Sábado, 31/07/2010
Marcos de Paula/ AE
Grégoire Bouillier: no Brasil para o lançamento de O Convidado Surpresa, escritor francês ressalta a distinção entre literaturas que exploram a “interioridade” e a intimidade
Após ver publicada uma carta em que terminava um relacionamento de sete anos com a escritora Sophie Calle, Grégoire Bouillier divide uma mesa-rendonda com a ex na 7ª Festa Literária Internacional de Paraty
Publicado em 06/07/2009 | Irinêo NettoParaty (RJ) - Grégoire Bouillier
Ele termina o texto dizendo para ela se cuidar – o que faz de maneira formal. A artista conceitual, que participaria de uma mesa com o ex no sábado, pegou a carta e a digeriu em público, pedindo para uma centena de mulheres comentarem o que acharam daquilo que Bouillier havia escrito.
Antes do arranca-rabo, as circunstâncias que os aproximaram também renderam um livro, O Convidado Surpresa, o primeiro do escritor a ser traduzido no Brasil.
Todos os anos, no seu aniversário, Sophie cria uma lista de convidados com o número de pessoas equivalente à idade que está completando e mais um que representava o ano porvir. Essa figura extra tinha de ser levada por alguém sem o conhecimento prévio da artista. Bouillier foi o escolhido em 1990.
O Convidado Surpresa (Cosac Naify) é uma história de amor e foi publicado antes de Prenez Soin de Vous (o tal livro de Sophie sobre a separação). Sobre este, Bouillier não esconde que ficou chateado com a forma que seu e-mail foi dissecado por outras mulheres. E questiona que poucos se deram ao trabalho de perguntar o que teria acontecido antes da carta final – embora ele mesmo não entre em detalhes.
Bouillier cria uma distinção entre a literatura que explora a “interioridade” e aquela que é a mera exploração da intimidade. Ele faz o comentário como um cavalheiro e não, não está criticando Sophie. A ideia é falar sobre a envolvente narração em primeira pessoa que usa no livro – uma sucessão de frases precisas, diretas e muito íntimas.
Já Sophie diz que seu trabalho parte sempre de algo ocorrido, mas que o resultado não pode ser encarado como “real”. Ela não faz distinção entre intimidade e interioridade – “Essa é uma questão que eu nunca me fiz, que não me interessa” –, mas conta que, a partir do instante em que sente algo, passa a se perguntar o que fará com esse sentimento.
“A carta que eu recebi só poderia ter sido escrita por um homem e endereçada a uma mulher. Não acho que uma mulher seria capaz de fazê-la, nem que um homem pudesse escrever dessa forma para outro homem”, diz Sophie, que lança Histórias Reais pela Agir. “Eu queria ver as reações e as emoções das mulheres a essa carta.”
Para a artista, nada do que escreve ou produz pode ser considerado exploração de sua intimidade. “Tudo é ficção a partir das escolhas que você faz”, diz.
Sophie pediu a Bouillier que viesse ao Brasil para conversar com ela em público pela primeira vez. E ele aceitou. Simples assim.
Ao longo da conversa, o escritor usou várias vezes a palavra “rigolo”, que, em francês, quer dizer “engraçado”. Ele a usa para definir várias questões, inclusive aquelas que orientam sua literatura e não são nem um pouco engraçadas.
O Convidado Surpresa é claramente inspirado em um fato – a noite em que o autor conheceu Sophie Calle (a quem dedica o livro) –, é narrado em primeira pessoa e cita várias pessoas e eventos que não são ficcionais. Mas é classificado como ficção.
“Meu interesse é explorar os limites entre o vivido e o literário”, explica Bouillier. Com a voz baixa e quase sem abrir a boca, ele diz que a realidade e a ficção manipulam uma a outra e vice-versa. “O que me interessa é como elas se confundem. Quero explorar – e destruir – as fronteiras entre uma e outra.”
Questionado sobre sua literatura ser egocêntrica, ele dispensa a crítica como uma “leitura péssima”. Seu trabalho envolve o que chama de “experiência da interioridade”. Influenciado por Michel Leiris (A Idade Viril) e por Virginia Woolf (Mrs. Dalloway), esta desempenha inclusive um papel importante no livro recém-lançado, Bouillier diz que seu propósito é iluminar as questões que o interessam.
Sexo
“Eu sou impura. Essa é a primeira coisa que me ocorre”, disse Catherine Millet durante a Flip. A autora de A Outra Vida de Catherine M. (Agir) se referia à sua sexualidade, tema do livro A Vida Sexual de Catherine M. Crítica de arte respeitada, ela é diretora da revista Art Presse.
Incapaz de produzir ficção – a não ser quando relata as próprias fantasias –, Catherine diz que só sabe escrever sobre o que viu e viveu. “Nos meus livros, espero que não haja nada de ficcional e que nada seja esquecido”, disse.
A ficção, em suas palavras, deu um modelo a partir do qual pôde criar seus textos. Por falar de experiências sexuais, a intimidade também é um tema que costuma cruzar o seu caminho.
Com tranquilidade, ela comenta a questão falando que escrever sempre tem a ver com escolhas. Aquilo que você decide expor acaba criando uma barreira para todo o resto que não foi exposto.
Acompanhe a cobertura da 7ª Flip no blog Livros – http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/livros/
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