüentemente associado ao gênero da prosa curta, é curioso que seu livro mais conhecido seja um romance. Mas não um romance de narrativa ortodoxa, e sim a negação da própria idéia de romance: O Jogo da Amarelinha, de 1964, propunha uma forma diferente de leitura, na qual seus capítulos seriam lidos em ordem não-linear, permitindo ao leitor “saltar” do 1º ao 73º como quem joga amarelinha.

Fruto dessa experiência literária radical em que autor e leitor se tornam cúmplices, A Volta ao Dia e Último Round são a prova de que Julio Cortázar só podia levar a sério aquilo que existisse sob o signo da excentricidade. Logo no tomo I do primeiro livro, questiona: “Quem nos salvará da seriedade?”, em referência a um verso do poeta Ricardo Molinari. As citações, aliás, são abundantes e sabiamente justificadas com outra citação, desta vez de Robert Lebel: “Tudo o que se vê neste quarto foi deixado pelos inquilinos anteriores; portanto você não verá grande coisa que me pertença, mas prefiro estes instrumentos do acaso”. Precursor do hipertexto na literatura, Cortázar oferece ao leitor destes livros até então inéditos no Brasil um inventário metafísico pós-moderno de suas obsessões, ideologias marxistas (de tendência Groucho, é claro) e tudo o que habitava os 80 mundos vividos em um só dia pelo cronópio provocador.

Ode ao jazz

Mais do que o tango argentino, o jazz norte-americano ocupou espaço privilegiado na discoteca de Cortázar. Sobre o gênero, escreveu ser a “única música universal do século, algo que aproximava os homens mais e melhor do que o esperanto, a Unesco ou as companhias de aviação”. De fato, Julio tinha o costume de ouvir discos de jazz de madrugada com fones de ouvido, não apenas para poupar seus vizinhos, mas para sentir a música “brotar do interior do cérebro”. Em seu livro póstumo, Salvo o Crepúsculo, chegou a escrever um capítulo inteiro sobre o assunto, intitulado “Para Escuchar com Audífonos”. Outra interessante incursão de Julio pelos acordes jazzísticos é o conto “O Perseguidor”, que integra o livro As Armas Secretas, cujo personagem Johnny seria o alter-ego do saxofonista Charlie Parker.

Cronópios

Em 1962, Cortázar publica Histórias de Cronópios e de Famas, uma extravagante coleção de contos e outros textos curtos de clara influência surrealista, nos quais o argentino apresenta três personagens fictícios que poderiam resumir toda uma sociedade: os Cronópios, os Famas e as Esperanças. Os primeiros seriam criaturas livres, sensíveis e idealistas, que “desde pequenos têm uma noção extremamente construtiva do absurdo”. Os Famas, ao contrário, seriam a personificação dos burocratas: rígidos, irredutíveis, organizados e sempre pontuais. As Esperanças, por sua vez, caracterizam os seres inertes e preguiçosos, sem atitude própria diante da vida. Por suas características libertárias, a alcunha “cronópio” se tornou muito popular nos anos 60, sobretudo para designar artistas, poetas e personalidades combativas do establishment. Em A Volta ao Dia e Último Round, o autor utiliza o termo com freqüência para se referir a Nietzsche, Man Ray e toda a sorte de surrealistas ou músicos de jazz. Com efeito, a primeira vez que Cortázar cunhou a palavra foi em “Louis, Enormíssimo Cronópio”, resenha de 1952 sobre um concerto de Louis Armstrong, incluída no tomo 2 de A Volta ao Dia.

* * * * *

Serviço

A Volta ao Dia em 80 Mundos. Tomos 1 e 2.

Agir. Preço médio de cada volume R$ 29.

O Último Round. Tomos 1 e 2.

Agir. Preço médio de cada volume: R$ 30.

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