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Sábado, 31/07/2010

DANIEL CASTELLANO/GAZETA DO POVO

DANIEL CASTELLANO/GAZETA DO POVO / Valêncio Xavier morre aos 75 anos Valêncio Xavier morre aos 75 anos
Literatura

Morre em Curitiba o escritor Valêncio Xavier

05/12/2008 | 12:16 | Irinêo Netto atualizado em 05/12/2008 às 16:35

Nenhuma outra experiência de aliar imagem e texto foi tão contundente na literatura brasileira quanto a de Valêncio Xavier. O autor de O Mez da Grippe (1981) e de várias outras histórias morreu às 11h30 da manhã desta sexta-feira (5) devido a complicações ligadas a uma pneumonia. Ele tinha 75 anos e passou 82 dias internado no Hospital São Lucas, mais da metade deles na Unidade de Tratamento Intensivo.

O corpo será velado na Capela Vaticano (R. Hugo Simas, 26 – próximo ao Cemitério Municipal) a partir das 19h e será cremado neste sábado (6) entre 11h e 12h.

Os problemas respiratórios o levaram ao hospital no dia 9 de setembro passado, de onde só conseguiu sair no início de novembro. Depois de cinco dias em casa, voltou a respirar com dificuldade e teve de retornar à UTI. Ele convivia também com a doença de Alzheimer, diagnosticada em 2002.

Um escritor de livros que pediam para ser assimilados como filmes, Xavier conheceu o sucesso de crítica e de público no final dos anos 1990, quando teve parte de sua obra publicada pela Companhia das Letras, depois de uma indicação da crítica literária Flora Süssekind. E ganhou projeção nacional ao ser elogiado pelo escritor Décio Pignatari.

Paulistano que vivia em Curitiba “há 500 anos”, como disse certa vez, Xavier escreveu para a Gazeta do Povo entre 1995 e 2003. Não por acaso, seu primeiro trabalho para o jornal foi um especial sobre os cem anos do cinema.

“Ele era um pioneiro da narrativa do romance icônico-verbal. Um marginal mais ou menos oficial. Não é uma obra do mainstream da prosa brasileira. O Valêncio vai ser lembrado por essa produção híbrida entre o verbal e o não-verbal. Ele era único. Pensava as coisas de modo diferente”, diz Pignatari, que se tornou amigo do escritor mais de 20 anos atrás, ao descobrir O Mez da Grippe.

A reedição da Companhia das Letras compilou a novela célebre com outras quatro, incluindo Maciste no Inferno (1983) e O Minotauro (1985), e acabou vencendo o Prêmio Jabuti 1999 de melhor produção editorial.

Todos os que o conheceram o identificavam como cinéfilo. O escritor e tradutor Boris Schnaiderman afirma que os livros de Xavier devem ser encarados como uma “experiência arrojada de prosa”. “Ele era original, sensível e muito ligado ao cinema. Na obra dele, a imagem e o texto têm um vínculo íntimo. O Mez da Grippe é notável”, diz.

O tradutor chegou a escrever sobre Xavier para a Revista USP, da Universidade de São Paulo. No estudo, destacou o modo com que o autor trouxe para o livro as vivências que adquiriu em outros meios – sobretudo o cinema e a televisão.

Embora tenha se tornado uma referência na literatura, cultuado por uma geração mais jovem que a sua – formada por Joca Reiners Terron e Marcelino Freire, entre outros –, Xavier tinha uma paixão fora do comum por filmes.

Ele realizou vários trabalhos atrás das câmeras, atuando como diretor, assistente de direção, montador, roteirista e consultor. O seu Caro Signore Feline (1980) venceu o prêmio de melhor filme de ficção na 9ª Jornada Brasileira de Curtas-Metragens. Neste ano, seus livros inspiraram peças de teatro – duas montagens feitas pela Pausa Companhia – e filmes – Beto Carminatti e Pedro Merege estrearam no 3º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino o longa-metragem de ficção Mystérios e finalizam o documentário As Muitas Vidas de Valêncio Xavier.

