Sábado, 31/07/2010
Fábio Braga/ Futura Press
Praça Roosevelt, no coração de São Paulo: local se transformou parcialmente por meio da cultura
Com a ajuda de grupo teatral, a Praça Roosevelt, na capital paulista, volta a ser ponto de cultura
Publicado em 31/05/2009 | Cristiano CastilhoNada aconteceu à Companhia Os Satyros, fundada por Cabral e Rodolfo Garcia Vázquez há exatas duas décadas. Mas muito se passou na região da cidade em que os atores resolveram se instalar.
Fabrício Muriana, ator, publicitário e editor da revista Bacante, especializada em teatro, mora há três anos na esquina formada pelas ruas Gravataí e João Guimarães Rosa, em frente à Praça Roosevelt. O paulista de 24 anos acha que o movimento proporcionado pelo aumento dos teatros não foi suficiente para que a penumbra desaparecesse por completo.
A prefeitura da cidade de São Paulo aprova o movimento surgido a partir das instalações dos teatros, fato fundamental para a parcial revitalização da Praça Roosevelt. Mas, de acordo com a Secretaria Municipal de Cultura da cidade, há mais o que fazer.
Fundada em 1970, a Praça Franklin Roosevelt trouxe mais problemas do que soluções àquela região da metrópole. Havia pouco verde; árvores perdiam espaço para muros de concreto que quase isolavam a área de 30 mil m2; o bar Papo, Pinga e Petisco, também conhecido como Bar do Doca, resplandescia imponente em meio ao vazio que só fazia aumentar. Foi lá – antes o espaço se chamava Djalma’s – que Elis Regina se apresentou pela primeira vez em São Paulo, em 1964.
Mas, ao final da década de 1990, aquela região, perigosa e escura, já havia virado reduto fixo de traficantes, usuários de drogas e prostitutas. Teatros por lá, nem em sonho.
“Não tinha nada aqui”, sentencia Cabral, ator e diretor nascido em Ribeirão Claro, interior do Paraná. Sobre o imóvel onde hoje se localiza o Espaço Satyros 1, havia um hotel destinado à prostituição. Ao lado, outro prédio de 11 andares para a mesma função. Nas ruas, o comércio de drogas fazia usuários descer toda a Avenida Consolação para saciar o vício. “Nós chegamos iluminando esse lugar”, metaforiza o ator.
Os Satyros se instalaram naquela portinha – o teatro tem capacidade para 70 pessoas – em dezembro de 2000. Com experiências internacionais – na década de 1990, o grupo chegou a se dividir e apresentar peças simultâneas em Berlim, Lisboa, além de Curitiba –, e a certeza de que as luzes se acenderiam no lugar, não houve hesitação.
“Foi estratégico. Tínhamos certeza de que iria acontecer o que aconteceu porque acreditamos na mobilização do teatro. A arte modifica seu entorno e sempre conseguimos jogar luzes por onde a gente passa. E não é porque somos maravilhosos ou fantásticos, mas sim porque fazemos arte”, conta Cabral, de 40 anos, que formou-se em artes cênicas na PUCPR.
Reforços
A Companhia Parlapatões somou forças e “invadiu” o mesmo local em 2006. Hoje há sete teatros em toda a extensão da Rua Martinho Prado, um verdadeiro limite luminoso entre as duas partes antagônicas da praça: há ainda um lado escuro e abandonado, que contrasta com o brilho das mesas espalhadas nas calçadas do outro lado. Lá, jovens bebericam e conversam despreocupados. A estratégia comercial ajuda a preservar a saúde financeira dos estabelecimentos.
“A gente tem outra proposta. Fazendo um teatro onde se cobra R$20 a entrada inteira e R$10 a meia, jamais vamos conseguir nos bancar. Com o bar funcionando, conseguimos. São coisas que se complementam”, explica Cabral, ignorando qualquer possível concorrência. “Os Parlapatões chegaram com o mesmo espírito. Por isso, temos uma relação excelente”.
Hoje o grupo vangloria-se de ter transformado a paisagem que veem todo dia. “É impossível falar de teatro e de arte em São Paulo sem citar a Praça Roosevelt. Pessoas circulam por aqui sem nenhum problema. Há nove anos isso era impossível”, diz o diretor da Companhia, indicado ao Prêmio Shell de Teatro em duas categorias pela peça “Antígona”, em 2003.
A parte luminosa da Roosevelt também é frequentada por atores, amadores ou não. Até Paulo Autran (1922 – 2007) já sentou naquelas mesas de madeira. Teria dito a Ivam Cabral que “não queria ficar fora daquele movimento.”.
Tarde da noite, depois da última peça, quando as últimas cervejas eram servidas, um garoto maltrapilho entra levando nas costas um caixote de madeira que parecia já fazer parte de seu corpo. O engraxate, sem rodeios, começa a varrer e a juntar garrafas. “Chamam ele de Bill. Todo dia ele ajuda a limpar e a recolher as coisas. Damos uns trocados e lanches que sobram. Isso eu não quero perder nunca. Por que, na verdade, fomos nós que invadimos o espaço dele”, sintetiza o diretor.
O grupo, hoje, ajuda a iluminar a praça com dois teatros – Satyros Um e Dois –, onde trabalham 40 atores e 15 técnicos.
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