Sábado, 31/07/2010
Fotos: Reprodução
Fotografia sem data de Stupakoff para um editorial de moda
Instituto Moreira Salles publica imagens de seu acervo realizadas por profissionais que fizeram história – cada um a sua maneira
Publicado em 21/10/2009 | Irinêo Baptista NettoOs trabalhos dos dois fotógrafos, nos livros Cinefotorama (Medeiros) e Na Rua (Pastore), saem agora dentro da série sustentada pelo acervo do Instituto Moreira Salles, formado por mais de meio milhão de imagens. Cada título é acompanhado por um texto de autor de renome feito especialmente para a edição.
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Imagem de Copacabana (1949), no Rio, por José Medeiros
Mostra Caixola chega à 3ª edição
Da Redação
Imagens e sons em sintonia, criando, por fim, uma narrativa. Essa é a proposta da Mostra Caixola, evento que chega à sua terceira edição e recebe inscrições até o dia 13 de novembro. Ao juntar duas formas de linguagem, o projeto reflete o momento plurimidiático em que vivemos, já que a ideia é que cada participante construa uma sequência de imagens que deve ser apresentada com uma música ou outra forma de áudio.
As inscrições estão abertas nas categorias Acadêmica e Livre, nas quais os inscritos são os autores tanto das fotos quanto da edição final do trabalho. A Mostra Caixola conta ainda com a categoria Montagem, não-competitiva, em que os participantes podem utilizar imagens feitas por outras pessoas para criar o projeto.
O trabalho final assemelha-se a um filme, mas a escolha da forma de narrativa final, segundo o coordenador do evento, André Zielonka, valoriza o trabalho fotográfico. “Uma fotografia congela um momento. Existem coisas que só a fotografia revela, detalhes que no vídeo passam despercebidos”, explica.
A ideia para o formato surgiu em 2004, quando Zielonka, também fotógrafo e professor de fotojornalismo da PUCPR, discutia com colegas os rumos da fotografia e as novas possibilidades da linguagem. Foi nessa época que tomou conhecimento do projeto Magnum in Motion (http://inmotion.magnumphotos.com), que cria essas narrativas usando sons e imagens, inclusive de fotógrafos consagrados como Henri Cartier-Bresson, um dos fundadores da agência Magnum.
Reconhecimento
O projeto Mostra Caixola chamou a atenção do Ministério da Cultura, que contemplou a iniciativa com o Prêmio Pontos de Mídia Livre. Foram mais de 400 projetos de todo o Brasil inscritos no edital. O objetivo era premiar iniciativas de comunicação participativa que promovem interatividade com o público. Neste ano, o evento conta com a parceria da UniCultura – Universidade Livre da Cultura, uma ONG dedicada à pesquisa, produção e promoção cultural.
Serviço
Estudantes e fotógrafos tem até o dia 13 de novembro para se inscrever pelos Correios ou em postos espalhados por Curitiba. A lista de postos, regulamento completo e outras informações estão no site www.mostracaixola.com.br ou pelo telefone (41) 3023-2008.
Fora da série, o IMS também publica Sequências, de Otto Stupakoff (1935-2009), com a proposta de coligir imagens em série de um dos fotógrafos mais importantes do país. Na apresentação do volume, Bob Wolfenson fala sobre a experiência de “identificação mitológica” que teve ao visitar uma exposição do paulista Stupakoff no Museu de Arte de São Paulo.
Na fotografia, existe o valor da imagem única, aquela pinçada em meio a dezenas ou centenas de outras para ser ampliada e exibida, seja numa revista de moda ou na parede de uma mostra. Wolfenson admite que a tarefa de eleger uma foto é sempre ingrata e, com frequência, um profissional acaba indeciso com duas, três ou mais opções de um mesmo trabalho.
Para rebater a escola de Henri Cartier-Bresson, a da “obrigatoriedade da síntese”, Wolfenson cita o artista plástico David Hockney, que realizou uma série conhecida de colagens com fotos instantâneas (snapshots), como as de uma máquina Polaroid.