Em um texto para o jornal literário Rascunho, de abril de 2001, o escritor José Castello afirmou que Xavier “escreve como um cineasta: recorta, ilumina, acopla, monta. É do contraste, da surpresa, da assimetria, que suas palavras arrancam força. Elementos que se deslocam, que se enfrentam, que saltam uns sobre os outros, que se comem, como num tabuleiro de xadrez. (...) Ele tem uma visão larga, audaciosa, da literatura, que escreve para desafiá-la, que com ela faz o que bem entende – e, agindo assim, exerce como poucos aquilo que há de mais sagrado para um escritor, que é sua liberdade.”

Na Universidade Federal do Paraná, a professora e pesquisadora Marta Morais da Costa organizou uma disciplina na pós-graduação baseada nos livros de Valêncio Xavier. Em 2004 e 2005, o escritor aceitou convites para ir à sala de aula e debater sua obra com os estudantes. Marta acredita que ele será lembrado como um inventor – citando uma das categorias criadas pelo poeta Ezra Pound –, além de ter sido uma pessoa generosa cuja simplicidade era evidente. “Até para reconhecer a qualidade estética (de sua obra). Como se a literatura fosse um jogo, uma brincadeira”, diz Marta.

Valêncio Xavier Niculitcheff nasceu em São Paulo (SP) no dia 21 de março de 1933. Passou a viver no Paraná em 1954. Escreveu para vários jornais e revistas, trabalhou na TV Paranaense (hoje RPC TV) e na TV Paraná (da rede Tupi), escreveu dramas para a televisão e chegou a dirigir episódios do Globo Repórter.

Criou a Cinemateca do Museu Guido Viaro em 1975 – que se tornaria a Cinemateca de Curitiba 23 anos mais tarde –, espaço responsável pela formação de vários cineastas paranaenses, identificados como a Geração Cinemateca, da qual fazem parte Carminatti, Fernando Severo e Berenice Mendes.

Depois de 2002, escreveu apenas mais um texto, “Coisas da Noite Escura”, parte do livro Rremembranças da Menina de Rua Morta Nua (2006), o último publicado pela Companhia das Letras. Além da mulher Luci e dos filhos Ana Cristina e Carlos, ele deixa a neta Laila e os irmãos Gregori e Ronald.

VALÊNCIO XAVIER - Clique no ícone "Comente" que aparece no topo e no final da página e deixe uma mensagem de condolência.

ancora
Comentários
IZABEL TEREZINHA ANTUNES | 07/12/2008 | 14:05

Me apaixonei pela obra deste grande artista, ao ser "Apresentada" ao MEZ DA GRIPE, pelo escritor Paulo Sandrini, durante uma Oficina de textos que participei, adorei, li, reli,gostei tanto que fiz meu TCC na faculdade sobre esta Obra. Ele foi um mestre na arte de escrever de forma plurisígnica e soncrética. Depois, fui a fundo em sua obra e me tornei fã de carteirinha, a cultura Paranaense perde um dos seus ícones e todos nós perdemos um pouco, ficamos meio orfãos. Meus sentimentos a família.

Milton Colonetti | 07/12/2008 | 13:22

Conheci a obra de Valêncio Xavier quando começou a ser editada pela Cia. das Letras. A criação dele foi decisiva na formação de minha percepção da pontecialidade do literário. Em 2007, paguei meu tributo escolhendo a obra dele como objeto de uma monografia. Agora que o menino mentido se foi, estou disponibilizando o texto como homenagem tardia. Muito obrigado, mestre V.X. http://www.4shared.com/file/74879079/ba9690eb/milton_colonetti_at_cubanos.htm

Nilma Almeida | 06/12/2008 | 20:19

Perdemos um grande escritor e uma pessoa fantástica. Ficam a lembrança e sua obra.

Ciro Cozzolino | 06/12/2008 | 08:25

O Valêncio nos ensinou que o verdadeiro artista pode ser um erudito sem perder a simplicidade do homem comum. Eterno será através de sua obra. Meus sentimentos à família,à Luci,à seus filhos Ana, Carlos , à família Niculitcheff.

Bia | 06/12/2008 | 01:07

Que ano triste para nós que ficamos. Já se foram tantos. O Paraná vai ficando mais pobre sem suas grandes cabeças, sem os loucos iluminados letrados. Valêncio vai se juntar com a turma lá em cima. Paz e alegria para todos eles, e saúde para nós aqui.

ancora

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