Para retratar uma estrada, Hockney fotografava separadamente as partes do quadro que queria formar. O resultado final se assemelhava a um mosaico. “Ele enfatizava exatamente a questão de que uma fotografia não dá conta de um todo, de uma situação, de uma cena, de uma ideia e, principalmente, de um ‘ver’”, escreve Wolfenson.
A opção por mostrar vários momentos de um mesmo ensaio no livro de Stupakoff cria pequenas narrativas, dá mais informações e, de certa forma, torna mais forte o vínculo com quem vê. Um bom exemplo é o da “Garota Caindo”. Na primeira imagem, a mulher está sentada numa cerca de arame e olha para o lado, fazendo graça. Na segunda, parece perder um pouco do equilíbrio, mas o recupera na terceira, caprichando na pose. Na quarta e última, porém, ela se estatela no chão.
Sequências inclui ainda quatro textos escritos pelo próprio Stupakoff, que tinha um capacidade impressionante de descrever imagens. Ele disse: “Para um fotógrafo, viajar sem sua câmera é uma ocasião para perceber, em meio à vida comum, numa investigação muito próxima e sem perturbações, que, no fim das contas, a vida não é tão comum assim. Ver e registrar somente aquilo que está ali para ser visto é não entender nada de nada”.
Misses
Um “poema-roteiro” de Zuca Sardan introduz o leitor às 48 imagens de José Medeiros em Cinefotorama. Documento fotojornalístico – há inclusive fotos da final da Copa do Mundo de 1950, no estádio Maracanã –, a seleção feita por Cristina Zappa e Samuel Titan Jr. têm momentos inspirados. Quatro páginas parecem dialogar entre si sobre o tema “enfileirados”. Começa com freiras, de hábitos pretos e chapéus brancos, de costas para a câmera. Continua com um grupo de misses (com coxas que equivalem à cintura de uma modelo dos dias atuais), passa por um grupo de militares em um 7 de Setembro e termina acompanhando trabalhadores da estrada de ferro Rio-São Paulo, em 1959.
Cenas urbanas
O título de Na Rua deixa evidente o tema do ítalo-brasileiro Vincenzo Pastore (1865-1918). Dono de um estúdio fotográfico em São Paulo, grande parte de seu legado é de retratos. Mas o livro organizado pelo IMS investe em cenas urbanas – algumas são reveladoras e todas as 43 têm cerca de cem anos de idade.
O texto de apresentação é de Antônio Arnoni Prado, professor de teoria literária no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Ele diz que a cidade registrada por Pastore tem um “ritmo antigo e quase melancólico”, “sacudida pelo barulho dos bondes e dos imigrantes, pela abertura de avenidas, pela novidade dos balcões de treliça, acompanhando as vesgas curvas nas envasaduras das casas, iluminadas pelos guarda-copos de ferro forjado nos postes das calçadas irregulares”.
As pessoas que aparecem nas fotografias de Pastore são simples – criando um provável contraste com as que visitavam seu estúdio –, usam roupas desgastadas e sujas e vivem da maneira que podem (um vende vassouras, outro, tecidos). As imagens que fez de engraxates mostram meninos de pés descalços trabalhando no Largo São Bento ou jogando bola de gude em frente à Estação da Luz. Em outra, que mostra homens conversando em um banco de praça, dá para ver a propaganda de um calçado da época: “Clark, o único superior do Brasil”.
É uma viagem prestar atenção nos detalhes de cada cena: crianças de calças curtas e botas, as fachadas destruídas que acompanham a linha do bonde, o chapéu de um sujeito que passeia pelo parque (igual ao que o comediante Buster Keaton usava).
Como parte da série do IMS, já foram publicados Cara de Artista, de Carlos Moskovics e texto de Sergio Miceli, e Paisagem Moral, de Marcel Gautherot, com poema inédito de Francisco Alvim.
Serviço
Sequências, de Otto Stupakoff. Instituto Moreira Salles, 216 págs., R$ 62.
Cinefotorama, de José Medeiros com “poema-roteiro” de Zuca Sardan. Instituto Moreira Salles, 128 págs., R$ 39.
Na Rua, de Vincenzo Pastore com ensaio de Antônio Arnoni Prado. Instituto Moreira Salles, 108 págs., R$ 39.
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